Morreu Jean-Luc Godard, o insubmisso

O realizador franco-suíço, que sempre teve o selo ‘Nouvelle Vague’ colado ao seu nome e obras, soube como poucos retratar o labirinto onde a humanidade está encurralada. Morreu aos 91 anos sem nunca ceder a compromissos.



Jean-Luc Godard nasceu a 3 de dezembro de 1930 e, no final dos anos 50 e anos 60, fazia parte do grupo dos realizadores da Nova Vaga, sendo que a sua maior ‘particularidade’ – leia-se total independência – era vista por muitos como uma manifestação extrema de solipsismo ou de indiferença face ao público.

O seu estilo imprevisível tem como ponto de partida filmagens informais e quase improvisadas que trabalha a posteriori ao nível da montagem, inspirando-se no chamado “cinéma-vérité”. E qual o seu objetivo? Filmar uma vida cujo sentido se perdeu irremediavelmente ou nunca chegou a existir. Em suma, Godard e as suas ‘epifanias’ cinematográficas giraram, sobretudo, em torno de temas como a instabilidade das emoções humanas, a dificuldade das relações interpessoais, a ideologia, a linguagem e a arte, e não menos importante, a busca do real na aparência.

Com uma obra onde figuram filmes tão emblemáticos como À Bout de Souffle (“O Acossado”, 1959), Vivre sa vie (1962), Le mépris (“O Desprezo”, 1963), Bande à Part (“Bando à Parte”, 1964), Pierrot le Fou (“Pedro, o Louco”, 1965) e Je vous Salue, Marie (“Eu vos saúdo Maria”, 1985). Recorde-se, a propósito deste filme, o dia 30 de junho de 1985, em Lisboa, quando um grupo de enraivecidos defensores da moral e dos bons costumes tentou impedir que a Cinemateca de apresentar o filme em questão. A multidão era encabeçada pelo então Presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Kruz Abecassis, católico militante. Após muitos protestos e alguma confusão com polícia, o filme acabou por ser exibido com cerca de uma hora de atraso, sem que ocorresse o ali apregoado fim do mundo.

Previsivelmente, como sempre acontece com filmes ou obras sob fogo cruzado da Igreja católica e seus elementos mais fanáticos, os protestos apenas serviram de publicidade gratuita. No festival de Cannes, por exemplo, um homem atirou uma tarte com creme de barbear à cara do realizador. O Papa João Paulo II, por sua vez, declarou que o filme “fere profundamente os sentimentos dos crentes”. Resultado? “Eu vos saúdo Maria” foi proibido em vários países católicos que nunca ouviram falar na “separação entre Igreja e Estado”.

Voltando ao cinema de Godard, importa lembrar a sua longa carreira premiada, que inclui o galardão de melhor realizador, em Berlim, pelo filme “O Acossado”, e um Óscar honorário, entregue em 2010 numa cerimónia à qual não compareceu. Já para não falar do vasto leque de filmes que o imortalizaram, nomeadamente os mais recentes “Filme Socialismo”, de 2010, e “Adeus à Linguagem”, de 2014.

Polemista por natureza, Godard desconcertou tudo e todos quando, em Berlim, por ocasião da entrega do Prémio do Cinema Europeu pelo conjunto da sua carreira, afirmou não ter qualquer interesse pelo cinema contemporâneo e não respeitar grande parte dos seus colegas cineastas. “A maior parte dos realizadores e três quartos das pessoas que recebe prémios em Berlim usa a câmara apenas para existir, e não para ver o que não pode ser visto sem câmara”. Ou ainda, para encerrar os polémicos episódios “godardianos”, lembrar o momento em que, aos 77 anos, admitiu em público que, em jovem, roubava dinheiro para ir ao cinema e para fazer filmes.

Morreu, aos 91 anos, avançou esta terça-feira o jornal francês “Liberátion”, citando fontes próximas.

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