Mallu Magalhães: “Em Portugal já tenho uma sensação de casa”

A menos de um ano de completar os 30, Mallu Magalhães leva já 15 de carreira e fez de Portugal a sua casa. Com concertos marcados para Ílhavo, Castelo Branco e Lisboa nas próximas duas semanas, recebeu o NOVO no estúdio onde gravou o álbum que lançou em Junho e falou sobre a sua relação com a música, o nervosismo em palco e as saudades do Brasil.



“Esperança”, o seu quinto álbum de estúdio, não ia ter este nome. Porquê a mudança?

Terminei o disco no final de 2019, com a ideia de o lançar em Janeiro de 2020, por aí. Chamava-se “Felicidades” e tinha uma capa muito solar, com estrelas e brilhos de aniversário. A ideia do disco era quase que uma homenagem às coisas boas do dia-a-dia e a esse modo de estar feliz e enxergar as coisas positivas do nosso trajecto. Mas, aí, veio a pandemia e [o nome] perdeu todo o sentido - para mim e para as pessoas.

Decidiu adiar o lançamento porque o mundo estava do avesso?

Sim, naquela altura não dava para lançar o disco. Fui esperando, esperando... depois, a questão da vacinação deu aquela sensação de que existia um caminho e senti vontade de lançar o álbum de novo. Mas, aí, ele já tinha mudado de significado: a ideia que eu queria passar e o que eu queria dar não era mais aquele sentimento. Era um outro sentimento, de esperança, que acaba por ser meio parecido com o de felicidade. É como se eles fossem filhos de uma mesma energia.

Também a capa foi alterada.

Escolhi aquele momento azul em que a Maria, a produtora, estava acendendo a luzinha que eu segurava. Só aquelas duas mãos. Para mim é muito significativo, porque é a esperança, o desejo, a crença numa coisa bonita. É o fogo que acende uma maravilha. Achei que aquela imagem era exactamente o conceito do disco.

Não mudou mais nada?

Tirei uma canção que achei que estava um pouco triste e lancei o disco.

Essa canção ficou guardada para um próximo álbum?

A canção ficou no LP, que vai sair agora em Dezembro. E, no concerto, eu toco-a. É bonita, mas um pouquinho mais triste. Como já tinha uma triste, achei que era suficiente.

Não foi o primeiro álbum que gravou em Portugal.

Não, gravei o “Vem” [2017] aqui também. Não todo, tinha alguns pedacinhos gravados no Brasil, mas o “Esperança” foi todo aqui mesmo.

Como foi gravar um disco inteiro aqui?

Foi óptimo, muito tranquilo. A ideia do álbum era a mesma que eu tenho cultivado na maneira de encarar a minha vida: uma vontade calma de levar as coisas, uma tranquilidade, um apreço pelo natural, uma tolerância maior com o acaso. Então juntei os meus músicos preferidos, amigos que estavam por aqui. Escutávamos a música e experimentávamos algumas coisas. Durante uns seis meses fiquei em casa, também. Tocando, fazendo rascunhos e finalizando a composição. Depois chamei o Mário [Caldato Jr, produtor norte-americano que trabalhou com nomes como Beastie Boys e Jack Johnson]. Quando ele veio, eu já tinha uma ideia muito clara de algumas músicas, por conta dos rascunhos que tinha feito, mas, com outras, não tinha ideia nenhuma. Foi muito natural a produção do Mário. Como ele diz, só mexe no que está a atrapalhar. Ele deixa a coisa fluir, crescer, nascer, e acho que isso foi muito produtivo para o álbum.

Uma das músicas do novo álbum, “Deixa a Menina”, tem a colaboração da Preta Gil. Foi a primeira vez que convidou alguém para cantar num disco seu?

Foi. Nunca me tinha ocorrido que dava para chamar alguém, não sei porquê. [risos] Em casa, comentando com o meu marido, contei que desde que tinha começado a compor aquela música era a imagem da Preta cantando que me aparecia, o jeito maravilhoso dela. E todas as vezes que eu cantava era como se eu invocasse aquela imagem dela para a música. Decidi mandar uma mensagem e ela respondeu logo que podia contar com ela, que ia adorar. Eu fiquei muito feliz, muito orgulhosa, porque ela também topou.

E na música “Barcelona” tem um texto narrado pelo jornalista e escritor Nelson Motta.

É, já tinha aprendido que dava para chamar as pessoas. Sobrava a parte instrumental da música e eu imaginava o Nelson a falar alguma coisa. Quando mandei mensagem para saber se ele queria, descobri que estava em Lisboa e veio ter comigo no dia seguinte.

Coincidências felizes?

Exacto. E acabámos por fazer um dueto, já que estávamos os dois.

A música que canta com a filha do Gilberto Gil é em homenagem à sua filha.

Acho que foi a primeira frase da Luísa. Quando era pequenina já era muito autónoma, e saltava bem aos olhos porque, ainda com fralda, só queria descobrir, aprender, subir em tudo. Eu, toda cuidadosa, ouvia todo o mundo à minha volta dizer: “Deixa a menina.” Eu acho que ela ouviu e aprendeu, então sabia dizer “mamãe”, “papai”, “leite” e “deixa a menina”. E ficou. Um dia gravei, era muito bonitinho.

Não foi a primeira vez que escreveu para ela.

Nossa, eu escrevo música para ela desde que engravidei. A primeira lançada foi a “Casa Pronta”, que até é curioso porque quem ouve pensa que estou a falar de um relacionamento amoroso. O amor manifesta-se de várias maneiras, cada um vai pegar naquela música e encaixar na sua vida. Mas no meu caso é para ela, toda aquela coisa de preparar a casa para receber a chegada dela.

O videoclipe de “Quero Quero” teve a participação de fãs. Foi ideia sua?

Foi. Eu resolvi lançar o disco de um jeito muito natural, muito orgânico. Não teve estratégia. Então achei justo entregá-lo a quem realmente quer ouvir e chamar um monte de pessoas para dançar em casa. E essa reconexão com o público foi muito importante, queria chamar todo o mundo para participar de uma espécie de comemoração, trazer um pouquinho de alegria. Era uma maneira de nos conectarmos, uma sensação de construção e cultivo num contexto de muita incerteza e muitas perdas que foi a pandemia. Recebi montes de vídeos e não coube todo o mundo, tive de sortear.

Já deu concertos em Guimarães e Setúbal e seguem-se Ílhavo, Castelo Branco e, finalmente, Lisboa. Como foi voltar aos palcos depois da pandemia?

Foi heróico. No primeiro concerto senti uma coisa tão diferente, não estava preparada para sentir aquilo. Foi uma espécie de vitória, pensei “nossa, estou aqui ainda”. Acho que com a pandemia começámos a ver a fragilidade da vida de uma maneira mais evidente. E penso que qualquer conquista que a gente tenha agora carrega essa história, essa lembrança de ainda estar aqui. Então, já comecei o concerto sensível. Depois, cantar aqueles sentimentos e lembrar de tudo... foi uma coisa que eu esperei tanto para fazer. E a própria música, que emociona a gente, mexe com a gente, foi muito tocante. Foi uma sensação de crescimento, como se eu estivesse nutrindo outra vez o que me fazia sentir tão bem.

Já se tinha esquecido do que era?

Não tinha esquecido, mas tinha ficado distante daquilo e já não estava acostumada a sentir aquele choque de energia. Foi muito tocante. Quando comecei a cantar, pensei “eu não posso parar de fazer isso”, sabe? Há muito tempo que não sentia aquilo e, quando senti, percebi que tinha de fazer isso para sempre.

Como artista, qual é a sensação de ouvir o público a cantar as suas letras de cor?

É uma sensação de maravilha, fico encantada. E acho que é meio parecido com o estar na natureza, é uma sensação de estar conectado e fazer parte de uma coisa maior. Por isso é que, aos poucos, tenho ido para um caminho de produção mais positiva. Porque a verdade é que depois vou repetir aquelas músicas durante dez, 15, 30 anos, e cantar músicas que evocam coisas boas em mim e nas pessoas tem uma vantagem.

É uma Mallu diferente em palco?

Total. Quando chega a hora do concerto fico meio com vergonha, ansiosa. Claro, estou feliz de estar ali e sei que está tudo bem, mas fico nervosa por dentro. Não falo muito em palco porque sinto que as pessoas foram lá para ouvir música. E quando começo a falar, falo meio enrolado e penso que as pessoas não vão entender o que estou a dizer. É quando penso: “Deixa quieto, vou cantar só.” [risos]

É uma coisa que gostava de mudar?

Estou a trabalhar isso. Na vida real falo muito, gosto de conversar com as pessoas, gosto de falar e de ouvir. E gosto dessa interacção. Mas, no palco, é muita gente, então não tem como ter essa dinâmica. Estou ali, faço o meu trabalho e estou assim, assumidamente nervosa.

O nervosismo é por medo de que alguma coisa corra mal?

Eu sei que se errar não tem problema, não é por aí. Eu me abro, me entrego e estou em paz com esse movimento. Mas sabe quando entra no cinema e há aquele suspense antes de começar o filme? É isso, só que é todo o segundo.

Não melhora durante o concerto?

Vai melhorando. Tanto que eu peço para o pessoal da iluminação não acender a plateia logo no começo, quando vejo que é muita gente. Estou há muitos anos a fazer isto, já aconteceu de tudo.

Alguma experiência menos boa?

Várias. Pensa, 15 anos a tocar ao redor do mundo... já fiquei sem som, já caí, já errei o nome do lugar, já fiz tudo. Mas eu sei que no fim dá tudo certo.

Há algum lugar onde gostasse muito de dar um concerto?

No Lux, adorava. Acho maravilhoso. Um dia, eu vou ser cool o suficiente para tocar lá.

É diferente dar um concerto no Brasil do que noutro lugar do mundo, por ser a sua casa?

É diferente. Se meus pais forem, eu fico ainda mais nervosa e com vontade de chorar o tempo inteiro. Fico emocionada, a minha mãe chora e eu quero chorar também. E em São Paulo é sempre muito emocionante porque é a minha cidade, tenho a minha família, os meus amigos, e é diferente. Mas, em Portugal, já começo a ter também pessoas especiais no público.

Do seu repertório, tem uma música preferida?

Tenho, a “Enjoy the Ride”. Estou superorgulhosa de a ter feito, às vezes escuto e penso: “Essa mandei bem.”

O que ouve em casa, no carro?

Bastante música electrónica, música dançante. Acho que dá logo um boost, especialmente para fazer tarefas mais chatas. E Bob Dylan, horas seguidas.

Está a viver em Portugal desde 2013. O que a levou a ficar por cá?

No começo vim para experimentar, para conhecer. Até que me fui apegando, fui gostando. E ficando. Depois, a Luísa nasceu, há quase seis anos, e começou a ter a escola, os amigos. A gente também cria as nossas raízes, os nossos laços. Agora, já tenho uma sensação muito de casa, que acho que demora uns anos. Já reconheço o lugar, as ruas, o som, o cheiro.

A primeira música do novo álbum, “América Latina”, fala das suas origens, da sua infância. Sente falta do Brasil?

Muita, o tempo inteiro. Tanto que eu vou muito lá, essa coisa de ficar muito tempo sem ir não dá para mim. Sinto muita falta. Para mim, essa ideia de emigrar só é possível pela facilidade de viajar porque, se fosse muito longe, eu pensaria duas vezes.

Durante a pandemia não pôde ir.

Foi muito difícil, muito aflitivo. Tivemos familiares infectados, no hospital, e não poder estar lá foi muito estranho. Eu estava a tentar procurar o lado bom, mas acho que não teve.

Ter a Luísa ajudou a arranjar mais coragem?

Com certeza. Se me perguntar o que me motiva na vida, 100% a Luísa. Honestamente, não há nada que eu faça que não esteja a pensar nela, que não seja por ela. Mas eu sofro e romantizo, então tive de aprender a ser uma pessoa muito mais prática, aprender a pesar os problemas para ser uma mãe mais equilibrada. Acho que a motivação de ter uma criança é 100%.

Quer ter mais filhos?

Às vezes penso que ia ser gostoso ter outro. Mas, neste momento, é difícil imaginar-me de novo naquele esquema do bebé. Gente, um bebé precisa de muito. Eu tive dificuldade em administrar os primeiros dois anos, a Luísa tinha meses quando marquei uma turnê. Viajámos muito e deu tudo certo, mas foi uma aventura que eu não previa. Então agora, quando eu penso num filho, já sei o que é de facto. Porque aquele começo é bem caótico. Mas deliciosamente caótico. Quando for a hora do segundo vai ser divertido de novo.

A pandemia fez com que encarasse a música de maneira diferente?

Fez. Foi um caminho pessoal de ressignificar a música e tentar colocá-la no lugar a que ela deveria pertencer, que é um lugar de prazer, de construção, de cura. Porque, a partir do momento em que a música se tornou a minha profissão, senti que perdi um pouco essa relação. E quando pensava em música, eu pensava também na minha carreira, pensava em metas, em objectivos, sonhos, expectativas. Passei a carregar muito a música de expectativas que não eram dela e senti que isso começou a prejudicar também a maneira como estava a tomar decisões. Quando senti que isso estava a atrapalhar, resolvi eliminar. Eu toco porque gosto, porque me faz bem. Toco porque aquela música me faz curar alguma situação que eu vivi ou porque me ajuda a imaginar, a sonhar mais, a sentir-me maior e melhor, a divertir os meus amigos. Então quis que ela voltasse a ter esse papel e acho que a pandemia abriu ainda mais os meus olhos para esse papel da música. Com a pandemia, voltei a sentir que a música era uma necessidade humana.

Como é que a música começou a fazer parte da sua vida?

O meu pai, que é engenheiro, tocava violão. Sempre tocou em casa, numa boa, só curtindo. Eu comecei a fazer igual, tocava e curtia as minhas músicas. E acho que isso que ele me ensinou, esse papel da música, foi o que eu quis resgatar. Ele fazia só para ele, sabe? Não estava fazendo para ninguém, só aproveitava o papel terapêutico da música. Mas eu não tinha uma relação com a figura pública, era uma coisa de que não gostava. Admirava uma série de pessoas que estavam na televisão, mas não fazia questão de estar ali. Não me via com o microfone na mão ou sendo uma atracção. De repente vi-me, muito nova, numa situação muito exposta. A música virou uma profissão ainda não tinha 15 anos. Foi tudo muito cedo, muito rápido, e eu quis correr para não perder a oportunidade.

Não foi difícil lidar com a exposição tão nova?

Muito. Tanto que acho que foi um desafio enorme. Mas é aí que está, os problemas têm o tamanho que a gente dá. E, na época, eu não tinha essa inteligência de perceber que aqueles problemas eram pequenos. Então, as coisas eram muito graves para mim, era supersensível e emotiva e não tinha desenvolvido esse mecanismo de colocar as coisas na balança. E precisei também de aprender a lidar com a distância dos amigos, com a perda. Porque é uma profissão muito solitária, e essa solidão cobrou um preço alto. Mas não posso queixar-me porque ganhei tanta coisa maravilhosa.

Teve o lado bom.

Teve, claro. Comecei a curtir a independência, a viajar bastante e a ganhar o meu dinheiro. Foi quando comecei a gostar, e ganhei muitas coisas maravilhosas. Realmente, me fiz ali. Vou fazer 30 anos no ano que vem, ou seja, a música é metade da minha vida inteira. Muito em breve vou ter mais tempo exposta do que não. E isso trouxe muitas coisas boas, mas também desafios, como tudo.

Se voltasse atrás, fazia igual?

Não sei. No outro dia vi um filme em que a personagem principal podia voltar ao passado. Ele voltava e, dependendo do que fizesse, mudava a vida dele. Sabe qual é?

Uma das vezes que volta já não tem os filhos.

Isso! Então acho que fiquei com esse filme na minha cabeça e faria tudo igual só para que, no final, resultasse na Luísa, que é a melhor pessoa já feita no mundo. Se eu cheguei aqui, está tudo certo.

Sempre teve o apoio da sua família?

Sim, sei que eles sempre me apoiaram como filha deles. E as vezes que eles me disseram que não ou não me apoiaram nalguma situação foi porque as minhas decisões estavam meio esquisitas.

Lembra-se de alguma dessas situações?

Tenho um bom exemplo: deixar a escola. Eu queria, porque comecei a trabalhar e a ganhar o meu dinheiro, e achava que não precisava da escola. Foi uma discussão, lembro-me que foi uma ruptura porque, realmente, não queria continuar e comecei a repetir de ano várias vezes, não conseguia acompanhar. Acabei por fazer um ensino alternativo, uma coisa diferente. Mas acho que é natural que eles não me tenham apoiado em decisões erradas. São meus pais.

Cantava em 2011 que estava a ficar “Velha e Louca”. Essa loucura continua consigo?

[risos] Acho que está piorando até. Gente, eu fico com dificuldade de pôr limites. Acho que com essa história da pandemia fiquei com a sensação de que não dá para perder tempo com certas bobagens. Fui ficando mais autêntica, por necessidade.

Tem evoluído enquanto artista? É uma Mallu diferente desde o primeiro álbum?

Sem dúvida. Uma das coisas que me dá vontade de continuar na carreira artística é sentir essa trajectória, sentir que eu estou a chegar a algum lugar, a conseguir aprimorar a minha produção em todos os aspectos. Sinto que, como já tenho experiência em todas as áreas da profissão, quando componho procuro explorar lugares onde não estive.

Tem algum artista com quem gostasse muito de trabalhar?

Vários. Tenho de falar um? Há uma banda lá do Brasil, os Gilsons, que eu amo. Se virem essa entrevista, Gilsons, por favor vamos fazer uma coisa juntos. [risos] São incríveis e acho que essa seria uma grande referência. Mas todo o dia ouço coisa nova e, agora que aprendi que dá para chamar as pessoas para os meus discos, corro um sério risco de fazer um só de feats.

Marcelo Camelo, o seu marido, é uma inspiração a nível musical?

Absolutamente. Acho que é uma inspiração em todos os sectores da minha vida. Ele tem uma sofisticação e uma personalidade única, a maneira como faz as melodias e constrói a letra, a música... é muito individual. Sempre admirei essa busca dele por um resultado tão pessoal, tão particular. E, em estúdio, ele é uma aula de tudo, toca tudo e toca tudo muito bem. Batuca em qualquer pedacinho, na caixa de fósforos, e sai um som.

Gosta mais de o ouvir sozinho ou com Los Hermanos?

É uma pergunta dura. Acho que já falei para ele: de todos, o que eu mais gosto é o Marcelo. É ele, como pessoa. Estou num lugar em que gosto dele de um jeito que qualquer coisa que ele faça, eu vou gostar. É meu marido. Qualquer coisa que ele fala, eu acho lindo.

Lida melhor com as coisas más que a profissão traz por tê-lo ao lado?

Totalmente. Acho que todo o mundo fica melhor com amor.

Repetia a experiência da Banda do Mar ou prefere cantar a solo?

Nossa, eu fui feliz da vida. Primeiro, são o Marcelo e o Fredinho [Fred Ferreira], o nosso melhor amigo. Então, já começava por aí: só os três, era a maior curtição. Do ensaio ao show, era dar risada o tempo inteiro. E a sensação de pertencer a um bando, a um grupo, foi muito boa. Eu não gosto muito da solidão, não tenho essa coisa de precisar de ficar sozinha. Gosto de me sentir parte, de perguntar o que as pessoas acham e ouvir, de dar a vez e de levar alguém comigo na frente. Não curto tanto essa solidão do protagonismo, então adorei.

Acha que foi um projecto que fez com que o público português a conhecesse melhor?

Acho que sim, que foi uma virada de página. Porque a banda tem aquela coisa de ser catchy e fácil de gostar. E ao mesmo tempo tem uma personalidade marcante, dá para ver que é a gente.

Falávamos de saudades do Brasil. Não gostava que a Luísa crescesse lá?

Com certeza. Tanto que no começo, quando ela nasceu, eu passava muito tempo lá. Às vezes, metade do ano. Por isso sinto que ela cresce lá também. Tem a casa de São Paulo, os brinquedos de São Paulo, as roupas e até os amigos de São Paulo. Foi como falei antes: para mim, o que viabiliza essa distância é a gente estar a um voo de diferença.

Se pudesse trazer algo de São Paulo para cá, o que seria?

Acho que traria meus pais e minha irmã, a coisa que mais sinto falta aqui é deles. Tirando isso, acho que teria de ser no mínimo umas dez, 12 coisas. Mas, assim de repente, traria a Avenida Paulista. Punha ali perto do Marquês de Pombal.

Ainda lhe faz confusão viver num sítio tão pequeno comparado com o Brasil?

É estranho, mas tem vantagens. Em Lisboa, você anda um pouco e já dá em outra cidade, quase. Em São Paulo, você roda, roda, roda... Mas acho que a gente se acostuma com a proporção das coisas. E isso é agradável para mim, eu gosto de uma vida a pé e não preciso de muito.

Como vê a situação política do Brasil actualmente?

Acho que como todo o brasileiro, com preocupação. Nem dá para a gente falar de uma situação pontual porque é uma confusão política tão grande, uma falta de tudo... como vou dizer? Uma falta de decência. Não posso dizer que tenho pena, porque não é bem essa a palavra. Eu sou brasileira e continuo a sentir que é o meu país, sou eu também. Então, claro, não olho com gosto. Mas acho que tudo isto serviu para a gente aprender com o nosso poder como cidadão, com a questão do voto consciente e da nossa contribuição para a sociedade, para o Brasil. Acho que o brasileiro ficou muito mais actuante, politizado e informado - o que, por si só, já é um ganho.

Mas ainda há um caminho a percorrer?

Há, de aprendizado. Acho que o Brasil podia beneficiar de uma visão mais unida, menos de uns contra os outros. O meu país tem muito potencial e só precisava de uma gestão mais eficaz, mais benéfica. É preciso uma pessoa que fizesse essa união, aproveitasse o que o Brasil tem de bom e conseguisse diminuir o gap entre as pessoas. Acho que esse é o problema maior do Brasil, sempre foi. E com a pandemia ficou muito pior. Não há como um país com uma diferença social tão grande ser bom para todos. O povo brasileiro, com oportunidade, vai muito longe. Mas está meio deixado à própria sorte. Vamos ver, talvez no ano que vem melhore.

O que lhe falta fazer na vida?

Eu queria ter mais cachorros. [risos] Tenho uma, é um cachorro feliz, mas acho que se estivesse num jardim podia libertar toda a maluquice dela. Então acho que me falta ter uma casa com um jardim para ela poder correr e ter outros cachorros também, a fazer companhia, a babar por aí.

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