Música todo-o-terreno para a história de uma ilha ocupada

Em São Miguel, nos Açores, são muitos os trilhos pedestres que ajudam a contar a história do arquipélago. No Tremor, de regresso e a decorrer até este sábado, partimos pelo que resta das Quatro Fábricas da Luz, numa viagem também mapeada pela cultura.



No Tremor, festival de música que por estes dias está de regresso a São Miguel, nos Açores, os dias começam a desenhar-se bem cedo. As propostas do festival não se realizam apenas quando o sol se põe e muito menos se fazem somente na cidade de Ponta Delgada. Para quem já aqui passou, o modus operandi é conhecido. É por isso normal que, durante os dias em que decorre o festival, haja autocarros matinais que nos conduzem, em grupos, a locais secretos, que são também uma oportunidade inusitada para se explorar os cantos e recantos da vasta ilha. É sempre o início de uma nova forma de nos deslumbrarmos uma vez mais com os segredos do arquipélago que começou a ser povoado pelos portugueses em meados do século XV.

Sob a habitual neblina matinal que é também uma imagem de marca dos Açores, embarcamos numa viagem que nos leva à freguesia de Água d’Alto, no concelho de Vila Franca do Campo, onde se inicia o trilho pedestre das Quatro Fábricas da Luz, proposta deste ano para o Tremor Todo-o-Terreno, espaço programático que se tornou uma extensão fundamental da experiência que o festival tem vindo a promover ao longo de oito anos.

A temperatura amena e a curiosidade aguçam o espírito do grupo que vem às cegas. De antemão sabemos apenas que pelo caminho teremos algumas surpresas. O percurso com pouco mais de dois quilómetros que temos pela frente foi entregue este ano à artista multimédia Sofia Caetano, ao projecto de electrónica PMDS (Pedro Sousa e Filipe Caetano) e ao saxofonista, improvisador e performer Luís Senra.

Seguindo o mote do Tremor Todo-o-Terreno, de “procura por novas formas de leitura sobre o território patrimonial e histórico dos Açores e a criação de espaços de diálogo entre artistas locais e os de outras paragens”, sabemos também que a experiência que iniciamos não se remeterá apenas às belezas naturais da ilha, mas vai também trazer outros ecos, linhas de pensamento artístico e cultural que vão cruzar-se. Neste caso em concreto, entre aquilo que é o ecossistema natural da ilha e a sua história da industrialização. Mas já lá vamos.

Foi uma estreia do Tremor em Vila Franca do Campo. Num ano em que praticamente todos os habituais festivais de música foram novamente cancelados face à ainda complexa conjuntura pandémica, a edição de 2021 do Tremor, que teve início na passada terça-feira e que termina este sábado, surge como prova de resiliência e o sentimento é de missão cumprida. A remar contra a maré, o festival, que começou a desbravar caminhos em São Miguel já há oito anos, reorganizou-se e não deixou de alcançar importantes objectivos.

Ao NOVO, numa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição em papel de 10 de Setembro, o co-director artístico Luís Banrezes explica que o festival se redireccionou para o exterior e se estreou em locais da ilha por onde ainda não tinha passado, como é o caso de Vila Franca do Campo.

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