Joseph Andras e o pied-noir que França mandou executar na Guerra da Argélia

Mais depressa do que a vergonha, seca o sangue. Escreveu-o o francês Joseph Andras no seu romance de estreia, centrado na figura de Fernand Iveton, operário apoiante da Frente de Libertação Nacional que ficou para a história como o único europeu condenado à guilhotina, na Argélia, nos anos da guerra pela independência. Em 2016, o livro valeu a Andras o Prémio Goncourt, que recusou. Depois de adaptado ao cinema, “Dos Nossos Irmãos Feridos” pode finalmente ser lido em português, numa edição da Antígona, com tradução de Luís Leitão. Aqui em pré-publicação, as primeiras páginas do romance aclamado pela crítica.



Não era aquela chuva franca e orgulhosa, não. Uma chuva miúda. Mesquinha. Sem ambições. Fernand espera a dois ou três metros da estrada asfaltada, abrigado sob um cedro. Eles tinham dito treze horas e trinta. Só quatro minutos. Treze horas e trinta, é isso. Insuportável, esta chuva manhosa, sem sequer ter a coragem de ser a cântaros, daquelas autênticas, apenas bastante para molhar a nuca com a ponta dos dedos, gota avara, e safar‐se assim. Três minutos. Fernand já não tira os olhos do relógio. Passa um carro. Será ela? O veículo não pára. Quatro minutos de atraso. Esperemos que nada de grave. Um segundo carro, ao longe. Um Panhard azul. Matrícula de Orão. Estaciona na berma - a grelha do radiador toda desconjuntada, de um modelo antigo. Jacqueline veio sozinha; quando sai, olha em volta, à esquerda e depois à direita, de novo à esquerda. Toma, tens aí escritas todas as indicações, Taleb previu tudo, não te preocupes. Duas folhas, uma por bomba, com as indicações precisas. Entre as 19h25 e as 19h30. Avanço do temporizador, 5 minutos... Entre as 19h23 e as 19h30. Avanço do temporizador, 7 minutos... Ele não está preocupado: ela está ali, presente, é o que importa. Fernand mete os papéis no bolso direito do seu fato‐macaco.

A primeira vez que ele a tinha visto, a Jacqueline, em casa de um camarada, vozes abafadas e luzes veladas, como se impunha, tinha‐a tomado por uma árabe. Morena, muito morena, indubitavelmente, nariz comprido e aquilino e lábios carnudos, indubitavelmente, porém não árabe, não... Pálpebras cheias sobre grandes olhos escuros, mas de riso franco, frutos negros um pouco pisados. Uma bela mulher, sem dúvida. Tira da mala do carro duas caixas de sapatos de homem, tamanhos 42 e 44, está indicado na caixa. Duas? Ah, impossível. Só previ este saco, repara, é demasiado pequeno para meter mais de uma bomba. Além disso, o contramestre tem‐me debaixo de olho, vou dar nas vistas se voltar com outro saco.

Sim, é verdade, acredita em mim. Fernand leva uma das caixas ao ouvido: que barulheira do diabo, olha lá, tiquetique tiquetaque tiquetaque, tens a certeza que...? Taleb não podia fazer melhor, mas vai correr tudo bem, não te preocupes, responde Jacqueline. Está combinado. Sobe, deixo‐te um pouco mais adiante. Que raio de nome, este sítio, não é? É preciso falar de qualquer coisa, diz para consigo Fernand, que pensa que vale mais falar de tudo menos daquilo, enquanto nada estiver feito. A Ravina da Mulher Selvagem. Conheces a lenda?, pergunta ela. Nem por isso. Ou então já me esqueci... Uma mulher, foi no século passado, estamos a ficar velhos, não há dúvida, uma mulher tinha perdido os dois filhos na floresta que fica mesmo aqui em cima, depois de um piquenique, a pequena toalha na erva, a Primavera, não é preciso dizer mais, as pobres crianças desapareceram na ravina, nunca mais ninguém as viu, e a mãe ficou doida varrida, nunca quis desistir, continuou a vida inteira a procurá‐los, por isso chamaram‐na selvagem, já não falava, ou emitia apenas uns gritinhos como um animal ferido, pronto, e um dia encontraram o seu corpo num sítio qualquer, se calhar no local onde estavas à minha espera, quem sabe? Fernand sorri.

Uma história estranha, sem dúvida. Ela estaciona. Desce aqui, o carro não deve ser visto nas imediações da fábrica. Boa sorte para ti. Ele sai do veículo e faz‐lhe um aceno com a mão. Jacqueline retribui o gesto e carrega no pedal do acelerador. Fernand põe ao ombro o saco de desporto. De um verde desmaiado, com uma tira mais clara ao nível da abertura com cordão - o saco que um amigo lhe emprestou e com o qual ele vai praticar basquetebol ao domingo. Ter o ar mais natural possível. Proceder como se nada fosse, nada de nada. Já há vários dias que o levava para o trabalho a fim de habituar o olho dos guardas. Pensar noutra coisa. A mulher selvagem da ravina, que raio de história, sim. Mom’ está lá.

O seu nariz maciço, compenetrado sobre o bigode. Está tudo bem desde há bocado? Sim, claro, fui andar um pouco para desentorpecer as pernas, esta manhã o trabalho deu cabo de mim. Não, não tem a ver com a chuva, Mom’, aliás isto é só uma nica, apenas uma morrinha que não tarda a passar, garanto-te... Uma nica, uma nica, que raio de maneira de falar tem este franciú. Mom’ bate‐lhe no ombro. Fernand pensa na bomba no fundo do saco, na bomba e no seu tiquetaque. Catorze horas, momento de voltar às máquinas. Já vou, é só deixar o saco e já vou, Mom’, sim, até já. Fernand varre o pátio com os olhos, tendo o cuidado de não se voltar para trás. Proceder como se nada fosse. Nenhum gesto brusco. Caminha lentamente em direcção ao local desafectado que referenciou há três semanas. O gasómetro da fábrica era inacessível: pelo meio havia três postos de guarda e arame farpado. Pior do que um banco em pleno centro da cidade ou que um palácio presidencial (sem falar no facto de ser preciso despir‐nos dos pés à cabeça, ou quase, antes de entrar). Em resumo, impossível. E além disso perigoso, demasiado perigoso, confiara ele ao camarada Hachelaf. Nada de mortos, sobretudo nada de mortos. Mais vale um sítio abandonado aonde nunca ninguém vai. Matahar, o velho operário com a sua cara de papel amarrotado de cor mostarda, deu‐lhe a chave sem hesitar - é só para fazer uma pequena sesta, Matahar, devolvo‐ta amanhã, não digas nada aos outros, prometes? O velho era um homem de palavra, não digo nada a ninguém, Fernand, podes dormir descansado. Tira a chave do bolso direito, fá‐la rodar na fechadura, olha disfarçadamente para trás, ninguém, entra, abre o armário, poisa o saco de desporto na prateleira do meio, fecha‐o de novo, uma volta à chave. Depois segue para a porta principal da fábrica, cumprimenta o guarda como manda o hábito e dirige‐se para a máquina‐ferramenta. Como vês, Mom’, já não chove.Com efeito, viu, mas é uma porcaria de tempo, este mês de Novembro, que só faz o que lhe dá na sua cabeça grisalha.

Fernand senta‐se ao torno e enfia as luvas coçadas nas costuras. Um contacto, de quem desconhece o nome e o apelido, estará à sua espera às sete da tarde, hora de encerramento da fábrica, imediatamente antes da explosão da bomba, a fim de o levar para um esconderijo de que ele desconhece também a morada, a não ser que se situa na casbá; a seguir entrará na clandestinidade... Talvez no dia seguinte, ou alguns dias depois, não é a ele que cabe decidir. Ficar ao torno e esperar até sair, como todos os dias, ao mesmo tempo que os outros, poisar as luvas verdes coçadas, como todos os dias, brincar um pouco com os colegas e até amanhã, é isso, boa noite, malta, cumprimentos à família. Não levantar a mínima suspeita: Hachelaf não se cansou de lho repetir. Fernand tenta não pensar em Hélène, mas pensa, não faz mesmo mais nada do que isso - o cérebro, um fedelho de quilo e meio, gosta de ser caprichoso. Como reagirá ela quando souber que o marido abandonou Argel para entrar na clandestinidade? Já suspeitaria disso? Teria realmente sido boa ideia ter guardado segredo? Os camaradas não tinham qualquer dúvida a esse respeito. A luta obriga o amor a manter‐se discreto. Os ideais exigem o seu lote de oferendas - luta e romantismo como cão e gato. Sim, para o bom andamento da operação, valia mais assim. São quase dezasseis horas quando alguém chama por ele atrás de si. Fernand volta‐se para responder ao ponto de interrogação que pontua o seu nome. Chuis. Merda. Mas mal tem tempo para pensar em fugir e já o agarram para o imobilizar. São quatro, talvez cinco - nem pensa em contá‐los. Mais afastado, o contramestre Oriol a fazer de conta, mas mesmo assim com a sua boquinha de sacana a esforçar-se por não sorrir, por não deixar transparecer nada, nunca se sabe, os comunistas são uns artistas nas represálias, segundo consta.

“Dos Nossos Irmãos Feridos”, de Joseph Andras, é editado pela Antígona a 23 de Abril

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