Lynne Ramsay e a textura do trauma em Vila do Conde

A 29ª edição do festival Curtas Vila do Conde, que começa nesta sexta-feira e se prolonga até dia 25 de Julho, apresenta em retrospectiva a potente obra da cineasta escocesa Lynne Ramsay, que se iniciou nas curtas-metragens, onde apurou o seu desejo pontilhista de replicar o interior de uma personagem no exterior que nos dá a ver, e se estreou nas longas-metragens com “Ratcatcher” (1999), um dos filmes mais assombradores alguma vez feitos.



Falar do cinema de Lynne Ramsay é falar de um cinema pintado, um mergulho que anda de mãos dadas com a percepção das coisas irrespiráveis nas vidas das pessoas ternas. Pessoas que presenciaram o tipo de brutalismo que as desenquadra no pano de fundo em que se encontram. Deste cinema resta uma visão táctil, uma criação de experiências sensoriais que abordam o mundo daqueles que não ultrapassaram a dor que prende as suas dimensões mais físicas e os obriga a sentir as pontadas e os impulsos do trauma sem fim. Nos vários quadros que Lynne nos vai apresentando ao longo do tempo, é fervorosa esta impressão da vida vivida e sofrida. E perdura bem depois da projecção das imagens no ecrã.

Conhecida por um público mais extenso pelo tenebroso filme “Temos de Falar sobre Kevin” (2011) – de todos, talvez o mais condicionado por uma premissa, se é que existe algum filme assim na obra da realizadora –, os seus filmes têm a unicidade das palavras sussurradas, a franqueza dos pontos de vista e do quão incompletos são, mas também as imagens recordadas que ainda borbulham num subconsciente recalcado. Tudo isto perante cenários de decadência urbana, empacotados numa electricidade quase demasiado insuportável para assimilar ou conter – seja o desalento de Glasgow nos anos 70 durante os Troubles ou a corrupta Nova Iorque do tempo presente. Fazendo uso de actores profissionais e não-profissionais, que depois junta no ecrã, a cineasta constrói assim um bolso de crueza, de onde os gestos da realidade humana surgem, e vêm a desenvolver uma maturidade intensiva e a esbarrar no impossível de esquecer.

Por todas estas razões, não é assim surpreendente a retrospectiva proposta este ano pelo festival Curtas Vila do Conde. Do seu primeiro trabalho “Gasman” (1998) e até ao mais recente “Brigitte” (2019), pequeno documentário encomendado pela Miu Miu para a sua secção Dias de Veneza, a cineasta escocesa que usa a poesia dos detalhes e um contar mais abstracto (sem continuidade narrativa imediata) não só começou pelo formato da curta-metragem como a sua gramática visual lá permaneceu, trazendo ao maior formato a concentração do pequeno, e regressando depois ao pequeno outra vez para apurar temas e formas que a duração mais longa tem tendência a aguar.

Daí que a simpática homenagem que o Curtas lhe faz agora passe certamente por confirmar um comunicar com a imagem que tem nela a absorção dos segredos bem guardados. Um pouco como o próprio festival. Um poço de preciosidades à vista de todos, mas ainda assim escondido para muitos. Através do que é determinado como “visualidade háptica”, um tipo de estética orientada por sensações, Lynne introduz detalhes, pontilhismo poético para nos introduzir mundos interiores na sua íntegra em poucos segundos. Um joelho sangrento em “Ratcatcher”, o zumbido das luzes de Natal montadas na árvore em “A Viagem de Morvern Callar” (2002), cascas de ovos misturadas com ovos mexidos cozinhados em “Temos de Falar sobre Kevin”, o esmagar de gomas feijões com as pontas dos dedos em “Nunca Estiveste Aqui” (2017).

E é aqui que encontramos o coração da sua mensagem. Através da poesia das coisas indirectas, com personagens perturbadas que fogem da linguagem e da significação das coisas para sobreviver, há sempre dois grandes momentos nos seus filmes, independentemente da sua duração. Um mais literal que nos leva sempre a um mais figurativo. Usando como exemplo o regresso de Lynne à curta-metragem com “Swimmer” (2012), o nadar de um rapaz rio fora não é só uma composição sensorial da dança que é aquele acto de resistência, mas uma representação de uma travessia pelos rios da Grã-Bretanha. O mesmo acontece com os brilhantes “Ratcatcher” e “Nunca Estiveste Aqui”. No seu centro, encontram-se personagens que se deparam com a morte, de uma forma ou outra. Ambos se revelam dicionários visuais das várias cambalhotas de emoções ultrapassadas por estes pelos cantos urbanos que navegam. Por um lado, a realidade que os ostraciza, por outro uma linha de pensamento que quer compreender os lados mais sombrios destas pessoas.

No final, há que completar o puzzle destas narrativas com as várias imagens soltas fornecidas, que se encontram sempre na borda entre a esperança do tempo presente e a recuperação de um passado doloroso. O cinema dela é verdadeiramente o que espelha a tragédia enquanto paragem inescapável. Quando em “Ratcatcher” o jovem James salta do buraco onde deveria estar uma janela numa casa desabitada, ele salta para um outro mundo, um prado imenso, feliz, distante da sua realidade. Ver o cinema da Lynne é um pouco assim também. Um esbarrar na realidade mais abrupta primeiro. E depois um fugir dela, nem que seja só para accionar um reviver de impressões sensoriais que recordam o núcleo do que é ser-se humano.

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