Memórias literárias

Jorge Amado nega a escrita convencional das suas memórias, o que faz com a presente obra seja um caleidoscópio de saberes e vivências feitas - a autobiografia possível do autor que se esquivou de a escrever, escrevendo-a porém, em súmula fragmentária.



“O meu clima não é solidão. Sou da convivência, gosto de estar com pessoas, conversar e rir, sou de natureza solidária.” Ao longo dos seus 88 anos de vida, Jorge Amado teve um papel determinante na afirmação da literatura brasileira e sul-americana do século XX. Deixou cerca de 40 livros publicados, traduzidos em mais de 50 países e um legado que se mantém intacto entre os escritores contemporâneos. Afinal de contas, o Brasil literário deve-lhe grande parte da sua paternidade.

Ao incorporar na sua escrita elementos da cultura popular brasileira e temas sociais progressistas como a emancipação feminina, consolidou um compromisso de tolerância e de aceitação pelo outro. Não é por isso estranho que tenha cultivado tantas e boas amizades e que estas sejam precisamente as personagens vivas que encontramos em “Navegação de Cabotagem”, o seu livro de memórias, finalmente reeditado em Portugal.

Escrito em 1992, na véspera de completar 80 anos, é na verdade um complexo mosaico de memórias que o próprio desenhou. Ao contrário do que seria expectável, ali encontramos uma sucessão de cenas - encontros, diálogos, recordações avulsas - que podiam fazer parte de um filme ao mesmo tempo épico, lírico e cómico. Uma galeria de escritos, fragmentos de vida que se passam em diferentes anos e locais por onde passou, que descreve como “apontamentos para um livro de memórias” que, dizia, já mais escreveria.

Logo num dos textos iniciais, justifica-se: diz que é próprio de quem viveu bastante saber demais, o que o impede naturalmente de transpor tudo isso para livro. Nega a escrita convencional das suas memórias, o que faz com a presente obra seja um caleidoscópio de saberes e vivências feitas - a autobiografia possível do autor que se esquivou de a escrever, escrevendo-a porém, em súmula fragmentária.

Mas “Navegação de Cabotagem” é também o gesto poético de quem se recusa dizer adeus: “Não vou repousar em paz, não me despeço, digo até logo, minha gente, ainda não chegou a hora de jazer sob as flores e o discurso.”

Navegação de Cabotagem. De Jorge Amado. Dom Quixote

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos e Ricardo Ramos Gonçalves

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