Na embaixada de Londres de leopardo à trela

“Veva” é um romance histórico da autoria de Joana Leitão de Barros, publicado pela Oficina do Livro.



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Habituado a ter mais liberdade em Lisboa, o leopardo Toto só era passeado à trela a altas horas da noite nas ruas de Londres, numa tentativa de minorar o alarme dos vizinhos da embaixada de Portugal, mas nem assim a embaixatriz Genoveva de Lima Mayer Ulrich conseguiu que a presença do grande felino fosse tolerada. “Senhora, os ingleses não gostam de ter cá uma fera, acham-nos insanos”, conta-lhe uma das criadas, citada por Joana Leitão de Barros no romance histórico “Veva”.

Transformar em ficção cinco décadas da vida movimentada de uma “senhora de sociedade excêntrica que inicialmente me era antipática” foi o desafio a que a jornalista e escritora se lançou, apoiando-se no espólio pessoal e da fundação que foi deixada em testamento pela filha de Genoveva de Lima Mayer Ulrich, uma mulher sempre insatisfeita com o papel que a sociedade lhe dera. E que conciliou um espírito mais indomável que o do leopardo de estimação - que foi entregue ao Jardim Zoológico de Lisboa, não sem antes deixar forte impressão na então princesa Isabel de Inglaterra - com o estatuto de correspondente de Salazar. O ditador nunca aceitou convites para jantares em sua casa, mas recebeu-a em São Bento e chegou a libertar um amigo da aristocrata por sua insistente intervenção.

Tudo na existência de Veva, sempre empenhada em ser mais do que uma mulher bonita, foi um desafio aos padrões. Desde a infância, pois o pai, Carlos Mayer, era um dos “Vencidos da Vida”. Por isso cresceu rodeada de figuras como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro, reunidos na quinta lisboeta da sua família, que seria sacrificada para a construção das Avenidas Novas. Um rude golpe para o patriarca que, ao ver-se assolado pela cegueira, optou pela morte, numa de muitas tragédias que sulcaram o percurso de quem teve uma vida boémia, assistiu a actuações de Sarah Bernhardt e Maria Callas nas suas recorrentes viagens pela Europa e chegou a fazer caçadas em Moçambique.

O romance revela as nuances do casamento de Genoveva com Ruy Ulrich, por duas vezes embaixador em Londres e pai dos dois filhos que, por motivos mais ou menos funestos, não lhe deram netos. Mas também da duradoura relação platónica com o escritor Afonso Lopes Vieira (que a rotulou de “deliciosamente perigosa e pérfida”) e de outras ligações mais mundanas tratam as quase três centenas de páginas em que Joana Leitão de Barros faz o retrato de uma alta sociedade e intelectualidade portuguesas em que amizades ruíam por motivos fúteis e enormes azedumes brotavam de divergências políticas.

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