Morder o pó no terreno da intimidade

À selecção de pinturas e esculturas inéditas num projecto pensado de raiz para a Fundação Calouste Gulbenkian, Fernão Cruz chamou “Morder o Pó”. Mas o terreno que ali se apresenta não é árido nem seco, pelo contrário. É emocional, íntimo, o seu próprio cabinet de curiosités, visitável até 17 de Janeiro do próximo ano.



Nos últimos anos, Fernão Cruz tornou-se um dos nomes a ter em conta na hora de falar sobre a arte contemporânea portuguesa. A expor com regularidade desde 2015, o artista que deambulou entre Lisboa e Barcelona tem composto um corpo de trabalho multidimensional que começa nas telas e na pintura, mas que respira sob outras formas plásticas. O seu espaço é o da convergência, da hibridez entre técnicas e materiais, onde cabe o humor, mas também um profundo sentimento de introspecção e auto-análise: o artista em busca de si mesmo.

Em “Morder o Pó”, exposição com curadoria de Leonor Nazaré, acabada de inaugurar no Museu Gulbenkian, em Lisboa, entramos por um espaço de transição, feito de passagens entre obras e linguagens, para nos dar a conhecer dois lados de uma obra em contínuo. Da pintura, o lado mais cartoonesco e extrovertido, para depois de uma passagem entrarmos numa sala dominada pela escultura, desse lado mais relacionado com a sua própria vivência.

São, na verdade, dois estados de consciência e de existência. “O corpo fala primeiro, as respostas aparecem depois”, diz ao NOVO o artista, ao apresentar o conjunto de pinturas que foi produzindo sem correlação. Muros, estradas sem fim, olhos que pairam sobre nós evocam um sentido de procura e curiosidade. É um “espreitar para o outro lado” que ali se conjuga com uma ideia de representação aparente.

$!O artista Fernão Cruz com “Olho que tudo quer ver”
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É isso que convoca precisamente com “Cair em palco”, pintura na qual se vislumbra o corpo em suspensão, que cai em palco, a quem é imposto uma necessidade de representação. “No fundo é o que sucede com a vida”, explica. A analogia para a “farsa assumida” é completa com uma “permissão de existência” que, no fim de contas, lhe permite uma leitura mais pessoal e íntima.

Para lá chegar passa-se ainda por “Cofre”, pintura a evidenciar uma vez mais a ideia de um muro, lugar de precipício que nos aproxima do conceito de near death que ali se dispõe a explorar. O túnel negro, feito com apenas um foco de luz, encaminha-nos para a segunda sala. A luz mais baixa assevera uma outra dimensão. Estamos na sua caixa de Pandora, feita de esculturas que à primeira vista parecem objectos sem ligação.

$!A exposição “Morder o Pó” divide-se em duas salas, ligadas por uma passagem escura
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O trabalho que ali vemos é produto de uma fragmentação propositada, mas é isso que pressupõe, no fim de contas, uma composição em que se ligam os pontos antes separados. Daí que, quando colocados naquela sala, a que Fernão Cruz chama bunker, todos eles estabeleçam entre si uma ligação estrutural de significância. Os símbolos e os significados, ainda que possam ser extraídos a posteriori, revelam uma outra apresentação: a do rosto do artista, do seu passado, do seu nascimento, das suas vivências e até da morte como momento inevitável na vida do ser humano.

Um relógio em bronze, que marca as horas do seu nascimento, as solas dos sapatos do tamanho do seu pé, a casa e ateliê como montra de lugares de abrigo-fuga. É o mapeamento da sua vida. O ar que se respira também é outro. Se na primeira sala vemos o artista no seu lado cartoonesco e livre, munido de cores, feita a passagem para a segunda sala encontramos um espaço de grande intimidade, como quem diz “Look down and think of me”, como se pode ler em “Lápide. Pedido”.

Sob uma paleta de tintas, as mãos de Fernão saúdam o olhar de cada espectador. É a “Recepção” necessária para uma sala também feita de memórias familiares, novamente evocadas em “Aceitação. Despedida”, escultura inspirada em “The Threatened Swan”, de Jan Asselijn, em que se vê uma ave de rapina que tira ou rouba um roupão ao homem sentado.

Os restantes objectos que circundam a sala são, como diz, mais algumas pistas ou poemas dessa vivência: uma seta numa prateleira, casas com escapatórias cénicas, um cabide suportado por uma base que esteve podre, três canecas de diferentes tamanhos atadas à força, um espelho de casa de banho com uma escova de dentes ou mesmo um corpo que se evapora da corda de saltar e que deixa um par de luvas no chão.

$!A segunda sala acolhe um conjunto de esculturas em bronze
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Chegados ao fim de “Morder o Pó”, saímos pelo mesmo lugar de entrada. Uma placa de saída em alemão, “Ausgang”, conduz-nos de novo ao lado mais pictoresco, cómico e livre da primeira sala. O artista chama-lhe “falsa saída”. Saímos de facto, mas não voltamos a ser os mesmos.

Como escreve no texto de apresentação da exposição, “a vida só tem espessura quando habitada por símbolos. O corredor convida às passagens que hão-de ensinar sobre elas o que cada um puder aprender. Somos só pó da terra se não formos também luz das estrelas. E cada um regressa à sua casa”.

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