Mostra Nacional de Jovens Criadores celebra 25 anos em lógica de festival e “constantemente disponível para a mutação”

O evento vai decorrer entre os dias 1 e 3 de Dezembro, em Almada. Recebeu o maior número de sempre de candidaturas, tendo sido seleccionados 114 projectos. Mostra vai ser organizada pela primeira vez pelo Gerador, cujo presidente, Tiago Sigorelho, salientou ao NOVO a qualidade dos projectos escolhidos e a confiança no futuro da cultura em Portugal.



Está prestes a arrancar uma nova edição da Mostra Nacional de Jovens Criadores (MNJC), um dos mais importantes eventos de cultura em Portugal e a iniciativa que mais estimula os jovens artistas a criarem. Este ano não faltam motivos para celebrar a Mostra Nacional de Jovens Criadores.

A começar pelo facto de se tratar da 25.ª edição deste evento do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), que vai ser organizado pela primeira vez pelo Gerador, uma plataforma portuguesa independente de jornalismo, cultura e educação. A mostra recebeu este ano o maior número de sempre de candidaturas: 838. Deste extenso lote de projectos submetidos foram seleccionados 114, que Tiago Sigorelho, presidente do Gerador, descreve como “incríveis” em entrevista ao NOVO.

Nesta edição, a Mostra Nacional de Jovens Criadores vai decorrer numa lógica de festival durante três dias (1, 2 e 3 de Dezembro), em Almada, mais precisamente no Fórum Municipal Romeu Correia e no Centro Cultural e Juvenil de Santo Amaro.

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Uma das principais novidades desta edição prende-se com o maior número de categorias – 15 no total. A MNJC vai distinguir um vencedor em cada área. Os vencedores vão ser anunciados numa gala que será realizada no último dia do evento e vão receber um prémio no valor de 1000 euros.

Tiago Sigorelho admite que o número de categorias pode expandir-se mais face às constantes mutações na arte e na cultura. O presidente do Gerador assinala o que podemos esperar da mostra deste ano, fala sobre a importância de aproximar mais a iniciativa do público e frisa que há muito talento, que se pode constatar nos projectos escolhidos, para assegurar um futuro radiante ao sector da cultura em Portugal.

É uma edição especial da Mostra Nacional de Jovens Criadores, uma vez que marca os 25 anos desta iniciativa. Tendo esta efeméride em conta, o que se pode esperar da mostra deste ano?

Nesta edição, exactamente por comemorar esses 25 anos de vida, decidimos tentar encontrar algumas disrupções em relação ao que foram edições anteriores. Em primeiro lugar, começámos por introduzir algumas categorias novas nas próprias áreas a que os jovens criadores podiam candidatar-se, adequando-as mais ao que é a dimensão contemporânea, jovem, e também da interpretação artística. São cinco dimensões que menciono num instante: arte digital; arte urbana; cerâmica, que apesar de ser algo bastante antigo tem tido reinterpretações constantes por parte de jovens, o que é muito importante; gastronomia; e humor. Estas duas últimas são dimensões ligeiramente mais provocadoras e que nos ajudam a debater quais são os limites da cultura e a sua própria definição. Começámos por aí, por tentar reinventar as categorias. Ao todo são 15 categorias a que os jovens criadores podiam candidatar-se e o resultado acabou por ser bom. Tivemos 838 candidaturas, foi o maior número de sempre da história da mostra, o que nos deixa muito orgulhosos. Muitos dos projectos eram de extrema qualidade. Os projectos que foram seleccionados – foram seleccionados 114 – são incríveis e isso orgulha-nos bastante.

A própria mostra vai ser organizada, desta vez, numa lógica de festival de três dias. Muitas vezes, a mostra acaba por ter um perfil institucional. O que queremos é transformá-la para ter um perfil mais jovem e para que também os próprios criadores e o público se sintam interessados em fazer parte da mostra. Ao longo desses três dias vai existir um conjunto grande de iniciativas que têm a ver com as próprias concretizações das dimensões artísticas propostas: por um lado, temos as dimensões expositivas e, por outro lado, temos as dimensões performáticas, que vão estar espalhadas ao longo destes três dias. Por isso, no fundo, vamos ter uma minimostra dedicada à música, outra dedicada ao cinema, outra ao teatro e por aí fora. No último dia vamos ter uma gala de entrega de prémios. Este ano, em cada categoria, o vencedor vai receber um prémio monetário de 1000 euros, o que tem bastante impacto. Mas, ao contrário de anos anteriores, o vencedor só saberá na própria gala.

Há um último destaque que tem a ver com a dimensão expositiva. Também ao contrário de anos anteriores, decidimos não fazer a exposição organizada pelas suas áreas originais. Ou seja, antes havia uma área dedicada à pintura, outra à escultura. Este ano, depois de o júri ter seleccionado as obras, decidimos olhar para as próprias obras e organizá-las em função de uma dimensão curatorial. O que concluímos – e foi bastante interessante e curioso – é que todas as obras de jovens até aos 30 anos acabam por reflectir bem o tempo de uma geração e as preocupações que esta geração tem. Acabámos por encontrar um percurso expositivo que tem cinco momentos e que reflecte esse tempo identificado por esta geração. No fundo, começa por uma parte ligada ao que chamámos “Intimidades”, reflexões sobre o que significa ser o eu e a relação do eu com os outros. Uma segunda dimensão tem a ver com as “Fragilidades”. No contexto actual existem vulnerabilidades ligadas aos jovens, nomeadamente ao seu futuro, ao seu futuro económico, da sustentabilidade. Temos uma terceira dimensão a que chamámos “Metamorfoses” que, no fundo, são momentos de desconstrução, de hipótese de mudança. Depois temos uma quarta dimensão chamada “Futuros”, que são hipóteses sobre o futuro, algumas delas não as mais radiantes. À última dimensão chamámos “Recomeços” e são hipóteses mais esperançosas, para novas construções, novos inícios. Julgamos que isto vai fazer com que a exposição tenha uma forma de ser olhada e de ser percorrida que é muito mais interessante.

Houve uma necessidade de reinventar esta iniciativa e de aproximá-la mais do público?

Sim, houve. Essa vontade era clara. Primeiro, tem a ver com o tipo de trabalho que o Gerador faz habitualmente, um trabalho muito focado na relação com os jovens, nas suas várias dimensões. O Gerador é uma plataforma que trabalha o jornalismo, a dimensão da educação e a dimensão da cultura, e todas estão orientadas para os jovens. Julgamos que já temos tido essa capacidade de organizar iniciativas que fazem sentido para este público. Sentimos que havia também esta hipótese – muito motivados pelo IPDJ para fazer esta evolução – de transformar a mostra em algo que seja efectivamente mais consequente para todos os participantes e para todas as pessoas que vão assistir. Também sentimos, da parte da Câmara Municipal de Almada, que é a cidade onde a mostra vai estar presente, um impulso muito grande de nos ligarmos à dimensão da juventude, é algo que na sua estratégia está bastante claro, e por isso houve um conjunto de entidades que aqui estiveram reunidas, todas com a mesma lógica, e acho que o resultado vai ser incrível.

A criação destas novas categorias acompanha a constante mutação da arte e da cultura. Isto significa que a mostra tem de estar permanentemente preparada para a forma como a cultura e a arte evoluem e para saber adequar novas áreas que surjam?

Não há maneira nenhuma de olhar para um grande evento, uma grande iniciativa relacionada com a cultura e com a arte, que não esteja constantemente disponível para a mutação. A arte é isso mesmo, a cultura é isso mesmo. É uma constante reinvenção, uma criatividade absoluta, e estou em crer que, nos próximos anos, as categorias vão continuar a evoluir. Vão existir novas categorias, vão existir categorias que vão fundir-se, vamos ter de repensar constantemente. Esse é um exercício que faz sentido para os jovens, mas que faz sentido numa perspectiva lata do que é a cultura e a arte. Nós sentimos isso de muitas pessoas que participaram, muitas que participaram até com novas dimensões. Posso falar de uma dimensão que não considerámos em que, este ano, tivemos um conjunto grande de pessoas que nos contactaram, que são as artes têxteis – algo que não colocámos mas que, actualmente, tem uma dimensão grande que ultrapassa a lógica da moda. Existem sempre hipóteses de renovar, de repensar estas categorias e até organizá-las de outra maneira no futuro.

A longevidade da mostra e o facto de esta edição ter registado o maior número de candidaturas de sempre demonstram o impacto que esta iniciativa tem no panorama cultural português?

Sim, acho que, muitas vezes, não se relaciona a ideia da tradição, a ideia da solidez de uma iniciativa ou de uma instituição com a juventude. Mas acho que essa ligação existe, para os jovens criadores saberem que estão a participar numa instituição que existe há 25 anos e que, por isso, transmite solidez, transmite segurança. Eles sabem que, a partir daí, se calhar vão ter passos seguintes mais disponíveis, mais abertos. Sentimos que também havia essa necessidade de voltar a lembrar a importância do que foi a mostra desde o seu nascimento. Por isso, temo-nos focado muito nesta dimensão dos 25 anos – é algo muito relevante para nós e julgo que também para os jovens – e, ao mesmo tempo, de estarmos constantemente disponíveis para nos reinventarmos. Acho que é isso que pretende qualquer pessoa que queira candidatar-se. Também sentimos, da parte das pessoas que querem ir ver, vontade de descobrir quem vão os criadores do futuro, as pessoas que nos vão marcar, até porque, no passado, a mostra já deu lugar a nomes incríveis, da Joana Vasconcelos ao Valter Hugo Mãe, ao Gonçalo M. Tavares, à Maria Gambina. Há muitos nomes que surgiram pela primeira vez na Mostra Nacional de Jovens Criadores e acredito que este ano vão aparecer criadores incríveis que vão marcar gerações futuras.

Esse é um dos aspectos interessantes desta iniciativa. Uma breve passagem pela lista de vencedores de edições anteriores revela alguns dos maiores nomes da literatura, da arte, da moda, entre outras áreas, em Portugal. Essa é uma das grandes motivações para os jovens artistas que participam na mostra?

Há que dizer que quando esta iniciativa foi criada, há 25 anos, pelo Clube Português de Artes e Ideias, na altura liderado pelo Jorge Barreto Xavier – que vamos ter a sorte de ter connosco na gala de entrega de prémios deste ano –, havia um vazio muito significativo em relação a programas de estímulo para os jovens criadores. Por isso, nessa altura, a mostra teve um impacto assinalável, gigante. Hoje em dia, felizmente, há mais entidades, entidades privadas, muitas entidades camarárias que desenvolveram os seus programas de estímulo, mas esta iniciativa continua a ser a referência. Achamos que os jovens se candidatam não só por saberem dessa referência, por saberem que vão ter uma promoção consequente ao serem seleccionados neste projecto que vai ser significativa, mas também acho que há aqui um espaço muito interessante de convivência, debate de ideias, encontro entre jovens. Mais de 50% dos jovens seleccionados são de fora de Lisboa e vamos conseguir fazer com que existam momentos de encontro, e a partir daí pode haver probabilidades gigantes de desenvolverem novas ideias, novas disrupções, e é isso que tentamos alcançar.

Tendo em conta os trabalhos apresentados na mostra deste ano, pode dizer-se que o futuro da cultura e da arte em Portugal está bem entregue?

Seguramente. Temos um conjunto de trabalhos seleccionados que são verdadeiramente incríveis. Tínhamos o compromisso, desde o início, de seleccionar, no máximo, oito trabalhos por categoria. Recebemos 838 candidaturas. Tivemos um júri com três pessoas por área artística, duas pessoas convidadas pelo Gerador e uma convidada pelo IPDJ, especialistas nas suas áreas. Muitos deles tiveram de ver centenas de propostas, dependendo de cada área e do número de candidaturas que houve em cada área. Quando chegamos a este número final estamos a falar de candidaturas, todas elas, com um nível muito interessante. Temos a certeza de que vamos ver mais vezes a brilhar, nos próximos anos, os vencedores e as pessoas que foram seleccionadas no topo de cada área, tal a sua qualidade. Por isso, estou tranquilo em relação ao futuro da cultura e da dimensão artística em Portugal. Julgo que, nos próximos anos, vamos ter ainda mais surpresas.

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