Movimentos centrífugos: os outsiders do cinema americano

São 14 longas e oito curtas-metragens nunca antes estreadas em Portugal, numa concisa amostra do melhor que o cinema independente americano tem produzido na última década. De 30 de Novembro a 8 de Dezembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa, a FLAD apresenta o ciclo “Outsiders - Cinema Independente Americano”.



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À primeira vista, olhar para o cinema independente americano é vasculhar as múltiplas magnum opera de John Cassavetes, Charles Burnett, Hal Hartley, Alex Ross Perry ou Miranda July. Mas há um outro lado no seu espectro, onde se encontra um cinema electrizante, a pulsar de ambição, que existe fora do radar pela melhor das razões. Não tem um habitat natural, que é o mesmo que dizer que é imune à definição. As obras de Shane Carruth, Nathan Silver ou até Ted Fendt, conhecidos por engendrar submundos contemporâneos francamente sui generis, não são desconhecidas para um público mais dedicado, muito devido à força de plataformas de streaming como a Mubi, com um historial de dedicação a programar um cinema com particular dificuldade em ser distribuído de outra forma.

São raros os momentos em que os seus filmes acabam a conquistar estreias nas salas de cinema, especialmente na Europa. Um dos exemplos disto é “Her Smell: Música nas Veias”, o primeiro filme de Perry a ter estreia comercial em Portugal em 2019 e a sua sexta longa-metragem. Todos juntos, depuram uma ideologia de uma escola (os maiores aglomerados continuam a existir na cidade de Nova Iorque) que normalmente se apoia nos mesmos actores e equipa, produz realizadores com fortes cunhos autorais, e é, mais crucialmente, regida por baixos orçamentos e gravações com câmaras digitais, muitas das vezes à mão, num ambiente em que tem de existir abertura à improvisação, seja pela parte dos actores ou enquanto resultado de eventuais soluços do processo de produção individualizado, sustentado por vezes através de crowdfunding.

Dunham, Safdie, Zhao

Carlos Nogueira, programador deste ciclo da Fundação Luso-Americana, adequadamente intitulado “Ousiders”, selecciona algumas das vozes mais definidoras e centrífugas do cinema independente americano do último milénio, muito distintas entre si. No caminho, recorda os primeiros passos de realizadores que cresceram do cinema DIY (do it yourself) para um lugar mais indie-mainstream, após forte aclamação pela crítica e público mundiais. Fazem parte destes Lena Dunham, cuja primeira longa-metragem, “Tiny Furniture”, abrirá o ciclo no próximo dia 30 de Novembro: um auto-retrato inicial da artista e uma antevisão do que viria em breve a ser a infame série televisiva “Girls”, na qual Dunham se imprimiria enquanto “uma voz de uma geração”.

Mas também foram convocados Ben e Josh Safdie, os irmãos nova-iorquinos cuja arrojada obra, fortemente reminiscente dos filmes maníacos e alucinantes do cinema americano dos anos 70, só veio empoderar e até amadurecer um terreno tremido repleto de sensibilidades envoltas em subvertidos estilos e ímpetos visuais, ainda que oriundos de abordagens naturalistas. Sete curtas-metragens do par são um dos destaques do ciclo.

De olho nas longas-metragens espalhadas pelo programa, é logo de salientar o brilhante “The Mend”, de John Magary, uma obra-prima moderna, absolutamente inconfundível, que transforma a disfunção entre irmãos num estudo do seu protagonista Mat (Josh Lucas), produto de uma sociedade que tanto ilumina como aliena, aceita ou continuamente rejeita, filmado como se o adulto fosse uma lenda urbana, sempre mas nunca presente ao mesmo tempo. Sem sombra para dúvida, o melhor filme do ciclo.

Os muito amados “Sun Don’t Shine”, de Amy Seimetz, e “In the Family”, de Patrick Wang, extraordinários exemplos do que o cinema pode ser quando foge a conclusões moralistas e a rótulos que nulificam a argumentação, são obras que poderiam ser aparentadas a filmes de género - ao noir e ao melodrama -, cada um com tons muito vincados. Os poderosos filmes de Robert Greene, “Actress”, Eliza Hittman, “It Felt Like Love”, Khalik Allah, “Field Niggas”, ou “The Rider”, de Chloé Zhao, apontam para o cerne das teses que os artistas iriam, a partir dali, continuar a desenvolver - da performance da realidade, a actriz dentro da actriz de Greene, aos documentários reais de Zhao. Há também objectos estranhos e pós-modernos como “The Plagiarists”, de Peter Parlow. Mas o ciclo não fica por aí.

Depois de mergulhar em psiques individuais, toca no mumblecore de Joe Swanberg, que apresentará dois filmes e dará uma masterclass, e Greta Gerwig, um termo para um movimento sinónimo de autocomplacência caucasiana que, tal como o próprio Swanberg já comentou, “era para ser uma piada, mas ainda não nos conseguimos livrar dele”.

Neste movimento, encontra-se um espaço mental de vitalidade e perseverança que inaugurou a carreira de Gerwig e que exemplifica o que acontece quando jovens que não se revêem no cinema que existe o começam a fazer. Nunca panfletário, “Outsiders” vem, como o programador o diz, “preencher lacunas, estabelecer pontes e reencontrar elos perdidos”. Noutra palavras, homenageia filmes de tela grande, em parte por descobrir, que permanecem na ânsia de se verem projectados nela. Um verdadeiro deleite programático.

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