Jacqueline Audry: um poço de desejo

Filmou a insatisfação feminina quando ela era tabu no cinema francês. Calcetou caminho para um cinema transgressivo, cobrindo as décadas de 1940 e 1950 com filmes demasiado adornados, sem moldura para serem aceites pelos jovens da Nouvelle Vague. Até 20 de Outubro, como parte da 22.ª Festa do Cinema Francês, a Cinemateca Portuguesa recupera o seu legado numa retrospectiva com sete filmes.



Uma orquestra feminina” é a definição que a investigadora e professora de estudos fílmicos Brigitte Rollet atribui à pioneira do cinema francês Jacqueline Audry no início de “La Femme à la Caméra”, livro que publicou sobre a cineasta. Num embalo de referências que demonstram o início de Audry, mulher casada e com filhos antes de chegar ao cinema, depara-se com um problema. “Como ganhar a vida?”, pergunta ela a um amigo. Este sugere-lhe que faça cinema.

A história que Rollet encontrou num artigo de uma edição do jornal Paris-Presse de 1949 explica quase tudo. Mas aprofunda especialmente a sua força e vontade de vigorar numa indústria que, ainda em meados da década de 1950, diferenciava as funções por género. Uma famosa declaração de Jean-Luc Godard exemplifica isto mesmo: “Filmar é masculino, montar é feminino”. Rollet, que estará presente na Festa do Cinema Francês para debater a retrospectiva dedicada a Jacqueline Audry, recupera-a para resumir a importância de uma mulher que já anos antes colmatava a voz da multidão com um cinema que só agora atingiu o seu tempo e pode ser visto como merece.Nascida em 1908 no seio de uma família aristocrata, foi a única realizadora francesa a ter um percurso regular no cinema, mas também a única mulher a fazê-lo no sistema dos estúdios dos anos 50, numa figura paralela à de Ida Lupino nos EUA. Depois de trabalhar como assistente para os realizadores G. W. Pabst, Max Ophüls ou Jean Delannoy nos anos 30, estreou-se na realização em 1943 com a curta-metragem documental “Les Chevaux du Vercors” e permaneceu no activo até 1969, atravessando a ocupação alemã até à Nouvelle Vague francesa e contando com mais 16 longas-metragens de ficção no seu arsenal.

No entanto, poucos eram aqueles que a reconheciam como a pioneira que foi, a única mulher que “abordou um tema tabu no cinema francês: a insatisfação feminina, a insatisfação sexual”, nas palavras do crítico Bertrand Tavernier. Serve como exemplo o ensaio académico de 1996 de Susan Hayward, professora de Estudos Fílmicos na Universidade de Exeter, no qual apresenta apenas Alice Guy, Germaine Dulac e Agnès Varda como as pioneiras do cinema francês: “Há outras, claro, mas essas estão inscritas nos anais da história do cinema francês”.

Da censura à redescoberta

Não era o caso de Audry, claro. Mais recentemente, estes lapsos vieram a ser corrigidos por Tavernier na sua série “Viagens pelo Cinema Francês”, que encaixa a cineasta no episódio das autoras desconhecidas, ou por Mark Cousins no seu ambicioso documentário “Women Make Film”. Mas foi um novo restauro digital de “Olivia” (1950), um dos mais celebrados filmes no seu corpo de trabalho, vítima de censura, que a partir de 2019 a levou a uma nova geração de espectadores, críticos e programadores que não só renovaram o olhar sobre o filme como amplificaram a leitura que dele tinha sido feita.

Conhecida pelas suas adaptações de romances literários escritos por mulheres - da Condessa de Ségur a Colette e Dorothy Bussy -, Audry fez uma adaptação livre de “Les Malheurs de Sophie” (1945), olhando para a vida adulta da rebelde rapariga aristocrata que não quer ser casada com alguém que não ama. Seguem-se duas adaptações de Colette para o ecrã: “Gigi” (1948) e “Minne” (1950), ambos manifestações feministas, protagonizadas por Danielle Delorme. Este último, especialmente, contém uma das conversas mais explícitas entre mulheres sobre sexo e o orgasmo feminino.Influenciada pelo classicismo de Ophüls, o seu cinema foi rejeitado pela Nouvelle Vague por embrulhar a verdade das mulheres em melodramas refinados e adornados, socialmente aceites como filmes realizados por mulheres, mas desmaiados do impacto da frescura inconformista que os jovens críticos dos Cahiers du Cinéma estavam a injectar na gramática do cinema. “Tudo aquilo era uma configuração revestida de açúcar, a cobrir as cenas menos púdicas do cinema francês da altura”, explica Tavernier.

É “Olivia” que vem consolidar a tese militante expositiva de Audry e firmar que no seu cinema não há construções sociais a ditar o comportamento das mulheres. Adaptado para cinema pela sua irmã, Colette, “Olivia” representa a epítome feminista do trabalho de Audry. Um filme situado no século XIX, num colégio de raparigas trancado por um alto portão de ferro, onde se dá um triângulo amoroso entre três mulheres e se sente a tensão sexual por libertar em movimento pelas escadas espirais deste submundo brontesco. Um objecto curioso, “Olivia” é a realidade que vem destronar a ilusão. O bater em portas e o responder à luz que sai delas, tudo vislumbrado como um sonho febril.

“Toda a minha vida profissional tem sido uma espécie de tormento, uma batalha para realmente introduzir as mulheres ao mundo da realização. Não só Jacqueline Audry, mas as mulheres”, dizia sobre si própria numa entrevista recuperada por Tavernier. Era o seu maior desejo. Setenta anos depois, podemos finalmente dizer que estamos a chegar a algum lado.

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