Miguel Araújo: “A música aparece sempre como um puzzle”

O Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, recebe na noite de sábado um concerto de um dos mais populares escritores de canções de Portugal. Miguel Araújo, de 44 anos, é um dos cabeças-de-cartaz do EDP Cool Jazz e promete fazer aquilo que descreve como um jogo de ténis (ou de pingue-pongue) em palco. O autor de canções como “Anda Comigo Ver os Aviões”, ainda no tempo de Os Azeitonas, e “Os Maridos das Outras” descreve em entrevista ao NOVO como aprendeu a “borrifar-se para o público” para lhe dar “alguma coisa de jeito”.



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Deram-lhe um baixo para as mãos em 1989 como outros miúdos recebem uma prancha de skate?

Era o meu brinquedo favorito e ainda é. Na altura, não tinha noção, mas agora vejo que é uma óptima maneira de se começar a tocar um instrumento, pois é a própria pessoa que se interessa, e não alguém que obriga. Fui eu que o pedi. Queria muito ter um baixo, e ficava horas a fio a tocar e a aprender as músicas todas.

Qual foi a primeira música que aprendeu a tocar?

“Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan.

Eis o que se chama começar por cima...

Mas a linha de baixo é supersimples: é dó-ré-mi-fá-sol. Por isso é que foi a primeira música que aprendi.

Os seus tios, que tinham uma banda de covers, foram uma inspiração decisiva?

Era natural na nossa família. Nas famílias dos toureiros também toda a gente aos seis anos anda a tourear a cavalo. Não é que alguém da minha família próxima seja músico profissional, mas a presença de instrumentos e os concertos nas festas de anos e datas importantes foram uma coisa muito natural desde que era muito pequenino. O meu fascínio vem de ver os meus tios a tocar.

Nas casas da sua família havia quartos só para guardar instrumentos?

Havia na casa da minha avó. O quarto lá de baixo era onde eles ensaiavam.

Os vizinhos toleravam os ensaios?

Sim. Aquela zona de Águas Santas, na Maia, é de casas grandes, afastadas umas das outras. Mas, por acaso, o vizinho da frente trabalhava na loja de instrumentos onde comprei o meu segundo baixo. Era porreiro porque às vezes ia lá ver os ensaios, sendo uma pessoa ligada à música. O saudoso sr. Faria, que já morreu.

Chegou a gravar um primeiro disco com os Tsé Tsé, mas a banda terminou logo a seguir. Como é que isso aconteceu?

O disco é de 1997 e foi com a BMG, de que o Tozé Brito era o presidente. Essa banda deu um concerto num bar da Ribeira que deve ter sido o nosso primeiro, estava lá o A&R e gostou muito. Mas o guitarrista saiu logo após o disco estar gravado, emigrou, e a banda dissolveu-se em virtude de tudo isso. Era uma banda muito diferente daquilo que faço hoje em dia. E eu era só baixista, não compunha nem cantava. É como se não fosse eu. Não posso dizer que tenha sido o início da minha carreira. Ainda andava na faculdade e não era algo que levássemos assim tão a sério. Foi só uma coisa engraçada. Viemos aqui gravar a Cascais, no estúdio Um Só Céu, que era dos Delfins...

Só isso já deve ter sido uma aventura.

Foi mais por aí. Mas quase não demos concertos. Não chegámos a entrar nesse circuito porque a banda acabou logo após o lançamento do disco.

Tinham um som mais puxado?

As nossas influências eram os Faith No More e os Red Hot Chili Peppers, aquele funk-rock do início dos anos 90.

Quanto a’Os Azeitonas, reza a lenda que foram formados durante uma viagem de faculdade. Eram todos alunos do curso de Gestão?

Menos um. E aquilo era mais uma viagem de amigos, não era de finalistas nem nada assim. Apenas amigos meus da faculdade.

Levaram instrumentos convosco para a viagem?

Só eu é que sabia tocar. Os outros sabiam cantar – e mal. Foi a primeira encarnação da banda e, quando fomos para o primeiro disco, já nem lá estavam. Nem sequer gravaram porque não cantavam o suficiente, mas ainda apareceram na capa. No segundo disco, já não. Quando aquilo começou a ficar mais exigente e era preciso ir a entrevistas e concertos, eles não podiam, pois tinham outras profissões. Um trabalhava no futebol do Boavista, outro era professor de ténis, e aquilo tornava-se inviável. Mas eu é que andava sempre com a guitarra, desde que me lembro, em viagens. E tinha umas músicas feitas que eram umas sátiras, umas paródias à música romântica portuguesa da altura, por volta de 2000. Fazia aquilo por gozo e era uma piada que tínhamos entre nós. Houve uma noite em que não saímos, ficámos na varanda a beber copos e a tocar essas músicas – eu tinha quatro ou cinco e fizemos mais duas logo nesse dia –, e de repente ficámos com um repertório e a ideia de fazermos uma banda cujas aspirações eram tocar nos bares dos amigos, o que foi o que fizemos durante uns tempos. Depois houve uma segunda vida da banda, quando o Rui Veloso ouviu as maquetes e nos convidou para gravar. A coisa tornou-se mais séria, e chamaria a esse momento o arranque da minha vida profissional na música.

Para onde tinham viajado nessa noite em que tudo começou?

Fomos para Ibiza. Em Junho de 2002, fez 20 anos há pouco tempo.

Quando começou a cantar e a compor, e Os Azeitonas tiveram êxitos como “Quem és Tu Miúda” e o “Anda Comigo Ver os Aviões”, estava preparado para o sucesso dessas canções?

Não estava, mas o sucesso foi-me preparando com muito jeitinho. Quando gravámos o primeiro disco, nenhuma das músicas teve sucesso – não tínhamos concertos nem nada –, mas estávamos cheios de vontade. A banda depurou-se com outra malta, como o Marlon e o Salsa, que tinham disponibilidade para se lançarem às feras. Criámos uma agência de raiz, que ainda hoje é a mesma, a Primeira Linha. Convidei o Pedro Barbosa, que agora é um manager credenciado na praça mas não tinha experiência, e começámos completamente do zero. Gravámos o segundo disco, ainda com apoio do Rui Veloso – mais como produtor executivo do que propriamente como editor. E já foi às nossas custas, com um selo criado por nós, que era o Rádio Alegria. Depois foram conquistas sucessivas e muito graduais, aos pouquinhos. Foi um sucesso muito suave, que foi chegando em doses homeopáticas.

Em suaves prestações mensais...

E o mais distante do Porto a que fomos tocar foi Albergaria-a-Velha. Começámos muito devagarinho, com alguns concertos em 2006, um pouco mais em 2007, e 2009 foi o ano em que lançámos os “Aviões” e a coisa alargou. Depois fizemos o nosso primeiro festival, mas Os Azeitonas tiveram um boom muito expressivo em 2012 por causa do programa “Ídolos”, pois o concorrente Bruno Vieira foi lá cantar uma música nossa, o “Anda Comigo Ver os Aviões”. De repente, a banda ficou muito mais conhecida e começámos a ser muito mais solicitados. Passámos a ter 80 concertos por ano quando, se calhar, tínhamos 20 antes. A banda já tinha muita estrada e outras músicas que as pessoas não sabiam que eram nossas foram descobertas pelo público nos concertos. De 2012 a 2016, ano em que saí da banda, já andámos na alta-roda dos concertos em Portugal. Foi em 2012, dez anos depois do início da banda, que a coisa começou a ganhar um lastro mais a sério.

Sempre que um músico sai de uma banda surgem especulações. Também sentiu isso?

Não, foi tranquilíssimo. Ia dar uma perninha sempre que podia. Chegámos a dar um concerto em Cantanhede em que era eu e Os Azeitonas. O meu concerto não chegava a acabar. Começava o material d’Os Azeitonas, eu ficava em palco, tocava duas ou três músicas com eles e depois saía. Por isso, essa coisa das especulações nunca aconteceu. O primeiro disco da banda sem mim tem uma música da minha autoria. Dá para perceber que não houve grandes rixas.

Acaba por ser uma mitologia que alimenta o mundo da música popular.

O que aconteceu é que eram concertos a mais para aquilo que eu consigo aguentar.

Há canções que lhe surgem como se fossem uma epifania ou são todas produto de muito trabalho?

Nenhuma aparece sem uma epifania, mas nenhuma se faz sozinha. É preciso imenso trabalho para chegar a acontecer. Nunca fiz uma música do nada. Tenho sempre uma ideia, nem sempre muito apresentável e concreta, que me aparece na cabeça, seja a melodia ou já pedaços da letra. Às vezes estou no chuveiro e tenho de sair para gravar uma ideia que vem de dentro. Para mim, não existe o sentar-me com a folha em branco e pensar “tenho agora meia hora para fazer uma música”. Mas também não existe a música estar pronta. Aparece sempre como um puzzle que se tem de montar. Tem de se desvendar qualquer coisa.

Como se percebe que uma música está pronta?

Eu vou sempre mudando se tiver tempo. Outro dia li um compositor antigo, dos tempos das músicas por encomenda, dizer numa entrevista que o trabalho não é escrever canções, e sim reescrevê-las. Vai-se reescrevendo até ao dia em que é preciso gravar. Às vezes, ainda estou a completar frases quando já estou a gravar a voz. Não sei quando é que uma música acaba – para mim, nunca acaba, vou sempre mexendo. Mas quando consigo cantar aquilo, nem que seja para mim, sozinho no quarto, com vontade, com convicção... Quando não está pronta, eu próprio tenho vergonha de a cantar baixinho. Quando estou expansivo a cantar é quando já sei que está pronta.

E tem casos de músicas que lhe parecem injustiçadas pelo público?

Acontece-me muito haver músicas que só são descobertas mais tarde. O “Anda Comigo Ver os Aviões” tornou-se um grande hit na altura em que foi redescoberta, e não ao ser lançada. Nessa altura, as rádios não tocaram, não aconteceu nada. O “Quem És Tu Miúda” também saiu em 2007, mas só em 2009 é que entrou numa novela... Isso acontece muitas vezes. Mas as músicas não têm de ser injustiçadas nem têm de lhes fazer justiça.

Nunca lhe aconteceu pensar que uma música seria recebida de outra forma?

Não tenho muito disso. Até porque um artista como eu está rodeado dos fãs, que são quem faz comentários no Instagram. Há ali uma almofada à volta e já nem sei muito bem se as músicas são conhecidas pelo público em geral ou não.

É uma espécie de grande bolha?

Sim, há uma bolhazinha à volta que não me permite ver. Mas também não sei se me interessa muito que as músicas sejam muito badaladas. Isso já é com as próprias músicas, e não tanto com o meu trabalho. Sou só o parteiro. [risos]

O trabalho é fazê-las enquanto a melhor versão que podem ser?

Exactamente. E isso inclui o registo, que era uma coisa que eu descurava muito ao princípio, a maneira como se aborda a gravação, a parte da produção, a que não ligava nada. Agora ligo mais, pois faz parte da música, mas, antes, eu julgava que não. As músicas podiam ter mil versões, cantadas por mil pessoas, em qualquer instrumento, de qualquer maneira e em qualquer tom, e isso não me interessava. Agora interesso-me e também existe esse cuidado. Mas a partir do momento em que o disco sai já não olho mais. Não vou ver se tem muitas visualizações. Não quero ver nem me importo com isso. Até faço por não ver, porque não quero que isso condicione a minha próxima música.

O que deu mais trabalho: aperfeiçoar-se enquanto cantor, enquanto compositor ou enquanto músico?

Enquanto músico, não muito, porque de todas as coisas é a que faço com mais naturalidade. Ao fim de uma semana, já sabia tocar. Ser escritor, foi ao longo dos anos. Deitei mil e tal músicas fora antes de achar que aquilo era digno. Fazia-as por fazer, já a pensar no caixote do lixo, desde os 11 anos – sendo a coisa que mais me fascinava na música, muito mais do que cantar ou tocar. Tentava de forma muito obsessiva e foi graças a isso que comecei a conseguir fazer. Foi pelas várias tentativas e erros. Entre a primeira tentativa e a primeira música que realmente ficou feita passa-se um período de uns 15 anos.

Essas canções foram mesmo parar ao lixo ou estão guardadas algures?

Há umas de que ainda me lembro, e isso significa que não foram parar ao lixo. Uma delas, que fiz quando tinha uns 16 anos, está no meu primeiro disco. Chama-se “Desdita”. Ainda me lembrava da música e da letra. Por mais que a tenha deitado fora, não a apaguei da minha memória. Ao fim destes anos todos, ainda me lembro dela. Tal como a primeira música que fiz, com 11 ou 12 anos, que era em inglês. Qualquer dia, ainda a canto num concerto qualquer, até porque é gira.

Pode ser um bom encore...

Sim. Mas, de resto, eram meros exercícios de mão.

Dar a cara pela sua música foi natural?

Não, não, não. A minha natureza é ser o oposto, é ser uma pessoa que está a observar as coisas, e não a ser observada. Para mim, foi sempre um dilema muito difícil de resolver. A minha natureza sempre me puxou para ser quem faz as músicas, mas não quem as canta. Não tenho nada esse lado exuberante. Sou mais aquele que está no canto a ver. Não tenho a natureza das pessoas que pedem para cantar na festa de anos quando têm dez anos, o que, provavelmente, nunca as vai levar a serem um escritor ou um compositor de canções. Esse é que vai ser o frontman. É raro um autor de canções ser uma pessoa expansiva. Passar para o palco aos 34 anos, que foi quando me pus de pé para cantar as minhas músicas pela primeira vez, foi muito difícil. Achava que não conseguia, não gostava nada e pensava que era um mal necessário. E as pessoas que gostavam das minhas músicas também achavam graça a ver o tipo a cantá-las, ainda que mal e com a voz a tremer. Ficava tão nervoso que não conseguia cantar direito. Durante anos, foi penoso. A minha carreira a solo tem dez anos e a primeira metade – ou mais – foi penosa na hora de subir ao palco.

Alguém lhe deu conselhos preciosos?

Não, mas fui percebendo que tinha de pensar de outra maneira. Não tinha de estar em palco a tentar corresponder a uma qualquer expectativa. No início, eu ainda olhava, a ver se as pessoas estavam a gostar. Neste género de concertos ao ar livre, via pessoas a passar e ficava meio destruído quando se iam embora. Estava a tentar ir ao encontro de uma qualquer expectativa colectiva, o que é uma coisa que nem sequer existe. Depois percebi que um bom performer tem de estar preocupado consigo próprio, tem de se estar a borrifar para o público, pois estar-se a borrifar para o público é a única maneira generosa de se dar alguma coisa de jeito. Comecei a fechar mais os olhos e a virar-me para dentro, a tocar como toco em casa, a fazer bem o que sei fazer. E, aí, tornei-me muito melhor performer. Hoje estou muito mais à vontade e percebi que, se fizer isso, é muito mais generoso da minha parte do que estar a tentar ver se alguém bate palmas ou se canta. Ou a dizer “agora, vocês” e a levantar o braço. Não é que eu fizesse isso, mas tudo o que seja ignorar o público é a melhor maneira de o conhecer.

Abstrair ou ignorar?

É abstrair, o que passa um bocadinho por ignorar que ele está lá.

Qual foi a coisa mais estranha que o público fez num concerto?

Não existe essa coisa de público porque o público é um conjunto de várias pessoas.

E que alguém fez num concerto?

Houve um que subiu ao palco, completamente bêbado ou drogado. Isso até está filmado. Foi em 2019, na passagem de ano. Pensava que era alguém da organização e ele agarrou o microfone a gritar. Deixei aquilo acabar e, depois, os seguranças levaram o gajo. A cena mais bizarra de que me lembro foi essa.

Numa altura em que os músicos sentem grande dificuldade em obter rendimentos da venda de discos, os 28 coliseus de Lisboa e Porto que esgotou com António Zambujo foram uma garantia de independência financeira?

As minhas fontes de rendimento nesta área são os direitos de autor e os concertos. Nem quando comecei, em 2005, com Os Azeitonas, ganhei algum dinheiro com discos. Já se considerava uma coisa que era obrigatório existir enquanto cartão-de-visita, mas que não era fonte de receita. Nunca senti essa falha porque já não sou do tempo de se ganhar dinheiro com discos. Aquele com que ganhei mais dinheiro foi o que lancei na pandemia, chamado “Peixe Azul”, que se vendia pelo correio. A malta comprou e esgotou o stock todo. E foi editado por mim, sem intermediários. Esse facto, e ser uma coisa que se enviava pelo correio, ajudou a que houvesse lucro. Mas já não conto com esse dinheiro.

É profissional da música desde quando?

Considero-me profissional desde que gravei o primeiro disco d’Os Azeitonas, desde 31 de Julho de 2005.

Imagina uma vida alternativa em que a música fosse apenas um passatempo, como aconteceu com os seus tios?

Imagino, mas prefiro assim. A coisa correu melhor desta maneira.

O que poderia ser agora?

Não faço ideia nenhuma. Tirei o curso de Gestão, pelo que poderia ter um emprego parecido com os dos meus amigos. Com certeza que seria um trabalho mais convencional, das nove às cinco, digamos assim. Mas não sei qual, pois não me via inclinado para mais nada.

No seu primeiro álbum a solo, “Cinco Dias e Meio”, ficou particularmente conhecida a música “Os Maridos das Outras”. Quando escreveu versos como “os maridos das outras são/ o pináculo da criação” já era casado?

Casei uns meses antes, mas essa canção não é sobre a minha relação com a minha mulher.

É a canção de que gosta mais?

Não, não é. Não me importo de cantar nos concertos as músicas conhecidas – pelo contrário, adoro –, mas essa cansa-me cantá-la e fico algum tempo sem o fazer porque é muito repetitiva. Cansa-me um bocadinho e prefiro cantar outras. Por isso, não é uma das músicas de que mais gosto. Tenho outras músicas de que gosto muito mais.

De qualquer forma, acabou por ficar como um hino bem-humorado que muitos homens podem atirar às respectivas mulheres...

Sim, mas desde que fiz “Anda Comigo Ver os Aviões”, nunca mais houve um concerto em que não a tocasse, porque gosto mesmo muito de a tocar e cantar. “Os Maridos das Outras”, acho mais chata de tocar por ser muito repetitiva.

Aqueles que lhe estão mais próximos têm de estar preparados para servirem de inspiração às suas letras?

Não sei se pensam nisso, mas a maior parte das minhas músicas, a partir de certa altura, são acerca das pessoas à minha volta. A “Balada Astral” é sobre um casal de amigos meus quando se casaram, “Os Maridos das Outras” é, concretamente, sobre um casal amigo. Eles não sabem, mas uma pessoa como eu, que vive para isto – não é disto, é para isto –, está sempre com a antena ligada.

Da mesma forma que se alimenta das suas memórias.

Mas o facto de escrever como escrevo não tem a ver com as minhas memórias nem com as pessoas à minha volta. Tem a ver com o estilo de música de que mais gosto. As canções de que mais gosto são as do Bernie Taupin, do Elton John ou do Paul Simon. Falam das ruas, são retratos muito específicos em que a pessoa parece que entra naquele quadro. É uma maneira de escrever muito credível, aquela que me cativa. Por exemplo, o “America”, do Paul Simon, fala do sítio onde foram buscar a tarte, do cigarro que ele fumou, do que eles vêem pela janela nos sítios por onde vão passando, de um cruzamento em Nova Jérsia quando chegam, e esse género de escrita convida a entrar. É mais por isso que escrevo assim. Mas não iria escrever sobre o cruzamento de Nova Jérsia ou sobre as tartes da Mrs. Wagner. Se for verdadeiro, torna-se muito mais credível. É como dizia o Leonard Cohen: “Nunca escrevas ‘a árvore’. Escreve ‘o eucalipto’ ou ‘a pereira’ ou ‘o castanheiro’.”

Há que ser específico.

Ser brutalmente específico torna-te, apesar de não parecer, muito mais universal.

Existe alguma música que fosse capaz de vender a alma ao demónio para ter escrito?

Não digo vender a alma ao demónio...

Ou alugar durante uns dias.

Não sei. Mas uma das músicas de que mais gosto de sempre é o “America”, do Paul Simon. Se tivesse de escolher, era essa. Acho-a uma obra-prima a todos os níveis. A melodia e a maneira como ele canta aquilo... Quando ele diz “they’ve all come to look for America”, canta de uma maneira ainda mais cantada do que vinha atrás, como se fosse um metarrefrão. Acho isso genial e é a minha música preferida de todos os tempos. Neste preciso momento, porque amanhã já vai ser outra qualquer.

Preocupa-o pensar que, se calhar, ainda está por escrever a música pela qual vai ser lembrado?

Até acho isso fixe. Mas não me preocupo muito com isso porque há-de haver o dia em que a última pessoa que se lembra da última coisa que eu fiz vai morrer e há-de haver um momento em que todos os CD e os chips dos computadores desaparecerão e não há-de ficar registo das coisas que o Da Vinci fez. Quanto mais as minhas, não é? Se é que este tipo de arte tem de ter algum papel, função ou utilidade... O que fica são as ligações que os temas suscitam entre as pessoas. As músicas que me inspiraram a pegar numa guitarra, como o “Run to You”, do Bryan Adams – ele pega numa guitarra que está no meio de umas folhas e essa imagem nunca mais me saiu da cabeça –, que ajudou a que me interessasse por isto. Quando não houver mais vestígios do Bryan Adams e do “Run to You”, pelo menos ficou isso. É quase uma centelha que vai andando de geração em geração. E tenho a certeza de que a minha música faz isso em pessoas mais novas porque me enviam mensagens: há miudinhos que se cativaram pela minha música e começaram a querer tocar guitarra ou pessoas que se conheceram ao som de uma canção minha, casaram e tiveram filhos. Isso é o que interessa, isso é o que fica disto, os elos que se criam.

Como se lida quando alguém diz “graças à sua música conhecemo-nos, apaixonámo-nos e tivemos filhos”?

É uma honra enorme.

Quase como se fosse um demiurgo?

E, se calhar, foram canções que eu fiz em cinco minutos, sem pensar muito, mas a música popular é um tipo de arte absolutamente relativa. Não existem músicas boas em absoluto. Não se pode dizer que “God Only Knows”, dos Beach Boys, seja boa, porque há sempre alguém que não gosta – e, nesse caso, não se pode dizer que é boa. E não se pode dizer que “Run to You” do Bryan Adams seja má porque eu adoro – se eu gosto, como pode ser má? As canções têm esse papel de fazer parte das lembranças do que se viveu numas férias. São como os cheiros, pois lembram um determinado momento da nossa vida e ninguém pode retirar essa força avassaladora que a música popular tem. Sei que é essa a importância da música, e não o que fica, nem ser lembrado. As músicas mais especiais para a minha vida são aquelas que me lembram momentos. E não tem a ver com o ser muito nostálgico – é o poder avassalador desta forma de arte popular.

Os seus filhos gostam das suas músicas?

Para já, ainda gostam. E eles são novinhos: têm dez, oito e quatro anos. Nas viagens, cada um pede uma música e vamos variando, mas há sempre umas minhas que eles pedem. Isso é fixe. E, lá está, vão lembrar-se disso.

Existe o “risco” de lhe seguirem as pisadas?

Eles são ainda muito novinhos, não dá para ver. Mas o mais velho gosta mesmo muito de música. Vai para o Spotify, põe os headphones e fica a ouvir. E depois vai para o piano que temos lá na sala e tenta aprender por ele próprio as melodias. Quem sabe?

Após ser editado pela EMI e pela Warner, criou a sua própria chancela. Até que ponto é que isso melhorou os proveitos financeiros que retira da música?

As percentagens praticadas por essas editoras – aliás, é a mesma editora, que mudou de nome – são muito elevadas. Prefiro assim. Não é que alguma vez tenha sido proibido de fazer isto ou aquilo. Sempre fui muito bem tratado na editora a todos os níveis, nunca me falharam com nada – incluindo os pagamentos –, mas é um modelo importado de fora que não se adequa muito à realidade portuguesa. Pelo menos, é assim que eu penso.

Se calhar, também não se adequa muito ao tempo em que vivemos. Foi um modelo que já fez mais sentido...

Mesmo os americanos dizem isso. Não sei até que ponto um artista dos Estados Unidos, para se tornar um fenómeno mundial, não precisará da máquina de uma editora. Em Portugal, não é que não seja preciso, mas as percentagens são um bocado desproporcionadas. A fatia de leão ficar para um intermediário e os custos todos ficarem para a pessoa que só vai receber 10% ou 12%, para mim, não faz sentido nenhum.

Quando a covid-19 apareceu, temeu que durante muitos anos não pudesse estar em cima de um palco a actuar?

Ao princípio, temi bastante, mas, depois, percebi que não ia morrer por causa disso. O palco não é uma coisa que me seja vital. O estúdio e a escrita de canções, sim, e tenho isso em casa. Posso fazer músicas e gravá-las. Estes três anos foram o período mais fértil da minha vida. Metade da minha discografia é pós-covid: dos seis álbuns, três foram de 2020 para cá. E percebi que me soube muito bem não ter concertos no Verão e fazer férias com amigos e fins-de-semana, coisa que não tive durante anos e anos. Adoro tocar mas, se fosse para nunca mais dar concertos, também não seria algo perfeitamente vital para mim. Também por isso, vou para o palco com a despreocupação de ser só para me divertir. Há essa leveza. Cada vez que vou para um palco é um privilégio e uma honra ver a quantidade de gente que vai aos meus concertos e que sai dali com momentos de alegria colectiva. E é um privilégio que as pessoas me dão irem dignificar o meu trabalho. Aproveito os momentos no palco nesse sentido. Não me preocupo, como me preocupava antes, em corresponder às expectativas, tentar fazer bem ou ser um profissional. Já não penso nisso. Sei que os concertos são momentos de união colectiva entre nós e o público, que é tudo a mesma coisa, e o que interessa é a onda que fica e a energia que passa. Deixar o acaso entrar nos concertos é a chave para mim, hoje em dia, não preparar muito as coisas e deixar espaço. Temos a set list, mas vamos falando uns com os outros pelos microfones internos e dizemos, agora vamos fazer assim ou vamos fazer assado. O momento é que convida.

Apesar de tudo, não é uma anarquia táctica, pois é combinado entre vocês no momento.

É como um jogo de ténis. Se a bola vai para ali, temos de ir para ali; se o gajo se aproxima da rede, temos de mandar por cima. Tem a ver com o momento e não se pode adivinhar o que vai acontecer. Há que deixar que o concerto seja um jogo de ténis ou de pingue-pongue entre o público e nós.

Neste momento, a dias do concerto que vai dar neste palco na noite de sábado, no âmbito do EDP Cool Jazz, com a participação de Rui Veloso, já tem na cabeça como será o final?

Já temos a lista das músicas, mas, a ordem, ainda não. O mais recente que eu dei foi no Marés Vivas, onde são 30 mil pessoas em pé, e nós próprios em pé; e, aqui, as pessoas estarão sentadas e nós também. É um concerto completamente diferente. Serão outras músicas, é outro concerto, é outra pessoa que está em palco. Não sou o mesmo, e também é muito fixe essa elasticidade nas maneiras de estar em palco. Mesmo neste, há muita coisa em aberto para deixar que a coisa flua, porque nunca sei quem vou encontrar. São pessoas que aqui estão, ou há comunhão ou não.

Podem ser diferentes a nível etário, a nível social...

Os 28 concertos com o Zambujo foram sempre completamente diferentes. Depende se é quarta-feira, se é sábado, o que jantámos ou deixámos de jantar, se chove ou faz sol. Muitos concertos eram radicalmente diferentes. Achámos que o ponto alto de um concerto iria ser também o ponto alto do concerto do dia seguinte, mas não tinha nada a ver. Os concertos são sempre diferentes, e isso é superengraçado.

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