Há 30 anos a nadar com os Nirvana

“Nevermind”, um tratado de urgência e torpor, electrificou o caminho da banda de Kurt Cobain. O NOVO recupera a história de um álbum para a posteridade, onde a ânsia pop serve de mortalha à fúria de viver.



Se houvesse um calendário musical, 1991 poderia ser o ano da tablatura. Um apogeu para as malhas de guitarra distorcida, que entreteciam a corrosão e o estranhamente doce; a misantropia e a pulsão irreprimível da comunhão, fundidas num núcleo duro de rock agre e serrilhado.

Estavam na ponta dos dedos, da língua, nos ouvidos da Terra: eram o lócus de “Use Your Illusion”, o blockbuster bipartido dos Guns N’ Roses, e da escritura sonora dos Metallica também (nome de código: The Black Album, cuja reedição comemorativa é, esta semana, o álbum mais vendido em Portugal). Energizavam os Pearl Jam, na era introdutória de “Ten”, e os Red Hot Chili Peppers; moviam igualmente as palhetas dos Soundgarden. E também os My Bloody Valentine se alicerçavam em riffs de êxtase, só que submersos em tremolo e dissonância.

Os Nirvana vinham apontados a uma água mais turva. No Verão de 1989, quando editaram “Bleach”, o vocalista e guitarrista Kurt Cobain, o baixista Krist Novoselic e um de cinco bateristas (Aaron Burckhard o primeiro) esperavam pouco mais do que o prazer das cordas. De forma consentânea com o ar áspero, de putos da garagem, queriam tocar e dar vida aos esquissos — ao invés de os envernizar, como pontificava a moda MTV.

“E estes foram os Whitesnake”, dizia o apresentador Dick Clark após uma actuação televisionada da banda. “Não somos os Whitesnake, meu. Somos os Poison!”, retorque um guitarrista loiro hirsuto, de alças de leopardo. Outro colega — de tronco nu, coleira e cruz ao peito — desabafa: “Pensava que éramos os Quiet Riot!”. O baterista guedelhudo aponta para o logotipo na bateria: “Diz aqui que somos os Ratt”. Atenção: isto é apenas um episódio de 1999 d’Os Simpsons, mas contém alguma verdade acerca do rock então coevo, indistinguível entre si, em regime de auto-paródia e ostensão barroca por via dos videoclipes.

Para Chris Cornell, isso era como gritar “temos uma vida que tu não tens.” Por contraste, a natureza corriqueira e anti-presunçosa dos Nirvana era um chamariz: “Gajos que podiam ser teus colegas de escola”, como opinava o entretanto desaparecido líder dos Soundgarden. São palavras retiradas da história oral da GQ sobre “Nevermind”, o maior catalisador da cena de Seattle — cidade à qual a banda era associada, não obstante estarem a uma distância quilométrica. O suficiente para sonharem com a oportunidade para uma supernova, quando ainda não era evidente o destino de explodirem, a par dos conterrâneos Alice in Chains e dos Soundgarden. Quando aconteceu, despedaçaram-se em mais de 30 milhões de cacos, por todo este mundo desencantado.

A eflorescência do espírito
Trinta horas e 606 dólares foi quanto a gravação de “Bleach”, em 1989, exigiu dos Nirvana — além do que Cobain entendia como uma capitulação ao status quo sónico de Seattle. A empreitada seguinte seguiu uma operação de multiplicar: ao final de dois meses, 60 mil dólares e a orientação do produtor Butch Vig (que segurava as baquetas nos Garbage), “Nevermind” nasceu (e sem qualquer outra nota de desleixo para lá do título).

Não é uma lenda, mas assim reza: sem boleia para Los Angeles, onde se situava o estúdio, OS Nirvana — por esta altura, Cobain e Novoselic acolhiam definitivamente o baterista Dave Grohl, hoje líder dos Foo Fighters — pagaram a gasolina ao dar um concerto em Seattle. Foi aí que se estreou “Smells Like Teen Spirit”, a canção de assinatura que sobreviverá a todos nós, confirmando a predilecção por títulos oblíquos. Essa ode ao niilismo adolescente foi baptizada pela vocalista das Bikini Kill (bandeirantes do movimento riot grrrl), que havia grafitado numa parede a frase “Kurt Smells Like Teen Spirit”. Cobain não viu ali mais do que uma toleima qualquer, mas pensou demasiado. É que cheirar a Teen Spirit denotava apenas o uso de uma marca juvenil de desodorizante (por parte de Tobi Vail, baixista das Bikini e namorada à data de Cobain).

Interessavam-lhe mais outras marcas de socialização jovem: o espaço oco, existencial que se converte em cólera; a verborreia fiada em torno de um ponto de interrogação à escala humana; o entendimento de que mais valia a honestidade fria e acídica do que o humor autodepreciativo. Tinham razão, como atestam os tais 30 milhões de “Nevermind”, álbum que forçou a editora Geffen a parar a impressão de todos os outros álbuns a seu cargo, apenas para responder à procura que começou em Setembro de 1991, duas semanas após “Teen Spirit” ter começado a sondar a mocidade raivosa.

Talvez o êxito se deva ao facto de ter sido o primeiro disco a arrancar com a frase “não há pão quente”. Fora de brincadeiras, dentro do rock mais cáustico, só os AC/DC e Meat Loaf escalaram mais alto, mas que tinham estes tipos a ver com isso? Para Novoselic, nem o próprio sucesso era motivo de alvíssaras: bestial, fixe, etc. “Mas estou a cagar-me”, traduzindo livremente algo que disse o baixista, “para um feito desses.”

Lítio e urina territorial
Não era exactamente essa a postura de Cobain. Sim, não era exactamente um diplomata na ligação com o mainstream, os media devastaram-no e, a certo ponto, mais valia não ter havido “Teen Spirit” algum.

O facto é que a primeira vocação de “Nevermind”, por sua vontade, foi a de uma música imediata, com um exoesqueleto hiper-melódico, orgulhosamente orelhudo, para suportar o quão áspero era o organismo por debaixo: duro ao toque, autodestrutivo nas palavras. Como se ouve Dave Grohl explicar no documentário que a série “Classic Albums” dedicou a “Nevermind”, Cobain projectou as canções como “cantigas infantis”, “tão simples quanto possível”, para escancarar o seu potencial didáctico e poético.

“Polly” é o exemplo mais recorrente de como uma bonita construção pode obscurecer o que é realmente uma escrita de faca e alguidar — mas, desta vez, tome-se “Lithium”. É um micro-estudo potente de depressão maníaca, hiperssexualidade e religião recém-descoberta, narrado por um sujeito em processo de velar a namorada falecida. Não deixou por isso de ser um êxito pop, movido pela destreza melódico-narrativa. Se falarmos das rádios europeias — em Portugal, chegou ao número 4 da tabela da Associação Fonográfica Portuguesa —, a questão lírica é mínima. No ponto mais nevrálgico, um hit alimenta-se da memorabilidade, o talento inato de algo para nos assombrar durante dias. No caso de “Nevermind”, já vão três décadas.

Ao grito pseudo-reverente de “Teen Spirit” e ao atordoamento de “Lithium”, somaram-se “Come as You Are”, monumento de aceitação radical, parte hipnótica e parte amniótica, e “In Bloom”, que conta do desfasamento entre a missão assumida pelos Nirvana e os desejos do público. Era já uma carta de intenções, não se fiem demasiado no que salta ao ouvido.

Ainda naquele documentário, Butch Vig reproduz o processo de construção da dita última faixa, “Something in the Way”, onde Cobain encena os últimos dias de um sem-abrigo seropositivo: aquartelado no sofá, pede que tudo se reduza ao volume de um sussurro. A ambiência assusta, despida e cavernosa (sobretudo após um rol de malhas como “Territorial Pissings”, “Drain You” e “On a Plain”), fornecida por uma guitarra que apenas mimetiza a linha melódica de Cobain, dançando em torno da brita na sua voz.

Por breves momentos, tudo pára: o brilho corrosivo, a torrente de sentimentos, os greatest hits, a nostalgia bacoca, os paroxismos da estupidez hormonal. Cai o véu, abre-se o fundo de um túnel comprido, as paredes estão escritas e rasuradas, cantadas, enrouquecidas, riscadas. Aí está a central de “Nevermind”, a vida afogada por trás de toda a plasticidade e bagagem de um álbum clássico. Só não lhes chamem grunge, que eles não gostavam disso.

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