Jéssica Pina: “Nunca vou largar o trompete, é a minha essência”

Tinha oito anos quando começou a tocar trompete e nunca mais
o largou. O percurso como instrumentista levou-a a passar nove meses ao lado de Madonna na tournée “Madame X” e as experiências que daí trouxe fizeram-na aventurar-se por novos caminhos e a juntar o canto às suas músicas. Agora, com o seu mais recente EP, “Vento Novo”, a instrumentista e cantora de 29 anos vai subir ao palco do EDP Cool Jazz, em Cascais, no dia 30 de Julho.



Aos oito anos começou a tocar trompete e diz que foi ele que a escolheu. Foi mesmo assim?

Sim, costumo dizer isso porque, quando fui para a filarmónica, não tinha nenhum instrumento pensado e deram-me a experimentar mais do que um. Comecei uma semana em clarinete, que não funcionou, e acabei por experimentar outros, mas nada estava a resultar muito bem. Até que experimentei o trompete e foi muito automático. Então digo que ele é que me escolheu a mim. Na altura, o professor disse logo: “Pronto, não se mexe mais, ficamos com o trompete.”

Como foram esses primeiros anos? Não é um instrumento muito comum...

Tinha oito anos, foi uma coisa muito de hobby e fazia aquilo nas calmas. Com o passar dos anos, as pessoas à minha volta começaram a perceber que eu tinha uma certa facilidade para a música e para o instrumento em si. Começaram a puxar mais por mim, mas tudo sem eu ter a mínima noção.

Professores?

Professores, as minhas amigas, a minha família. Começaram a perceber que eu tinha um bocadinho mais facilidade, se calhar, do que o normal. E começaram cada vez mais a puxar por mim porque perceberam que aquilo podia dar frutos. Mas foram anos supertranquilos e nunca pensei que ia seguir música. Para mim, era mesmo só um hobby, um passatempo. Era mais uma brincadeira.

Quando começou a ficar mais sério?

Quando tive de pensar o que ia fazer para o resto da vida, naquela fase do final da escola. E eu, sinceramente, quando fechava os olhos só me imaginava em cima de um palco, com pessoas, a partilhar aquilo que gostava muito de fazer. Ao fim e ao cabo, já tinha sentido, pelo facto de já ter tocado muitos anos na filarmónica e ter feito concertos a solo em que estava mais exposta, aquela adrenalina, e o que se sente nesses momentos ficou cá dentro. Parecia que sabia que queria que isso acontecesse muitas vezes para o resto da minha vida. Então foi por aí, embora tivesse um bocadinho de medo, porque nunca tinha estado numa escola a estudar música. Ou seja, a filarmónica dá umas bases, mas não é propriamente uma escola em que se tenha muita teoria. Então estava com receio, porque pensei que não tinha bases suficientes para me aventurar na universidade. Mas decidi tentar. Fiquei um ano só a estudar música, a tentar ao máximo, e depois consegui entrar na Universidade de Évora, no departamento de Música, na categoria de trompete/jazz.

Depois ainda tirou um mestrado em Jazz. É algo que está na sua essência, enquanto artista?

Sim, o jazz é mesmo a base para tudo aquilo de que eu preciso para o resto da vida. Mesmo que não me considere uma trompetista de jazz, é naquelas origens, naquela raiz, que está tudo o que é preciso para qualquer música improvisada. Para ter o à-vontade para sair de um papel, daquilo que ouvimos, e simplesmente fazer igual. É ali que se começa a ganhar liberdade e a ganhar uma certa identidade. Não é copiando os outros, mas a ouvir um ou outro e a juntar-lhe a nossa essência.

Quem são as suas referências?

Sinto que comecei a ouvir jazz muito tarde, comecei a ouvir música só instrumental muito tarde, já quando fui para a universidade. Em casa não ouvia, os meus pais não eram dessa área, nunca tive muito esse contacto. Então comecei a ouvir jazz na escola, quando me começaram a mostrar realmente o que são os bons álbuns de jazz. Desde Freddie Hubbard, Miles Davis, Lee Morgan, Roy Hargrove - em quem também me inspiro muito para as minhas composições, porque era um trompetista que acaba por sair um bocadinho daquilo que seria o tradicional caminho do trompete. E as minhas referências passam por cantoras também. Toquei muito trompete a copiar vozes, em vez de copiar os próprios sons do instrumento.

Que cantoras?

Billie Holiday e todos aqueles nomes. E consumo muita música americana, R&B, soul. Acabava por copiar também a forma de cantar, mas no trompete. E acho que isso me deu uma identidade diferente, porque é quase como se eu estivesse a cantar, mas com o trompete.

Teve o apoio da sua família ao longo desse percurso?

Sempre. Os meus pais são os meus maiores fãs. A minha mãe disse-me logo para ir, acho que sempre viu e percebeu que alguma coisa diferente podia sair dali. Sempre me mandou para a frente. O meu pai também me apoiou, embora eu saiba que ele gostava que eu tivesse tirado um curso de gestão, uma coisa mais tradicional. Mas também porque, se calhar, ainda não tinha percebido ao certo o que ia acontecer. Agora, ele adora e quer ir comigo para os concertos e ensaios, quer estar sempre presente e apoia-me sempre.

Entretanto, foi convidada por Madonna para integrar a digressão “Madame X”. Como surgiu esta oportunidade?

Foi na altura em que ela vivia em Lisboa. O álbum dela, o “Madame X”, reflecte a influência que ela colocou da música não só portuguesa, mas de toda a comunidade lusófona que há em Lisboa, desde música brasileira à angolana, cabo-verdiana, guineense. Ela ficou encantada com toda esta mistura que nós temos em Lisboa e começou a conhecer vários músicos dentro dessa área. Conheceu o Dino [D’Santiago], que acabou por lhe apresentar muitos músicos. Numa dessas vezes, ela teve a oportunidade de me conhecer.

Foi o Dino que vos apresentou?

Sim. Chamou-me e disse-me que precisava de me apresentar uma pessoa. Nesse dia, ela pediu-me para tocar, cantou uma melodia e depois disse: “Toca lá tu agora essa melodia.” E eu nervosíssima por estar ao lado da Madonna. Toquei, correu tudo bem e, para mim, tinha ficado por ali. Mais tarde, recebo um pedido para fazer a Eurovisão com ela, porque ela ia fazer uma apresentação de uma das músicas dela que tem trompete. Lembrou-se de mim, chamou-me e fiquei supercontente mais uma vez. Mais tarde, quis que eu fizesse a audição para a tournée e chamou-me para fazer a digressão inteira, porque ela queria exactamente isso de Lisboa. Aquilo que nós fazemos de forma natural, ela queria isso no espectáculo dela. Então, só nos pediu para sermos nós próprios. Não fui lá ser uma trompetista que ela quisesse, mas sim eu própria. E isso foi o mais incrível de tudo. Fui para lá ser eu.

Quanto tempo durou a tournée?

Foram nove meses.

Como foi a experiência de trabalhar com a rainha da pop?

Foi incrível. Daquelas coisas que eu sei que vão ficar comigo para o resto da vida e que, provavelmente, igual a esta não vai acontecer mais nenhuma. Fica no coração para sempre. E havia momentos em que eu não acreditava. Fui, voltei e, quando cheguei, não estava a acreditar que tinha acontecido. Parecia que estava só a sonhar. Só depois é que comecei a perceber a dimensão da situação, porque às vezes parecia mesmo um sonho, um ensaio.

A pressão era muita?

Era. Porque é a Madonna, e estamos a falar de uma equipa muito grande e de um método de trabalho muito diferente do que nós temos aqui, em Portugal. Que exige muito mais de nós a nível de tempo, de disponibilidade. Mas como eu estava lá simplesmente para ser eu - ela deu essa abertura a todos nós -, acabava por ser um bocadinho mais tranquilo. Era só tocar da forma como sei tocar, da forma como gosto de tocar.

Estava muitas vezes com Madonna fora dos ensaios? Como é ela fora dos olhares do público?

Todos os dias. Ela é muito querida. Acho que quando ela tem a câmara à frente é aquela estrela, aquela pop star. Mas fora das câmaras é uma pessoa humana como nós todos, e às vezes esquecemo-nos disso. É muito querida, carinhosa com os filhos, superpreocupada connosco. E ao mesmo tempo em que é tudo isto, é muito exigente a nível de trabalho. Sabe tudo o que se está a passar, não deixa para ninguém fazer por ela e trata de tudo. É uma mulher com M grande.

Estavam mais portugueses na equipa.

Éramos quatro na banda e, depois, havia o grupo das batucadeiras de Cabo Verde. Acabei por me juntar a elas em palco, porque também tenho origens cabo-verdianas.

Ajudou às saudades de casa?

Sim, sem dúvida. Se estivesse lá sozinha era capaz de ter sido mais difícil. Mas, de qualquer maneira, toda a gente era incrível.

Era uma experiência a repetir?

Adorava, mesmo com aquela pressão toda. Porque isso é que nos alimenta a nós, artistas, é termos essa pressão e, depois, as coisas correrem bem. E a adrenalina, foi das vezes em que mais senti. Embora a sinta sempre em palco e nos concertos, ali era um nível muito forte mesmo. Nós acabávamos os concertos, imagine, à uma da manhã e, antes das cinco, ninguém estava a dormir, até o corpo voltar aos níveis normais.

O trompete foi a rampa de lançamento, mas agora há uma Jéssica que também é cantora e que lançou, no final do ano passado, o EP “Vento Novo”.

É verdade. Aliás, este meu EP veio mesmo depois da tournée. E fez todo o sentido depois disto, porque decidi arriscar mais em coisas em que tinha menos confiança. Então saí um bocado da minha zona de conforto para fazer coisas em que acho que não sou tão boa, mas que sinto que preciso de arriscar para melhorar. E só saindo daquela zona é que vou conseguir melhorar e evoluir. Foi a Madonna que me ensinou isso, porque lá descobri coisas que não sabia que era capaz de fazer, como dançar e tocar ao mesmo tempo, decorar mais de duas horas de espectáculo, desde o trocar de roupa à coreografia e ao que tinha de tocar. Foram coisas que descobri que sou capaz de fazer e que me deram uma certa confiança para sair da zona de conforto. O “Vento Novo” foi reflexo disso.

Aventurou-se na voz porque sentia que faltava alguma coisa?

Não é que sentisse que faltava, mas sempre quis e nunca tive coragem. Sempre gostei de cantar, desde criança. Mas como sou muito perfeccionista - mesmo no trompete também sou -, nunca achei que teria a mesma qualidade. Então, nunca quis arriscar. A digressão deu-me esse conforto para arriscar um bocadinho mais.

Este “Vento Novo” foi um vento de mudança?

Sem dúvida. Foi mais uma mudança de mentalidade e de atitude do que outra coisa qualquer, porque continuo a mesma trompetista. A mesma que foi em tournée é a mesma que voltou, a nível musical e técnico. Mas a cabeça é que manda. Abri muito a minha forma de ver tudo enquanto artista, enquanto pessoa, enquanto mulher. Quando essa mentalidade abre, nós conseguimos abrir outras portas que estavam fechadas. Trabalhei muito para outros artistas, interpretei muitas músicas e outras pessoas, e agora posso ser só eu própria e mostrar a minha musicalidade, a minha identidade, nas minhas músicas.

Neste projecto vemos também influências de electrónica e R&B.

O R&B sempre esteve muito presente, desde criança. E o electrónico fez-me sentido porque acho que quem imagina um trompete leva sempre para um caminho muito tradicional. Mas, para mim, sempre fez sentido sair dessa zona. O trompete não tem de ser só aquele som que as pessoas imaginam.

No dia 30 de Julho vai subir ao palco do EDP Cool Jazz, em Cascais, no mesmo dia de Jorge Bem Jor. É um palco familiar, não é?

Exactamente. Foi no EDP que toquei a primeira vez com o meu trio, que ainda permanece o mesmo. E foi, na verdade, a primeira porta que se abriu para mim enquanto artista em nome individual. Foi o festival que deu continuidade ao meu processo musical e que assistiu à minha evolução. É quase como o padrinho da minha carreira a solo. [risos]

Já apresentou o seu novo trabalho em vários palcos nacionais. Como tem sido?

É muito bom e muito diferente de estar só no palco como trompetista a acompanhar outros artistas. São mais olhos e mais responsabilidade. O que está a acontecer é responsabilidade minha, as pessoas saíram de casa para me ver, e isso é uma coisa que não dá para explicar. É mesmo incrível nós sabermos isso e olharmos para um público que sabemos que está ali para nos ver a nós, para ouvir a nossa música. E conseguimos sentir a energia do público e transmitir também a nossa. Acho que é mesmo um sonho realizado.

Este não foi o seu primeiro álbum. Em 2018 estreou-se em disco com o álbum “Essência”. Nessa altura, já estava a percorrer o caminho para onde se dirige agora?

Foi um projecto muito diferente, mas já estava com os olhos postos nisto. O “Essência” foi também o resultado do meu recital final do mestrado e por isso estava um bocadinho mais associado ao jazz. No entanto, o próprio trabalho final já era sobre as influências que o soul, o funk e o R&B têm do jazz. Ou seja, queria falar do jazz, mas já estava exactamente a trabalhar no resto e comecei a cantar um bocadinho. Quis começar, mas ainda não tinha à-vontade para lançar a voz toda cá para fora. Mas foi, de facto, um processo em que já estava a pensar nisso.

A Jéssica que agora canta imagina-se a largar o trompete?

Não. Mas posso dizer que se há uns anos me dissessem que hoje ia estar a fazer o que faço, não acreditava. Porque agora, num espectáculo meu, a voz e o trompete estão muito equilibrados. Se calhar, até já canto mais do que toco em algumas partes. E há uns anos achava que isso seria impossível. Agora, já não sei quem é que acompanha quem. Mas nunca vou largar o trompete. É a minha essência, foi ali que começou tudo.

Ainda quer acompanhar artistas ou já é um registo em que não se imagina?

Embora não tenha tanto tempo, gosto disso, até porque acredito que a artista que sou hoje vem exactamente de ter estado na parte de trás. Há artistas que começam logo a solo e, se calhar, não sabem o que é estar no outro lado, e acho que isso me fez crescer muito. E gosto de poder continuar - não com a mesma frequência - a fazer isso. Acho que é importante para continuar a ter influências, continuar a sair da minha zona de conforto e não ficar só naquilo. Obriga-me, enquanto trompetista, a estudar coisas diferentes e a estar preparada para qualquer estilo.

Disse numa entrevista que sentiu que, por ser mulher, teve de se esforçar mais. Porquê?

Senti que tive de me mostrar mais. Quase como que para provar o mesmo que um homem trompetista. Foi no início. Agora já não sinto isso porque sei que as pessoas já me conhecem. Mas, quando comecei no meio musical, sentia que tinham dúvidas se eu estava ali porque realmente tocava bem ou só porque era engraçado ser uma mulher a tocar trompete porque dava palco. Então sentia que tinha de provar que estava ali porque sabia fazer isto bem. Tinha de dar um bocadinho mais. Não me lembro de nenhuma situação específica, mas lembro-me de ir para os ensaios com os olhares um bocadinho mais em cima, quase mais provocador.

Não há muitas mulheres trompetistas. Diria que o jazz é um mundo de homens?

O jazz em si, não. Mas o instrumental, talvez. Porque há muitas mulheres a cantar e, apesar de cada vez haver mais mulheres instrumentistas, o jazz instrumental é mais de homens, sim. Daí essa obrigação que senti, no começo, de mostrar o meu valor. A primeira coisa que as pessoas vêem é o físico, é a aparência, não dá para evitar isso. Então, se estiver num ambiente em que ninguém me conhece nem nunca ouviu falar sobre mim, sinto um bocadinho isso.

Alguma vez pensou que não era este o caminho que devia ter seguido?

Não, nunca pensei que não seria esse o caminho porque faz todo o sentido para mim. Mas, por exemplo, na situação de pandemia que vivemos, passou-me pela cabeça: “Será que vai funcionar? Até quando vou poder fazer isto?” Porque, às vezes, parece que é sorte a mais. Como é que uma pessoa tem tanta sorte de poder fazer a coisa que mais ama o resto da vida? E não é só talento, porque há muita gente com talento que não consegue. É preciso procurar a sorte também. Mas, às vezes, fico a pensar se vou mesmo conseguir fazer isto o resto da vida. E, se não, o que é que faço? Parece que não quero fazer mais nada a não ser música. Mas nunca achei que não fosse o caminho certo.

Como foram esses tempos de pandemia?

Para mim, não foi tão mau porque tinha acabado de sair de uma tournée de nove meses. Então, a cabeça teve tempo para acalmar. Para mim, não foi tão mau como para outros músicos e artistas. Tive tempo para ponderar este “Vento Novo”, para começar a compor, para pensar o que quero fazer, pensar em cantar mais, desenvolver essa minha parte. Tive tempo para reflectir. Foi uma coisa boa. Acho que, dentro deste azar todo, tive sorte.

Quais são os objectivos para o futuro?

Para já, continuar com o meu projecto e subir e crescer enquanto artista. Estou no sítio certo. E, um dia, aparecer a Jéssica Pina enquanto cartaz principal.

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