José Mata: “Não temos hipótese de dizer não à maior parte dos trabalhos”

Em pleno palco do mítico Teatro Villaret, José Mata concedeu uma entrevista reveladora ao NOVO. Falou de “Uma Casa de Bonecas”, peça em que participa naquele espaço até 17 de Setembro, mas sobretudo da sorte que, segundo o próprio, o tem acompanhado durante a carreira. Surpreendentemente, admite que dentro de dez anos pode não ser actor e explica como o medo de palco o levou a fazer terapia. De tal forma que não teve problemas em influenciar amigos, actores ou não. “A saúde mental é fundamental”, diz.



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Li umas declarações em que disse que foi a representação que o escolheu, e não o contrário.

É verdade, nada mais do que a verdade. Curioso ter ido repescar isso. A minha carreira começa quando eu acompanho uma namorada minha na altura ao casting para um anúncio de publicidade. Eu não ia fazer, o Filipe Canto e Castro, que era a pessoa responsável por esse casting, disse-me para fazer, eu disse: “Não, não, que eu não tenho nada a ver com isso.” Ele insistiu, pediu-me “por favor, faz o casting, que não tens nada a perder’. Fiz o casting, fiquei com o anúncio e entrei na L’Agence, que é a minha agência hoje em dia. Isto tudo com 17 anos.

E era um anúncio de quê?

Era um anúncio para o Ministério da Defesa. Era uma coisa num skate park. E fiquei. Fiz mais dois ou três anúncios. Na altura havia muito aquela coisa dos castings para anúncios, e acabei por fazer o casting dos “Morangos com Açúcar” e entrar na primeira série de Verão. Eu sou actor por acaso; nunca tive aquela coisa do “eu quero ser actor”.

Mas nunca tinha pensado nisso?

Nunca tinha pensado nisso. Sempre olhei para ser actor como uma coisa utópica.

Então, se não tivesse tido aquela namorada hoje não estávamos aqui a falar?

Hoje não estaríamos aqui a falar.

Qual era o seu plano de vida antes de seguir a representação?

Eu fiz esse o percurso dos “Morangos com Açúcar”. Ou seja, como fiz o percurso ao contrário, eu também dou muito valor aos estudos académicos. Procurei fazer workshops, e ainda cheguei a fazer três ou quatro na altura, uns melhores e outros piores, uns de maior duração e outros de menor duração. Isto ao mesmo tempo que terminava o 12.º ano e entrava na Universidade Católica em Comunicação Social, porque seria uma área que me interessasse talvez mais, e com que me identificasse mais. Porquê? Por causa da questão de comunicação.

Queria ser jornalista?

Jornalista, repórter, pivot, sei lá, crítico, qualquer coisa que fosse relacionada com comunicação. Só quando faço a minha primeira novela da noite é que eu penso: “Bom, consegui fazer uma novela da noite, não estou a fazer nada na Católica, tenho que ir para o Conservatório.”

Mas também pensou em Direito.

Direito foi a minha primeira opção, mas eu não tive média para o curso quando acabei o 12.º ano. Tinha muito aquela ideia de ser advogado, mais ainda do que a comunicação. A comunicação foi uma espécie de plano B, porque eu acho que naquela altura não sabemos bem aquilo que queremos. Devia haver mais acompanhamento dos jovens. Há uns que sabem perfeitamente o que querem seguir, e os que não sabem não é com testes psicotécnicos que irão descobrir.

Olhando para trás, estava um bocado perdido em termos de aptidão ou vocação?

Perdido nunca me senti, porque ainda hoje gosto de experiências, gosto de perceber como é que as coisas funcionam. Tudo me fascina nesse sentido. Interesso-me pelas coisas e gosto de ouvir as pessoas a falar sobre elas. Portanto, nessa altura já me interessava pelas coisas. Acho que seguir um caminho nunca seria seguir só um caminho o resto da minha vida. Acho que o interessante da vida é isso: percebermos um bocadinho de tudo, ou tentarmos perceber um bocadinho daquilo que nos interessa mais.

O que me está a dizer é que hoje é actor, mas daqui a dez anos posso estar na presença de um profissional de outra área?

Sim, sim, sem dúvida nenhuma. A sorte de ser actor é que nós aqui podemos ser tudo. No espectáculo que estou a fazer, “Uma Casa de Bonecas”, sou advogado. Quer dizer, trabalho num banco, mas sou também advogado. Há a magia desta profissão de termos mesmo que beber um bocadinho de tudo para percebermos como é que certas coisas funcionam. Não vou tirar Medicina para poder fazer um médico, mas quando estou num hospital, ou quando falo com médicos, ou quando vejo entrevistas a médicos, a minha atenção está triplicada naquela pessoa.

Quando tem de fazer um papel tenta ver como é que a profissão da personagem funciona.

Sim, a não ser que sejam coisas já muito básicas. Há certas profissões e situações que nós sabemos perfeitamente como funcionam, pois fazem parte do nosso quotidiano. Sabemos como é que a senhora das Finanças nos atende ou como o senhor do café nos recebe. Pode estar mais ou menos bem-disposto, mas temos essa imagem na nossa cabeça. É algo corriqueiro, que é fácil de apanhar. Essas coisas são todas importantes.

Há pouco não respondeu em concreto quando admitiu que dentro de dez anos pode estar noutra área profissional. O que tenciona fazer?

Não sei. Posso dizer que sou muito ambicioso, que quero sempre mais, e neste momento tenho uma profissão que é muito desafiante justamente por causa disso, pois acho que é muito difícil fazer bem. E depois vem a questão do que é fazer bem. Aqui há uma coisa que me prende muito a isto, que é sempre fazer mais e melhor. Nunca estou satisfeito com o que faço, nunca estou satisfeito com a fase da vida em que estou, quero sempre mais, tenho para mim que quero aprender mais sobre isto ou sobre aquilo, quero descobrir outras coisas, quero ler mais, ver mais filmes, tratar mais de mim, perceber-me, compreender-me, explorar-me também. Porque estamos sempre em mudança e há coisas que me interessam hoje que não me interessam amanhã. Acho difícil pôr a representação de parte, mas se tiver que o fazer, de um dia para o outro, não tenho problema nenhum com isso. Sinto que estou também numa fase da minha vida em que o mais importante já não é a forma como olho para a minha carreira, mas a forma como vivo a minha vida e a minha carreira faz parte da minha vida. Não digo que vou trabalhar, digo que vou para o teatro. Temos essa sorte, que bom estarem aqui pessoas a ver-nos todas as noites. Que maravilha! Não vou trabalhar, não estou aqui a pensar “quando é que isto acaba?”. Se calhar, há dias em que digo assim: “Vamos lá começar isto.” Mas é o começar sempre. Se calhar, um dia menos bom faz com que queira acelerar o tempo até o espectáculo começar. Mas quando começa...

Sem fazer menções, houve alguma participação sua que tenha sido, entre aspas, um frete?

(risos) Um frete não, mas já houve trabalhos que se tornaram mais chatos. Não começaram chatos, mas tornaram-se.

Teve sempre a aprovação familiar para seguir a representação?

Sempre. Tive muita sorte nesse aspecto. A minha mãe e o meu padrinho... O meu pai faleceu quando tinha 12 anos e não deve ter imaginado que vinha parar aqui, mas a minha mãe e o meu padrinho, que é como se fosse meu pai, ajudaram-me muito e apoiaram-me sempre. Naquela altura falava-se muito de uma coisa que era o plano B, ou plano C, se não conseguisse vingar. E eu já aí não me preocupava muito. Há uma coisa fundamental: aquilo que fazemos, temos de fazer bem ou, pelo menos, temos de tentar ser os melhores e temos de ter referências boas. Uma vez tive uma professora que me dizia: “Vocês têm sempre de ter referências, mas não as copiem porque assim não ficam melhores do que elas.” Devemos manter essa autenticidade, sem copiar ninguém, mas tenho muitas referências, e as minhas referências fazem questionar-me todos os dias e querer fazer mais e melhor.

Meryl Streep e Marlon Brando?

Na mouche.

Se tivesse que escolher um filme para fazer com a Meryl Streep ou com o falecido Marlon Brando, qual escolheria?

Podia cair no cliché de “O Padrinho”, mas vou para o “Há Lodo no Cais”, que é um filme maravilhoso do Marlon Brando, e faria esse com ele. Com a Meryl Streep... não sei. São duas referências, cada qual à sua maneira e cada qual pelas suas razões. Acho que não há ninguém que viva tão intensamente qualquer personagem como a Meryl Streep. As transformações que ela consegue entregar... Não que um actor, para ser bom, tenha de se transformar muito. Não acredito nisso. Mas ela muda, muda fisicamente tudo, tudo nela muda. Ela tem filmes maravilhosos, desde o “África Minha” até agora estes últimos que ela fez, “O Diabo Veste Prada” ou o “Mamma Mia”, que ela continua a fazer maravilhosamente. Ela tem filmes atrás de filmes onde muda como quem muda de camisa. O Marlon Brando, por outras razões. Porque ele descobriu e inventou quase uma nova forma de representar. Não gosto nada da palavra representar, mas ele descobriu quase uma nova forma de acting, porque no teatro, justamente no teatro, quando ele se estreia pela mão do [Elia] Kazan, e faz “Um Eléctrico chamado Desejo”, de Tennessee Williams, havia uma forma de representar, e o Marlon Brando rasga isso tudo e começa a fazer as coisas de uma forma muito mais naturalista. Não sei se não será aí que surge o naturalismo no cinema e audiovisual, e depois também no teatro. Acho que surge um bocado pela mão dele.

Desde que se estreou, em 2004, nos “Morangos com Açúcar”, nunca mais parou. Qual foi o seu segredo? Há muita gente que se queixa de falta de trabalho.

Tive algumas paragens.

Não muito prolongadas.

Felizmente não muito prolongadas. Eu não gosto de parar muito e nós, os actores, dizemos sempre que quando vamos de férias é porque não temos trabalho. Eu vou sempre de férias quando não tenho trabalho. Principalmente em Portugal, não nos podemos dar ao luxo de rejeitar muita coisa. Podemos rejeitar um ou outro projecto com o qual não nos identificamos tanto, mas não nos podemos dar ao luxo de rejeitar muita coisa. O mercado de cinema é fraquíssimo em Portugal, o teatro é pouco, é preciso ter muita sorte...

Acha que tem tido essa sorte ao longo da carreira?

Tenho tido, a palavra número um é sorte, e depois, então, vem o trabalho.

E talento?

Isso é muito relativo. É mesmo, sem falsas humildades. Acho que há certos trabalhos que nós fazemos muito bem e podemos ter a sorte de ter lá alguém a ver que depois nos vai querer chamar para fazer outra coisa a seguir. Ou podemos ter o azar de ter um papel que não era bem para nós, que não nos corre tão bem, e estava lá também essa mesma pessoa, e não nos chama para nada. Eu acho que isto funciona assim, já vi mil e uma entrevistas de vários actores e já falei com colegas meus. As oportunidades que vamos tendo dependem muito da sorte. Claro que dependem também da imagem. Se calhar, se tens uma imagem mais bonitinha, vais ter mais facilidade em fazer televisão. Se tens mais talento, esse talento salta à vista e fizeste um personagem que toda a gente viu e ouviu, se calhar vais ter mais sorte em arranjar um trabalho quando fores mostrar aos realizadores e encenadores. O meu caminho foi feito a pouco e pouco, porque entrei no Conservatório, parei um ano para fazer uma peça de teatro e uma novela, porque achei que era uma oportunidade única, e quando voltei ao Conservatório fiz mais dois anos até terminar, e depois pensei: “Ui, e agora?” Porque agora desapareci e, normalmente, neste meio quem desaparece é esquecido. É mesmo verdade, e às vezes não tem a ver com a nossa qualidade. Tenho colegas com um talento absurdo para isto e que não trabalham. Não tiveram as mesmas oportunidades, não tiveram a mesma sorte e acabaram por ir fazendo outras coisas, ou por dar aulas, ou isto ou aquilo, e, de repente, a ambição deles também já não vai para ali. Porquê? Porque é preciso ter uma grande paixão por isto, mas também é preciso pagar contas. Contra mim falo. Tenho muita sorte, consigo trabalhar em teatro, cinema e televisão, e fazer algumas publicidades. Portanto, vou tentando gerir a minha carreira da melhor forma e tentando perceber o que será melhor para mim, e com o que me identifico mais. Mas hoje em dia não nos podemos dar ao luxo de dizer não a isto ou aquilo, temos é que ser fiéis a nós próprios e nunca fazer nada que nos envergonhe. Mas não temos hipótese de dizer não à maior parte dos trabalhos que nos chegam.

Vou pegar nisso que disse, nessa sua constante actividade, no facto de os actores não poderem rejeitar muita coisa e colegas seus que, nas suas palavras, têm um talento absurdo e não estão a trabalhar. Essa sua constante actividade já levou a que fosse olhado de soslaio por outros actores?

Não, não, dão-me os parabéns. Também já os conheço a quase todos. A maior parte deles, felizmente, são meus amigos, meus colegas próximos. Olhar de soslaio por essa actividade, não. Se calhar, olhar de soslaio por uma outra escolha ou, sei lá, uma ou outra opção, ou uma ou outra fotografia nas redes sociais, ou alguma coisa que possa dizer e emitir opinião sobre um espectáculo, uma novela ou um filme. Não sinto olhar de soslaio por haver uma constante actividade.

Não sente inveja nesta área?

Talvez alguma. Mas é curioso fazer-me essa pergunta no teatro do Raul Solnado. Ele tem uma frase: “Quanto mais os meus colegas brilharem, mais eu vou ficar feliz.”

É o que acontece consigo quando os seus colegas brilham?

Aprendi a fazer isso. Não era assim quando era mais novo, sentia um bocado aquela coisa da competição. Tenho agora uma visão completamente diferente e foi uma coisa que ganhei rapidamente. Sinto que aquilo que nós damos é também aquilo que recebemos. Eu terei sempre de ficar feliz por um colega meu se ele for fazer um filme em Hollywood, porque foi ele que foi escolhido, e não fui eu. Não é sobre mim. Ficar feliz por ele é muito mais interessante e preenche-me muito mais do que ficar a pensar: “E se fosse eu? Porque não fui eu?”

É inevitável perguntar-lhe isto: o êxito dos “Morangos com Açúcar” foi uma espécie de trampolim para uma nova geração de actores...

Concordo completamente. Eu incluído. Entrei nos “Morangos com Açúcar” e... Filomena Cautela, Tiago Aldeia, Benedita Pereira, Joana Solnado, Diogo Amaral, João Catarré, Rodrigo Saraiva, Manuel Moreira. Principalmente estes. São meus amigos de casa, hoje em dia, e são pessoas que quando entrei nos “Morangos” fizeram um “anda cá para o pé de nós, para perceberes como isto funciona”. Eu era um menino. Então entrei e fiquei maravilhado. Foi um trampolim durante nove anos, porque a série durou oito ou nove temporadas. Se formos fazer contas, e imaginarmos que foram 800 actores que fizeram essas temporadas, quantos é que hoje em dia trabalham? Poucos. Menos de metade, tenho a certeza. Mas é assim que as coisas são. Se calhar, as pessoas seguiram outros caminhos, não tiveram tanta sorte como eu tive, ou tanta paixão. Tenho colegas que podem não ter tanta sorte, mas não desistem, não desistem durante quatro anos e, pumba, conseguem o shot deles. Conseguem a oportunidade. As pessoas têm de gerir isso da maneira que acharem melhor, da maneira que acharem mais saudável. Há pessoas que não podem esperar muito, há pessoas que têm de pagar contas e não podem ficar à espera de um casting. Funcionou como trampolim, mas também houve muita gente que ficou para trás e que não saltou nesse trampolim.

Depois dos “Morangos” decidiu obter formação como actor? Percebeu que lhe faltavam muitas ferramentas?

Sim. É uma actividade que está em constante movimento, em constante mutação. Está viva. Nós não lemos seis livros e ficamos a saber como se faz isto. Ainda hoje não sei como se faz. Não sei.. Sei que há momentos que fazem sentido e em que está tudo ligado. Há muitos momentos em que não sei como é que se faz. É tudo junto. A luz, a música, o colega, o adereço, o tempo, o público. É tudo ao mesmo tempo, e é muito difícil. Sinto que ainda tenho muito para aprender. Tenho noções básicas, claro, de teatro, de televisão e de cinema. Se me derem um papel, vou dar o meu melhor, vou saber qual é o meu lugar naquele espaço. Mas acho que podemos sempre melhorar de nível. É uma profissão viva, que precisa de estímulos diários. Precisa de uma ginástica emocional muito grande. Fazermos terapia, conhecermo-nos melhor, sabermos separar as emoções, pois trabalhamos com pessoas diariamente. E porque temos a nossa vida, é bom não confundir as coisas. Voltando à formação, ainda hoje sinto que é fundamental e que não é uma coisa que se estude três anos. Já fizemos este espectáculo variadíssimas vezes e há situações, há frases do meu personagem que ainda não descodifiquei a 100%. São coisas que talvez só com a experiência. E como é uma profissão tão subjectiva, tão relativa, o que para este senhor vai ser um grande espectáculo, para aquele senhor da ponta não vai ser, e adormece. Isso é que é bonito. Se não, íamos todos ao mesmo.

Qual foi o momento em que sentiu que estava a conquistar o seu espaço? Foi quando ganhou o Globo de Ouro, em “Amor Impossível”, ou quando foi protagonista, em “Nazaré”?

Quando ganhei o Globo de Ouro, o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores e o da Academia de Cinema. Lembro-me perfeitamente do que disse nesse último dia: ‘Este é um prémio, principalmente, para a Victória Guerra e para o António-Pedro Vasconcelos, porque aquilo surge por causa deles e amanhã isto já não me serve de nada.” Porquê? Porque recebi aquilo em relação a um trabalho anterior. Não posso chegar e dizer: “Olha, tens de me contratar porque eu ganhei um Globo de Ouro”. Não, isso não acontece. Até porque não fiz muitas mais longas-metragens a partir de “Amor Impossível”. Portanto, é óptimo. Claro que, pessoalmente, eu senti que conquistei uma coisa importante...

Estava à espera de ganhar?

Não, não estava. Não estava mesmo, genuinamente. Principalmente por causa da minha idade e por causa, talvez, da idade dos outros nomeados nos vários campos. Foi um filme polémico na altura também. Mas claro que senti aquela coisa de “que bom, isto dá-me gás para aguentar, e para agarrar o que aí vem’. E a partir daí também nunca mais parei.

Tem feito televisão, cinema e teatro. Não se deixe influenciar pelo facto de estarmos a fazer a entrevista no palco do Teatro Villaret. Em qual é que se sente mais à vontade?

Onde me sinto mais à vontade? São como se fossem três países diferentes.

Não vai responder que são os três. Essa é a resposta diplomática.

Não. Às vezes sentimo-nos melhor aqui, no palco, outras vezes sentimo-nos melhor no plateau a fazer uma série ou uma novela. Ainda agora tive a sorte de estar a terminar duas séries, onde me sinto muito bem. Acho que vou dizer o cinema - e vão-me olhar de soslaio. Mas o cinema tem uma magia inqualificável. O teatro, atenção, tem algo que mais nada tem. Nós temos o público.

Esse feedback, que não existe nem no cinema nem na televisão, faz a diferença?

É, porque aqui não existe “corta”. Não há aquela coisa do “enganei-me, corta, deixa fazer outra vez”. Se dou uma deixa errada à minha colega, não posso dizer: “Desculpa, não era esta.”

Vocês, actores, percebem se o público está a gostar na plateia?

Logo. E falamos sobre isso. Por exemplo, este espectáculo não é uma comédia, mas tem momentos cómicos. Há públicos que estão a rir imenso do princípio ao fim, há outros que não soltam um riso.

Mas podem estar a gostar.

Eu gosto desse público. Sinto que estão a seguir a história. Depois também sinto quando não estão atentos.

Isso é irritante para um actor?

Não, porque penso logo na pessoa do lado. Já vi uma pessoa a dormir na primeira fila, mas a do lado não estava.

Está a fazer “Uma Casa de Bonecas” no Teatro Villaret, que é uma peça que foi muito vista no Teatro da Trindade. Presumo que aqui também tenha tido boa adesão...

Sim, óptima.

Isto significa que o teatro em Portugal não está em crise?

O teatro estar em crise é diferente de as salas estarem cheias. Não é uma e a mesma coisa, é diferente. O teatro está em crise? Sim, porque não há Orçamento do Estado para a Cultura. O Orçamento do Estado para a Cultura é miserável, e as pessoas ficam sem saber bem o que fazer. O teatro está em crise, mas as salas estão cheias. E estou a dizê-lo porque as pessoas têm de ter noção de que a Cultura é a maior forma de expressão do país. É a identidade de um país, é a nossa arma de arremesso, é o que nos torna mais sociáveis, mais inteligentes, mais inteligentes emocionalmente, que nos torna mais vivos. É o que nos faz sonhar. Durante a pandemia não havia concertos, não havia música, não havia teatro, não havia cinema - vá lá que houve televisão. Ou que há livros em casa. A Cultura devia ser olhada com outros olhos no nosso país. Devia haver mais dinheiro para a Cultura em Portugal, pois há muito pouco. As companhias tentam subsistir e continuam a fazer coisas por amor à arte e as pessoas continuam a ter onde ir, a ter bastantes coisas a serem feitas em Portugal. Os teatros quase que enchem.

Acha que isso também é um efeito pós-pandemia?

Não sei. Esgotámos porque tivemos que reduzir a sala. Foi tudo muito estranho, para todas as profissões e para todas as áreas. Acho que há muita gente que adora ir ao teatro e que fala de teatro. E acho que há público para tudo. Acho que há público para todos os tipos de espectáculo e as pessoas gostam de comprar bilhetes para ir a um espectáculo .

Já disse que é um mito que as pessoas não gostem de ir ao teatro.

É um mito, porque há uns anos dizia-se: “Os teatros estão vazios.” Não estão, estamos a falar a 18 de Agosto e tenho a certeza que hoje vamos ter à volta de 180 pessoas. E vamos ver tudo o que está em cartaz e vamos perguntar... e há muitos espectáculos que vão estar quase esgotados quando estamos no pico do Verão.

Os portugueses gostam de ir ao teatro?

Os portugueses gostam de ir ao teatro. Há coisas muito boas a serem feitas cá. Sinto que estamos a querer acompanhar, não o que se faz lá fora, mas a cultura do que se faz lá fora. E há muita oferta. Conseguimos ir a um bailado, conseguimos ir à ópera, conseguimos ir ver um espectáculo de uma companhia emergente. Nós temos certas companhias que mantêm o seu público fiel, continuam a fazer esforços para apresentarem espectáculos regularmente. Há um grande esforço e um grande compromisso das entidades culturais para manterem o teatro vivo. E acho que o público percebe isso. E acompanha.

Fale-me um bocadinho de “Uma Casa de Bonecas”, peça baseada num drama de Henrik Ibsen e que foi revolucionária no século XIX por dar protagonismo a uma personagem feminina. Nesta peça, em exibição no Villaret até 17 de Setembro, o José Mata é um bocadinho... machista.

É o armado em machão. Psicologicamente, socialmente e emocionalmente, na altura, era o normal. Era costume ser assim. Era normal a mulher ficar em casa a tomar conta dos filhos, o homem ir trabalhar, a mulher ser quase um fantoche nas mãos do marido. Os tempos mudaram, felizmente. Parabéns ao Ibsen, que no final do século XIX escreve um espectáculo em que a mulher bate com a porta e vai-se embora. Percebe que viveu um casamento de fachada.

Teve uma participação especial no filme francês “Une Famille Formidable”, da TF1. Pretende expandir a sua carreira a nível internacional?

Adorava, é talvez a ambição máxima de qualquer actor e actriz. A minha grande ambição é fazer um filme em França, nos Estados Unidos, em Hollywood. Em Espanha era fazer um filme importante bom, uma boa longa-metragem, com um realizador reconhecido, que eu admiro.

Quem?

Há tantos. Li há pouco tempo que o José Condessa, que é meu amigo, vai fazer uma curta-metragem com o Pedro Almodóvar. Já lhe dei os parabéns. De repente, percebemos que podemos chegar lá e que é possível. Há variadíssimos realizadores.

Mas já tentou ir a algum casting para um filme no exterior?

Com o avanço tecnológico, conseguimos agora fazer um casting através de selftape. Viramos a câmara para nós e fazemos um texto, uma cena, seja o que for. Hoje em dia é muito fácil fazer um casting para Espanha, França, Estados Unidos, China e Japão, porque fazemos o casting, mandamos por e-mail e chega lá em segundos.

Fez um curso de reiki. Como é que isso o ajuda na profissão e na vida pessoal?

Tanto. Acho fundamental percebermos se estamos bem. Como é que estamos? Estamos mais tristes, somos mais alegres, estamos mais chateados, porque é que estamos assim. Conhecermo-nos e termos ferramentas para tratarmos de nós. Não é só ir ao ginásio e ficar com os músculos mais definidos. É importante também fazermos terapia e procurar ajuda. A psicologia anda de mãos dadas com a nossa profissão, ou deveria andar. Porque tudo é psicologia aqui. E como também gostamos muito de interpretar várias personagens, é fundamental sabermos interpretar aquilo que somos. A saúde mental é tão fundamental como a água para beber.

Sem querer entrar na sua privacidade, é acompanhado por algum terapeuta?

Faço terapia há muitos anos. Acho fundamental. A terapia surgiu quando tive medo de palco. De um dia para o outro, este sítio, que é o meu local de maior prazer, passa a ser uma zona de medo. Está directamente relacionado com uma série de coisas que agora não vou abordar, mas fui tratar disso, fui perceber o que era. E tenho muitos amigos que tiveram isso mais tarde, ou já tinham tido, e nunca falaram sobre isso. Porque tinham medo, porque não queriam...

Não queriam expor-se.

Não queriam expor-se. Eu tenho uma unha encravada, vou tirá-la. Temos de ser sinceros connosco próprios. Se não estamos bem, vamos tratar disto.

As pessoas têm algum pudor em tratar da dor que é invisível, por oposição à dor física?

Completamente. Temos o caso do Pedro Lima, de quem tenho muitas saudades. Ficámos todos estupefactos. Como é que é possível? A saúde mental é fundamental, daí o curso de reiki. Agora já consigo fazer a mim próprio, mas vou procurar medicinas alternativas. Gosto de estar informado, gosto de ler sobre isso e tenho uma relação comigo próprio cada vez mais conhecedora. E ajuda-me, não só na minha vida pessoal como na vida profissional também. Está tudo ligado.

Já convenceu pessoas do seu círculo de amigos, actores ou não, a tratarem-se?

Já, já. Tantos. E estão lá ainda hoje em dia. Mas depois cada um faz o seu caminho. Não descobri a pólvora, acho é que as pessoas têm de perder aquela coisa do “ele foi fazer terapia, ele não está bem”. Se calhar estou ótimo e vou fazer.

Já foi muitas vezes notícia sobre a sua vida privada. Arrepende-se de a ter exposto de alguma forma ou aceita que isso seja uma concessão devido à sua profissão?

Acho que é mais isso. Na última relação que tive, nunca a expusemos muito. Em quatro anos de namoro temos quatro ou cinco fotografias no Google. Não há muitas. Não falámos nunca sobre a nossa relação, mas sim de cada um de nós e das nossas individualidades. Acho que nesse sentido é importante manter algum cuidado. Há coisas que são nossas. Percebo que as pessoas queiram saber isto ou aquilo, mas há coisas que são nossas, que não interessam a mais ninguém e, na verdade, não têm grande interesse. Claro que no que toca às relações sempre tive e vou continuar a ter muito cuidado, porque há coisas que são mesmo só nossas e que têm de continuar a ser assim. Relativamente à minha vida, acho que é consequência de ser uma figura pública as pessoas quererem saber mais sobre nós. Eu vou procurar entrevistas do Marlon Brando, da Meryl Streep, do Johnny Depp, do DiCaprio. E vou querer saber mais. Por isso é normal que as pessoas queiram saber o que me aconteceu. Que o meu pai morreu quando tinha 12 anos - não tenho problema nenhum em falar sobre isso -, que cresci em Lisboa, que tive ‘x’ namoradas, que fiz o Conservatório, que parei um ano para fazer isto e aquilo, que as coisas têm acontecido com muita rapidez e muita sorte à mistura, que tive ansiedade, muita, e fui tratá-la. Que bom. Se puder falar com pessoas sobre isso, maravilhoso, sou o primeiro a querer ajudar, porque sei o difícil que é lidar com isso todos os dias. Não gosto nunca de negar uma fotografia. Tenho quase pânico disso, de algum dia me sair uma coisa qualquer, por estar chateado, mas acho que nunca vai acontecer. Acho que temos de parar para tirar uma fotografia, porque são essas pessoas que se sentam aqui [na plateia]. São essas pessoas que se sentam em casa a ver, e se ninguém se sentar a ver... nós não fazemos para ninguém.

Última pergunta. Quando vai a andar na rua o que é que normalmente lhe dizem?

(risos) Olha o actor, olha o actor.

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