Na corda da sobrevivência

Depois de uma estreia mundial no encerramento do Festival de Cinema de Tribeca, o documentário “Simple as Water”, de Megan Mylan, vencedora de um Óscar pela curta-metragem documental “Smile Pinki” chegou à HBO Portugal em jeito de meditação sobre os laços familiares de vidas devastadas pela guerra na Síria.



Há poucos realizadores com tanto acesso à vulnerabilidade dos que estão sem país, perdidos num mar de burocracia, como Megan Mylan. Conhecida por emoldurar as palavras que escapam aos horrendos acontecimentos que quer dar a conhecer – do lábio leporino que ostracizou uma rapariga de 5 anos na Índia rural aos jovens sudaneses que se vêem obrigados a enfrentar a abundância da vida nos subúrbios americanos que os aliena – Mylan olha de frente para a guerra na Síria através de histórias partilhadas por cinco famílias que, forçadas à distância, sobrevivem num lugar incerto, não-linear e sem horizonte. Depois de travessias fatais, esperam resposta de pedidos de estatuto de refugiado, asilo, reagrupamento familiar ou apenas abrigo temporário.

Espelhos familiares

“Tenho estado à espera. Estou farto de tanto esperar.”, diz um homem ao seu filho enquanto falam por vídeo-chamada. O rapaz de 8 anos ainda está na Síria com a mãe, que adoeceu com cancro. Enquanto esperam por reagrupamento familiar, que está dependente da aquisição de estatuto de refugiado do pai, a viver em Butzbach, na Alemanha, são ocupados pela ansiedade de nada saberem e de nada conseguirem saber.

Enquanto isso, em Atenas, Yasmin vive no porto com os seus quatro filhos, e espera reencontrar-se com o marido que também em Butzbach partilha casa com o primeiro homem. Não sabendo falar a língua, é-lhe explicado o processo burocrático que a levará a juntar a família. Depois de um breve silêncio, a sua resposta surge como uma facada que dá a si mesma: “Isto dá-me dores de cabeça. Acabarei por voltar para a Síria.” Mais tarde, no discurso choroso da filha mais velha, é revelado que após a sétima tentativa de entrarem no barco que os trouxe até ali sofreram a morte de um outro membro da família. “Deixámos o nosso irmão escorregar das nossas mãos”, lembra a jovem rapariga, esfregando os olhos.

Perceber onde esta criança se encontra emocionalmente é trabalho difícil para alguém que precisa de segurar uma câmara junto à cara naquele momento de profunda tristeza. Mas assim Mylan o faz, no meio dos barulhos da vida a acontecer ao fundo. O tempo continua a passar e tudo se parece mover, com a excepção daqueles que coloca no ecrã.

Entrelaçada a estas está também a vida de Samra em Reyhanli, na Turquia, que se vê forçada a registar os filhos num orfanato. Sozinha com cinco filhos, e dias intensos de trabalho manual no campo, não consegue cuidar da própria família, responsabilidade que foi transferida de forma orgânica para o filho mais velho, uma criança de 12 anos que tal como o primeiro rapaz, leva nos ombros demasiado peso. “Eu sou capaz de o fazer sozinho. Quero ser o pai deles. Quero ser tudo para eles”, diz, tentando demover a mãe de fazer o inevitável.

Em Ohio, na Pensilvânia, um irmão também cuida de outro enquanto esperam por asilo. À primeira vista, um ajuda o outro a prosseguir os seus estudos no Ocidente. Após verificação, os rapazes são Abdulrahman e Omar, caras espalhadas pela CNN, depois do primeiro ter tido uma perna amputada após um ataque aéreo, e o segundo o ter carregado às costas até à Turquia.

A única história que não pode ser cosida às restantes é a de Diaa que permanece na cidade Siriana de Masyaf, onde chora o desaparecimento do filho. Depois de o enviarem para o Egipto, Mohammad regressa sem lhes dizer. Cinco anos passaram desde esse momento, e tudo o que esta mulher e a sua família podem esperar é que o filho tenha sido raptado pelo Estado Islâmico e assim esteja elegível para um programa de troca de prisioneiros. Com isso em mente, passa os dias a inspeccionar as redes sociais na esperança de se deparar com um relance dele. É através desta história, a única não filmada por uma equipa no local, que a escala e dimensão dos vestígios da guerra civil são confirmados.

Esventrar purgatórios

O que é vigoroso em “Simple as Water” não são os testemunhos em si, mas a realidade diária em que se enquadram. Megan Mylan nunca desvia o olhar, mas também não instiga o que mostra. Ao contrário do habitual documentário que usa uma temática para se desenrolar, “Simple as Water” é um documento observacional que pede ajuda sem necessitar de exercícios emocionais invasivos, texto de acompanhamento ou narração. Pouco sabemos sobre os vários “como” ou “onde” de cada família apresentada. Nota-se que o importante para Mylan é o que a adição nesta tapeçaria de vidas atinge. Como a realizadora disse ao Guardian, “o filme tem os andaimes do jornalismo”, ideia depois concluída pelo crítico Radheyan Simonpillai, “mas é guiado por humanidade”. O fundamento do filme é precisamente o da figura-pensamento que equilibra o escarafunchar da recolha de informação com empatia.

Filmado durante cinco anos pelas mãos de três diferentes directores de fotografia, todas as suas histórias permanecem suspendidas numa linha que viaja entre a frustração da distância e o medo das adversidades que surgirão até os muitos pedidos serem validados ou não. Um tom quase celeste ajusta-se à sua linguagem e dá-lhe a designação de meditação, uma calma na tempestade, sentimento que se estende pelo filme. O último acto regressa apenas à história de Yasmin, mas sem nunca a completar. Na última década, as piores hostilidades devastaram a Síria. Aquando da entrada de Yasmin num abrigo alemão, sente-se na cineasta uma vontade de ir para lá do que é contado. De finalmente penetrar um fim em vista.

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