José Luís Peixoto: “Sinto que cada vez que publico um livro subo um degrau, evoluo como pessoa”

José Luís Peixoto não tem dúvidas em afirmar que uma das suas “grandes vitórias é, ao fim de mais de 20 anos, ainda encontrar eco” nos livros e textos que publica. Depois do primeiro livro que lançou soube que iria sempre escrever e reconhece que os leitores honram os livros e lhes acrescentam “grandeza”. Nesta entrevista fala da sua paixão pelas viagens, relembra a infância em Galveias e analisa o sector da cultura, considerando que há “uma certa falta de visão até na importância económica” que tem. “Onde” é o seu livro mais recente.



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Como foi crescer em Galveias?

É curioso. Hoje em dia, já tenho de fazer um esforço de memória porque, na verdade, vivo há mais tempo fora de Galveias do que aquele que passei na minha infância e juventude em Galveias. Ainda assim, é claro que, tendo vivido lá até aos 18 anos, foram anos marcantes na vida. Quando me perguntam de onde sou, é inevitável que responda sempre Galveias. E até há uma coisa que acho muito significativa. De noite, ao sonhar, apesar de não estar lá constantemente, é essa a memória, é essa a minha referência. Ainda assim, hoje em dia, a minha realidade é muito diferente daquela que tinha quando cresci lá e, às vezes, até dou por mim a tentar explicar aos meus filhos o que foi crescer lá, e é um exercício que exige de mim convocar essas lembranças. Acho que, em grande medida, ter nascido lá, por um lado, me facultou um património de referências muito intenso e muito forte a um mundo, porque crescer num lugar com mil pessoas como aquele é conhecer mil pessoas, é conhecer toda a gente e toda a gente me conhecer a mim - muitas vezes, até com uma profundidade considerável. Ou seja, sabia mais do que apenas o superficial da vida da maioria das pessoas, e isso acaba por ser muito marcante não só na forma como entendemos a vida, como também, para quem escreve, é um acesso a uma galeria de personagens enorme. Por outro lado, também acho que há um aspecto, que é muito forte naquilo que é essa experiência, que é a maneira de lidar com o tempo, que é muito diferente daquela que existe nas cidades, que existe no mundo contemporâneo, porque eu cresci num período em que tinha o tempo à minha disposição. Acho que isso também me aproximou da escrita e da leitura. Por outro lado ainda, acho que uma parte da minha fome de viagens também se deve muito ao facto de ter crescido ali, sempre com muita vontade de conhecer o mundo, mas também um pouco limitado. Em grande medida, esta minha vontade, quase impossível de satisfazer, de viajar permanentemente também é uma compensação do que foi essa adolescência.

O que recorda com mais saudade da infância e da adolescência?

Sobretudo as pessoas, porque uma das coisas que é muito forte e que acaba por nos marcar a todos são as pessoas que nós perdemos ao longo da vida. No que diz respeito à minha infância e adolescência, ainda hoje acontece-me muito haver pessoas que recordo e que não tenho a certeza absoluta se estão vivas ou não, porque não tenho todo esse contacto com aquela realidade, mas que, para mim, na minha memória e no meu leque de referências, estão absolutamente vivas. Mas esse convívio que existe numa comunidade como aquela, em que, de certa forma, todas as pessoas estão em contacto, é muito marcante em contraste com aquilo que acontece, por exemplo, num meio mais urbano, em que as pessoas acabam por ter ligações sobretudo com aqueles a quem estão mais ligados por algum motivo.

O seu gosto pelo heavy metal começou na adolescência e, na altura, usava o cabelo comprido e vestia-se de negro. Isso era um choque numa comunidade como Galveias?

Sim. Estamos a falar do fim dos anos 80, princípio dos anos 90. Mas quando esse aspecto começou a ganhar mais visibilidade foi, justamente, no final dos anos 80 e, na época, isso era muito marcante. E, claro, também me definia muito do ponto de vista identitário, da maneira como me via a mim próprio, da maneira como também me afirmava ali, perante aquela comunidade e perante as pessoas que me rodeavam. Acredito também que, de certa forma, esse aspecto me encaminhou um pouco para a escrita e para as artes, na medida em que, estando na adolescência, talvez até a aproximar-me já do fim da adolescência, ter essa postura isolava-me e isso acabava por contribuir para que desenvolvesse um mundo próprio e para consumir ou para desenvolver consumos artísticos e de bens culturais que também me estimulavam e que, depois, acabavam também por me incentivar a construir as minhas propostas artísticas. Claro que, na época, eram bastante incipientes.

Há um projecto para a criação de um centro interpretativo dedicado a si em Galveias. Suponho que seja um motivo de orgulho.

Sim, é incrível. Neste momento, a perspectiva é que esse centro interpretativo seja inaugurado ainda este ano. Portanto, está bastante avançado e, na verdade, tenho acompanhado um pouco esse projecto. Para mim, é muito impressionante por múltiplos motivos. Basta dizer que conheço bem o espaço onde vai ficar esse centro interpretativo, que era a casa de uma família que eu conhecia bastante bem, e que, para mim, é muito impressionante perceber que, por exemplo, o lugar onde era a cozinha dessa família, onde entrei muitas vezes, agora vai ser uma sala onde vão fazer projecções. Ter essas duas imagens na minha cabeça é muito interessante. Por outro lado, claro, acho muito espantoso ter também a oportunidade de construir ali uma narrativa que, de certa forma, envolve a minha vida, a minha obra, aquilo que eu escrevi, e que eu espero seja uma oportunidade de explicar ou de contar um pouco essa história até aos que me são mais próximos, como os meus filhos, porque, efectivamente, essas são sempre histórias que todos nós procuramos contar, e ter esta oportunidade é fabuloso. Para mim, é muito intensa também a forma como Galveias, como um todo, tem acompanhado este meu caminho. Já há mais de dez anos que uma rua, que é, na verdade, a rua onde cresci, tem o meu nome. Também já há algum tempo que existe lá um baixo-relevo com a minha imagem na praça principal, e isso é muito impressionante para mim. Uma das coisas que me deixam muito sensibilizado é o facto de a minha mãe assistir a isso porque, se eu tenho esta sobreposição de imagens, imagine como será para a minha mãe, que me viu nascer e agora tem um filho a ter este reconhecimento. Por outro lado, também tenho uma certa pena de que o meu pai nunca tenha sequer chegado a conseguir imaginar este tipo de reconhecimento, que é muito marcante para mim.

Recuando no tempo, como surgiu o gosto pela literatura? Quando começou a ter mais contacto com livros?

Um aspecto importante para me aproximar dos livros foram as minhas irmãs. As minhas irmãs são mais velhas do que eu, uma delas tem mais 13 anos e a outra tem mais oito anos, que são diferenças grandes, e, por isso, elas estimulavam-me muito para consumos culturais que não eram necessariamente os que se esperavam para a minha idade. Eu queria estar ao nível delas e, então, lia os livros que elas traziam ou ouvia a música que elas ouviam. Isso acabou por ser também um pouco acompanhado por um elemento muito marcante para mim na época, que eram as bibliotecas itinerantes da Calouste Gulbenkian. Assim tinha oportunidade de ter uma regularidade nessa proximidade com os livros. A leitura, para mim, era uma oportunidade que eu nem tinha verdadeiramente a consciência do quanto ela podia ter algum papel na minha vida, fosse a que nível fosse. Era algo que existia ali e que eu, de certa forma, aproveitava, como acontecia com muitas outras coisas, porque, na minha infância e adolescência, dentro da oferta que existia em Galveias, eu aproveitava tudo. Já a música foi mesmo a minha iniciativa ou vocação. Não há mais ninguém na minha família que tenha essa propensão para a música mais pesada, mas também era uma forma de até me distinguir e de me afirmar.

Quando decidiu que queria ser escritor?

Comecei a sonhar com isso logo na minha adolescência, quando comecei a fazer os meus primeiros ensaios - na altura, de poemas, mas, claro, ainda de uma forma muito incipiente. Mas, a partir de certa altura, foi-se tornando mais sério. Houve um momento em que descobri um suplemento, que era o DN Jovem, e comecei a publicar lá alguns textos - e, naquela época, no início dos anos 90, os jornais tinham um papel enorme. Isso foi muito marcante, ter começado a publicar nesse suplemento do Diário de Notícias. Ter textos publicados num jornal nacional incentivou-me a pensar que poderia ser possível publicar livros e ser escritor, o que, para mim, estava bastante longe da minha realidade e das minhas referências, porque não conhecia ninguém que fosse escritor. Mas depois, claro, fui caminhando nessa direcção. Os estudos que fiz foram sempre com essa possibilidade em mente. Quando, depois, publiquei o meu primeiro livro, em edição de autor, já imaginava que, mesmo que não pudesse ser escritor a tempo inteiro, porque, até mesmo nessa altura, isso estava muito longe da minha realidade, iria sempre escrever, iria sempre publicar, porque, aí, já fazia parte da pessoa que eu achava que era.

O seu primeiro livro, “Morreste-me”, acaba por ser um livro que é muito marcante para si, não só por ser o primeiro a ser publicado, mas também porque tem um significado pessoal que é muito intenso, por estar relacionado com a morte do seu pai. Sendo algo tão pessoal, como fez essa gestão?

Quando escrevi esse texto posso dizer que, felizmente, não tinha consciência de que estava a escrever um texto que iria ser um livro. Comecei por escrever aquele que, depois, foi o primeiro capítulo desse texto. Na época achava que era só isso que estava a escrever. Pouco depois achei que precisava de desenvolver um pouco mais e, então, escrevi os outros três capítulos. No total são quatro mas, mesmo assim, há certos aspectos que não coincidem muito com as características que se esperam de um livro, nomeadamente no que diz respeito à própria dimensão. É um texto muito curto. Ao mesmo tempo, também do ponto de vista de género, não é exactamente um romance, não é uma novela, é um texto um pouco particular. Só alguns anos mais tarde percebi que esse texto era diferente de todos os outros que tinha escrito e poderia escrever, e que merecia ser publicado autonomamente e que acreditava nisso ao ponto de ser eu a publicá-lo. Foi uma decisão muito boa e foi uma sorte porque, efectivamente, hoje, olhando e fazendo uma avaliação que, na época, não tinha capacidade de fazer - e não estou a dizer sequer no exacto momento em que o escrevi, mas mesmo quatro ou cinco anos depois -, esse texto tem no seu interior a condensação de muito do que escrevi depois, a vários níveis, tanto ao nível formal como ao nível dos temas, ou dos temas fundamentais. É uma alegria que tenha sido esse o meu primeiro livro e, efectivamente, nunca vou arrepender-me de ter escrito esse livro. O que é dizer muito, tendo em conta que os primeiros livros, normalmente, vêm de um lugar que ainda não está completamente amadurecido. Mas, neste caso, aconteceu assim, e acho que foi uma sorte.

Como reagiu a sua família à opção pela literatura, por ser escritor?

Na altura tinha algumas colaborações com a imprensa, o que ajudava muito em termos práticos, porque viver da escrita não é muito fácil. Ao mesmo tempo, essa decisão mais definitiva ou mais sólida coincidiu com a atribuição do Prémio José Saramago ao meu romance “Nenhum Olhar”. Claro, isso atenuou muito o choque, porque esse prémio teve um impacto enorme na minha vida e a minha família também ficou muito tocada por isso. Mas, claro, na época, essa era uma intenção que ainda carecia de ser comprovada, porque a qualquer momento podia ter de procurar outras opções. Felizmente, foi-se construindo uma estrutura que me permitiu ter essa disponibilidade para viver da escrita, encarando sempre esse trabalho não como o estereótipo daquilo que é a escrita, mas também com disponibilidade para, muitas vezes, abraçar os mais diversos projectos relacionados com a escrita. Isso tem sido muito marcante nestes 20 anos, porque tenho participado em projectos dos mais diversos, embora a escrita seja sempre o meu trabalho.

Que escritores o inspiraram mais?

Vivemos um período em que coincidimos com grandes autores portugueses e grandes autores até no âmbito mais amplo, mas que lemos directamente na nossa língua. Estou a lembrar-me, por exemplo, de José Saramago, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, autores que tive a oportunidade de acompanhar os seus livros em primeira mão, quando acabavam de sair. Isso é muitíssimo marcante. Já para não falar de autores como Fernando Pessoa, que é uma referência que para nós, em Portugal, é quase uma redundância referir, porque é tão evidente, mas vale a pena assinalá-la, na medida em que lemos Fernando Pessoa no seu idioma original. Acho até que não conseguimos fugir dessa influência. Depois, há um número também grande de poetas que fui descobrindo nas bibliotecas de uma forma muito inocente mas, ao mesmo tempo, também muito espontânea e natural, que me levaram muito para a escrita que comecei a fazer naquele momento e que, depois, também se foi desenvolvendo a partir dessa matriz. Os autores portugueses e de língua portuguesa foram a grande influência, apesar de eu ter estudado inglês e alemão, e também de alguma coisa de autores estrangeiros ter tido importância.

Já tem uma carreira consolidada, com muitos anos. Qual é a maior dificuldade para se ser escritor em Portugal?

Não são especialmente relevantes os desafios que se colocam aos escritores portugueses. Ou seja, acho que é difícil ser escritor e desenvolver essa actividade internacionalmente, seja em que país for. É claro que uns países trazem uns desafios, outros países trazem outros. Mas é um erro acharmos que nos Estados Unidos seria tudo fácil, porque nos Estados Unidos também é muitíssimo difícil para quem escreve distinguir-se da imensa multidão de pessoas que escrevem.

O mercado é maior, mas há muitos escritores a lutarem por esse mercado.

Sim, e são escritores de muita qualidade e que têm também muitas dificuldades em se afirmar. As dificuldades que existem na escrita estão relacionadas com uma certa fragilidade desse mundo a um nível prático, para já porque, muitas vezes, os autores são o elo mais fraco de toda essa área de actividade. Têm pouca capacidade reivindicativa como um colectivo e, muitas vezes, sozinhos perante as empresas, perante as instituições, não conseguem fazer valer a importância do seu trabalho. Depois, também me parece que, às vezes, existe uma certa falta de hábito no reconhecimento deste trabalho como tal. São aquelas célebres comparações que podemos fazer entre o trabalho de quem escreve e outros trabalhos que são mais considerados como profissões. Por exemplo, sabemos que não passa pela cabeça de ninguém pedir a um canalizador que venha à nossa casa arranjar-nos a canalização só porque achamos que é uma boa oportunidade para ele ou que se vai divertir, não é? E, muitas vezes, essa é a maioria das propostas que são feitas a quem escreve. A maioria das propostas de trabalho não têm propriamente o reconhecimento do trabalho, e isso é bastante difícil em termos práticos. Mas há outros desafios também, mais ao nível da construção artística: termos também essa perseverança de construir uma obra, de resistir aos altos e baixos naturais que ela vai sempre ter. Tudo isso são desafios que existem e que são muito marcantes. No meu caso, uma das grandes vitórias é, ao fim de mais de 20 anos, ainda estar aqui, ainda encontrar eco naquilo que publico.

Se não fosse escritor, que caminho teria escolhido? A música, por exemplo? Sei que era guitarrista de uma banda quando era mais novo.

[Risos] Penso que aquilo que teria sido mais natural seria o ensino. Ainda fui professor durante quatro anos. Enquanto estudava, uma referência que tinha e que era o meu modelo era a minha irmã mais velha, que é professora. E eu, aliás, tinha seguido esse caminho, imaginando que poderia conciliar sempre o ensino com a escrita. Espero que tivesse tido a oportunidade de me desenvolver como professor, porque nos quatro anos em que pratiquei deixava muito a desejar. Mas, de qualquer forma, acho que é uma área de trabalho incrível, que é muito nobre, e acredito que teria sido isso que continuaria a fazer.

Tem trabalhado entre a prosa e a poesia, vai alternando. O que é que estes estilos literários distintos lhe permitem criar e explorar?

A forma é indissociável do conteúdo. Às vezes falamos da forma e do conteúdo separadamente, mas é porque existe uma certa preguiça analítica. Na verdade, no mundo, não podemos separar a forma no caso de um texto daquilo que o texto diz, são dois elementos que não existem separadamente. Quando um texto tem uma determinada forma, isso vai afectar necessariamente o seu conteúdo, aquilo que o texto diz. Por isso, um poema sobre um determinado tema não é o mesmo que um texto de prosa sobre o mesmo tema. Não dizem a mesma coisa. Cada um desses textos e cada um desses livros, claro que, quando os publico, espero que estejam acabados mas, ainda assim, têm sempre uma dimensão experimental muito importante. São sempre ensaios com o objectivo de aprender alguma coisa que, quando me proponho a fazê-los, ainda não sei. Essas experiências trazem-me sempre alguma coisa mais. Sinto sempre que cada vez que publico um livro subo um degrau, evoluo como pessoa, e essa é uma das minhas intenções.

O seu livro mais recente tem o título de “Onde” e tem um roteiro por diversos locais do país, todos situados na região Centro. Porque escolheu estes locais?

Este livro vem na sequência de uma intenção que é a de abrir aqui um caminho que me faça trabalhar de uma forma muito directa Portugal, de uma maneira que ainda não está completamente presente nos livros que escrevi até aqui. Embora já tenha muito Portugal nos livros que escrevi, sinto necessidade de expandir a minha acção e a minha atenção dentro do nosso país. Para mim, as minhas geografias mais óbvias são as da minha origem, Galveias, o Alto Alentejo e Lisboa, porque também é uma área que, de certa forma, me pertence. Mas há outros lugares que também tenho vontade de incluir, e achei que começar por esta trilogia, Abrantes, Constância e Sardoal, fazia sentido porque, efectivamente, trata-se de lugares com os quais eu já tenho uma relação, mas que já são um passo para lá daqueles que me são mais óbvios.

Abrantes é um pólo urbano de muita importância na minha região. Um aspecto que nem sempre refiro, mas que tem muita importância, é que nasci na maternidade em Abrantes. Mas, além disso, havia muitos assuntos que naquela região se tratavam em Abrantes. Por exemplo, uma pessoa muito marcante para mim, que era o bibliotecário dessa biblioteca itinerante que chegava na minha infância ser de Abrantes. Eu conhecia-o de Abrantes, onde ele era dentista. O meu pai, que tinha uma carpintaria, fazia muitos trabalhos em Abrantes, no Sardoal, também em Constância. Eu, na adolescência, acompanhava-o muito nas férias, em que também ia trabalhar para ganhar algum dinheiro para os meus gastos. Então, já tinha essa relação, mas, ainda assim, escrever este livro também pressupôs uma descoberta, porque são raros os lugares referidos no livro que eu já conhecia com uma mínima profundidade. A maioria deles, propus-me conhecê-los.

O espaço é um aspecto central no seu trabalho. Valoriza mais o espaço do que o tempo?

Há pouco falava da forma e do conteúdo, que são inseparáveis, e o espaço e o tempo também são inseparáveis. Quando falamos num determinado espaço de uma forma concreta - e isso acontece muito nestes textos -, necessariamente temos de evocar o tempo a que nos referimos porque, no caso concreto destes textos, se visitarmos hoje aqueles espaços, a ideia é que as referências que lá estão sejam ainda muito vivas, pois escrevi aqueles textos de uma forma directamente ligada aos próprios espaços. Mas não tenho dúvidas de que, daqui a dez anos ou daqui a 20 anos, aqueles mesmos textos, apesar de continuarem a falar de espaços que existem, já não vão ser absolutamente fiéis aos espaços a que se referem porque eles mudaram. Esse é um aspecto muito importante porque se refere à reflexão que temos de fazer sobre a vida e sobre as questões mais elementares da nossa própria reflexão. Porque o espaço é a cultura, o tempo é a História, e é nesse cruzamento que vai acontecendo a vida e que vai acontecendo grande parte das decisões que nós também temos de tomar.

Qual é o seu onde?

Esse também é um aspecto importante neste livro e naquilo que me levou a este livro. Eu não quero que o meu onde esteja já completamente definido. Ainda estou vivo e ainda quero estar vivo plenamente. Não quero estar limitado a um espaço ou a uma obrigação, na medida em que quero ter a consciência que permita desenvolver-me e transformar-me. Por isso, continuo à procura de lugares para, provavelmente, acrescentar aos que já tenho.

Ao apresentar “Onde” indicou que este é o primeiro de uma série de livros nos quais vai explorar outros locais de Portugal. Já tem uma ideia sobre a próxima região que vai explorar?

Há vários lugares mas, neste momento, tenho outros projectos em mente. Vou desenvolvendo as múltiplas dimensões daquilo que faço, de certa forma, em simultâneo, e então tenho de ir dando a minha atenção a um e a outro projecto, mas mantendo, de certa forma, presentes todos os outros. Neste momento chegou a vez de me dedicar a um romance no qual já tenho vindo a trabalhar mas a que, agora, vou intensa e exclusivamente dedicar-me. Por isso, não vou estar muito ansioso a procurar novos lugares. Tenho algumas ideias, mas ainda não estão bem definidas.

Esse novo romance já tem estipulada uma data de lançamento?

Espero que saia em 2023, e também é um romance que tem muitas ligações a Portugal - aliás, como aconteceu com os romances todos que escrevi até aqui, mas, neste caso, até ao nível das geografias traz alguns novos espaços sobre os quais ainda não escrevi. Isso também tem uma certa ligação com tudo o que tenho estado a dizer. Mas, neste momento, esse é o meu foco: é tê-lo pronto para ser publicado no próximo ano.

Acha que tem um leitor específico ou escreve para toda a gente?

Para mim é muito difícil fazer essa avaliação, porque acabo por encontrar muitas pessoas diferentes. Actualmente, as redes sociais permitem um contacto muito directo e fácil, e acabo por encontrar pessoas dos mais diversos âmbitos. Por isso, não chego verdadeiramente a conseguir ter uma visão que seja muito representativa.

O que significa para si saber que as suas obras estão traduzidas em dezenas de idiomas, que chegam a tantas pessoas diferentes no mundo?

Isso é incrível. É transcendente imaginar ou ter uma consciência do que é a circulação desses textos. Acaba por me surpreender bastante e mostrar que eu não consigo definir quem vai ler. Isso é algo que existe para lá de mim mas, na verdade, é uma das coisas que me faz sentir mais realizado, porque acredito que os leitores honram os livros e acredito que essa grandeza que os leitores acrescentam aos livros acrescentam-na àquilo que os livros levam e que foi o que me levou a escrevê-los. Portanto, os leitores que os livros têm contribuem para que se cumpra esse propósito inicial que me levou a escrever cada um desses livros.

Esta universalidade que um livro pode ter faz parte da magia que a literatura tem?

Sim, porque a literatura é algo que nasce do ser humano. A literatura é um reflexo da memória, é um reflexo da forma como nos olhamos a nós próprios, como vemos os outros, como imaginamos os outros. E isso é um aspecto absolutamente humano, independentemente das diversas circunstâncias de cada ser humano. Por isso é que conseguimos todos partilhar esse espaço e essa matéria, e é por essa razão que acho que o adjectivo universal assenta tão bem aos grandes livros, porque se referem a algo que todos os seres humanos partilham e que, no fundo, é a natureza humana.

Viaja com frequência para estar em feiras literárias, é convidado para apresentar os seus trabalhos em diversos países. Qual é a importância de dar a conhecer o seu trabalho a pessoas de culturas diferentes e, tendo em conta que a sua obra aborda tanto Portugal, dar também a conhecer mais o país?

No meu caso, essa presença vai ao encontro de uma vocação e de uma maneira de ser. Ou seja, faço esse trabalho com muito prazer, e por isso se adequa. Mas compreendo que outras pessoas não tenham o mesmo interesse em fazê-lo. No meu caso, é algo que me dá um enorme gosto e é claro que aquilo que os livros têm para oferecer é a matéria que os constitui, e eles levam cultura, porque para contar a história ficcional de personagens é preciso comunicar também o entendimento que se faz de todos aqueles episódios, toda aquela forma de ver o mundo. Isso parte do que é, neste caso, a cultura portuguesa. Acho que nós, enquanto portugueses - e imagino que isso venha do passado -, valorizamos essa transmissão da nossa visão do mundo. Achamos que vale a pena partilhá-la com os outros e também, em grande medida, estamos disponíveis para sermos influenciados pelos outros. Isso faz parte do melhor da nossa história.

A literatura de viagens parece ser uma das suas paixões e tem feito vários trabalhos nesta vertente.

Ultimamente tenho desenvolvido muitas colaborações e tenho-me dedicado muito a essa área.

Pode dizer-se que é uma conjugação de duas das coisas que mais gosta de fazer, escrever e viajar?

Sim, até porque elas são naturalmente complementares. Na medida em que viajar é do âmbito da experiência, viajar está relacionado com sujeitarmos os nossos sentidos a uma série de estímulos que, normalmente, são diferentes daqueles que nos são mais naturais e mais comuns. Irmos também à procura do outro e da diferença, daquilo que não é igual ao que nos rodeia. E, depois, escrever é reflectir sobre isso, escrever é digerir isso. Escrever é uma tentativa de tomarmos consciência do que foram essas experiências. Nessa medida, acho que se cumpre muito daquilo que é, pelo menos, a minha ideia de viver, de estarmos presentes no espaço e no tempo que nos cabe.

Quais foram os sítios sobre os quais mais gostou de escrever?

Muitas vezes, aquilo que vemos num determinado lugar não depende exclusivamente do exotismo do lugar. Às vezes depende da nossa disponibilidade, da nossa capacidade naquele momento de estarmos despertos para elementos que nos surpreendem, que nos causam alguma espécie de revelação. E isso já aconteceu em múltiplos lugares, alguns até bastante inusitados e nada românticos. Ainda assim, se tivesse de escolher um destino, talvez aquele que me marcou mais tenha sido justamente a Coreia do Norte. Escrevi um livro sobre a Coreia do Norte que, para mim, teve muita importância, porque foi o primeiro livro com essa vocação das viagens. E, claro, porque é um lugar muito excêntrico, onde as pessoas vivem de uma forma completamente diferente e que, por isso, coloca esse desafio de tentar perceber um pouco qual é a realidade e a perspectiva delas.

Qual foi a viagem que mais gostou de fazer?

Também não é fácil, porque são muitas, e as viagens que mais me marcaram foram aquelas que fiz com os meus pais e que, na verdade, nem envolveram aviões mas foram, realmente, muito marcantes na minha vida. Ainda assim, se quiser escolher um destino um pouco mais exótico, lembro-me, por exemplo, do mês que passei na Amazónia, na zona do estado da Rondónia, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Para mim foi muito marcante, porque tive a oportunidade de contactar com realidades muito isoladas dentro da própria selva amazónica. Ainda hoje, quando começo a contar essa história, normalmente monopolizo logo todo o jantar ou todo o tempo que tivermos disponível, porque é uma história enorme.

Tendo tantas oportunidades de viajar, do que sente mais saudades quando não está em Portugal?

Hoje em dia, confesso que faço alguma batota. Ou seja, utilizo a tecnologia para estar atento ao que está a acontecer em Portugal. Mesmo que esteja muito longe, mantenho contacto com muitas pessoas através desses meios, e isso acaba por atenuar bastante essa falta. Ainda assim, nestes últimos tempos em que tenho realmente viajado de forma muito intensa, é impressionante, quando chego, que toda a gente esteja a falar português e que o português esteja escrito em todos os lugares. É algo que é realmente muito simples e que, quando estamos em Portugal, não valorizamos, mas, efectivamente, a nossa língua é o núcleo mais central da nossa cultura e da nossa casa, porque temos a grande sorte neste país de termos essa língua que é a mesma que as nossas mães nos ensinaram, a mesma com que nós pensamos, a mesma que nós lemos em todos os lugares, porque isso não é assim em todo o mundo. Há outros países que têm várias línguas e que têm de manejar essa ginástica linguística. Como escritor, imagino o que será ter aprendido uma língua em criança mas, depois, ter de escrever noutra língua, como acontece, por exemplo, em Marrocos ou noutros países, como Cabo Verde.

Depois de ter sido muito afectado pela pandemia, e com a entrada de um novo ministro para a tutela no início do ano, em que ponto está, nesta altura, o sector da cultura em Portugal?

O sector da cultura sofreu sempre de grande precariedade ao longo do tempo, e por isso, claro, há muito caminho para se trabalhar no sentido de reconhecer o papel que efectivamente tem. Muitas vezes sinto que existe uma certa falta de visão até na importância económica da própria cultura e na forma como a cultura é uma área que se relaciona com todas as outras áreas da economia e que, muitas vezes, é catalisadora dessas mesmas áreas. A difusão da nossa cultura internacionalmente cria oportunidades ao nível de todas as outras áreas porque cria relações, e essas relações, depois, têm desenvolvimentos económicos. No fundo, aquilo que me parece importante neste momento é que exista efectivamente uma valorização da cultura a um nível prático e que se combata essa visão absolutamente redutora de que, se existir uma dimensão económica, então não é arte. Esse é um certo complexo que a própria cultura alimenta e que os próprios sectores culturais alimentam. Isso não significa que a arte ou a cultura tenham de estar sujeitas a avaliações estritamente de mercado, mas também não significa que seja negativa uma profissionalização dessas áreas, até porque já é isso que acontece com muitas pessoas e há muitas pessoas que vivem disso mas de uma forma que, às vezes, é quase clandestina, e isso é muito penoso.

Sobre o que gostava de escrever que ainda não o fez?

São muitos temas, e um aspecto que há que ter em consideração é que, muitas vezes, é mais fácil encontrar motivos para a escrita do que, depois, ter a possibilidade de desenvolvê-los como merecem ser desenvolvidos, porque exigem uma dedicação e um trabalho. Ainda assim, neste momento, o que me vejo a escrever tem ligações com os grandes temas que já tratei e que, fundamentalmente, estão relacionados com os aspectos da identidade. Acho que por baixo de todas as questões que podemos colocar está sempre essa grande questão que é “quem sou”. Essa é uma pergunta a que nós não sabemos responder em absoluto e que vamos sempre tentar investigar, porque tudo isto é muito misterioso. O mundo é muito misterioso e temos este tempo para viver. Tentamos tomar as decisões correctas, mas fazemos isso a partir de presunções que, muitas vezes, carecem de justificação profunda. Por isso, a literatura, sendo uma área de reflexão que também aspira à profundidade, não tem medo dessas grandes perguntas.

Consegue dizer qual foi o livro que mais gostou de ler?

Na vida? [risos] É muito difícil. Mas posso dizer que os livros que li durante aqueles anos da minha adolescência foram especialmente marcantes. E, aí, houve livros de poesia que me marcaram muito. Tenho de voltar a referir o Fernando Pessoa, porque seria injusto não o referir, embora na nossa cultura seja um estereótipo referi-lo. Mas, efectivamente, é um autor muitíssimo marcante. Por falar de ícones da literatura portuguesa, devo dizer que foi já na idade adulta - e isso vem um pouco na ideia de que ainda estamos a fazer descobertas - que tive a oportunidade de descobrir “Os Lusíadas”, que é uma obra extraordinária da nossa cultura e que vale muito a pena descobrir, principalmente pelas pessoas que tiveram más experiências na primeira abordagem a esse livro, porque é absolutamente extraordinário. Acho que até me saí bem desta pergunta difícil. [risos]

Esta pode ser ainda mais difícil. Se a sua vida fosse um livro, que livro seria?

Provavelmente, a minha vida são os livros que escrevi. Quando olho para a minha vida no passado, faço sempre uma avaliação e localizo-me sempre a partir dos livros que escrevi, principalmente nestes últimos 20 anos. E acredito que escrever livros dá uma consciência um pouco diferente do tempo da vida. Não é melhor nem pior, mas é diferente, porque aquilo de que se trata quando estamos a escrever é justamente de irmos ao fundo de certas avaliações de quem somos naquele momento. Por isso, acho que sim, são os livros que tenho escrito que contam essa história.

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