Filipe Melo: “Já ganhámos um Europeu, a Eurovisão, falta-nos um Óscar”

A curta-metragem “Lobo Solitário”, de Filipe Melo, está na shortlist para os Óscares, a espreitar a nomeação. O realizador diz não estar expectante, mas não esconde a alegria. Multifacetado, equilibra o cinema com a música e a banda desenhada. Afirma que os prémios “não trazem felicidade” e fala da paixão pela música e da vontade de contar histórias.



O que sentiu ao saber que “Lobo Solitário” tinha sido seleccionado para a shortlist dos Óscares?

Já sou um senhor de idade [45 anos], o que significa que já não me deslumbro assim tanto como me deslumbrava, se calhar, há 20 anos, quando uma pessoa pensa “se calhar, isto é um sinal para uma carreira em Hollywood”. Não, eu já encontrei aqui o meu cantinho e tenho uma vida em que fui canalizando o meu tempo para coisas que realmente gosto de fazer. Volta e meia aparecem surpresas incríveis. Diria que este ano foi algo surreal, porque fiz um livro de banda desenhada que editámos aqui e, de repente, estamos na San Diego Comic-Con, eu e o meu bom amigo desenhador Juan Cavia, com quem trabalho, com o Frank Miller e o Neil Gaiman a dizerem o nosso nome. Obviamente, perdemos. Mas, aí, também não tive um nervoso miudinho e aquela ideia de que, se calhar, íamos ganhar, porque sou um pessimista por natureza e penso sempre “não vou ganhar um boi”. Então, digo com toda a honestidade que estou a desfrutar do processo mais do que estou expectante pelo resultado. O dia em que soube que a minha curta-metragem foi seleccionada foi um dia de inúmeras peripécias, em que um berbequim furou um cano de gás aqui em casa. Qualquer pessoa que já passou por isso sabe a aflição que causa; então, nem sequer estava aí para isso, era um dia que estava a correr mal. Saíram os escolhidos para a shortlist e eu nem sequer sabia, pois nunca acreditei, nem por um minuto, que isto tivesse alguma hipótese de estar na shortlist para os Óscares. Quem acreditou foi a produtora e distribuidora. Até ao último minuto, achava que estava a ser um desperdício de tempo e dinheiro investir na promoção da curta - não por não gostar da curta, mas porque os Óscares de Hollywood são aquela coisa que eu via quando era pequenino. A minha reacção foi de estupefacção e de bastante alegria. Foi totalmente inesperado.

A expectativa vai aumentar com o aproximar do dia 24 de Janeiro e com o momento em que vão anunciar os nomeados?

Vou arranjar formas de ignorar que esse dia vai chegar.

Não vai estar curioso para assistir ao anúncio?

Não, porque tenho uma má relação com a dor emocional. Sei que estar a ver isso com expectativa e estar a ouvir os nomes e dizer “é desta”... já passei por isso tantas vezes, estar nomeado para qualquer coisa e ganhar e estar nomeado para qualquer coisa e perder, que passei a gostar do facto de termos sido a primeira curta-metragem de imagem real portuguesa a chegar à shortlist. Isso deixa-me contente e, se calhar, para o ano há outra, e depois outra, e depois, se calhar, uma vai ser nomeada e, depois, uma vai ganhar. Talvez este ano um dos meus compatriotas vá ganhar.

Seria importante conseguir quebrar o enguiço e ter um filme português nomeado para os Óscares.

Claro. Já ganhámos um Europeu no futebol, já ganhámos o Festival da Eurovisão, falta-nos um Óscar, caramba.

Já ganhámos prémios em festivais de cinema, mas os Óscares têm um peso diferente.

O cinema português é fortíssimo. É um cinema que tem ganhado prémios tão importantes como os Óscares mas, de facto, os Óscares têm aquela tradição, aquele peso. Acho que quem gosta de cinema em todas as suas vertentes tem estas duas mecas, que são os Óscares e o Festival de Cannes. Os festivais de Veneza e Berlim também são importantes, mas estes dois definem um bocadinho as vertentes gerais do cinema mundial. A relação que tenho com o cinema desde pequeno é ver os Óscares como quem vê o Mundial de futebol.

Como surgiu a ideia para o argumento de “Lobo Solitário”, que à partida aparenta ser um filme calmo mas rapidamente se transforma, com um crescendo de tensão?

A ideia surgiu devido a uma questão muito prática. Vinha de uma altura em que estava a escrever o livro “Balada para Sophie”, que é um calhamaço. Então queria escrever algo que pudesse filmar, porque tinha saudades de filmar, de trabalhar com actores, de trabalhar com uma equipa. Pensei que talvez uma boa solução fosse encontrar uma história que pudesse ser feita só com um actor, num só décor, num só plano. Portanto, esta foi a ideia-base que deu origem a tudo o resto: fazer algo em que não houvesse qualquer tipo de pós-produção, em que os próprios créditos estariam algures nos objectos da imagem. Mas, ironicamente, o projecto acabou por ter algum financiamento. Pela primeira vez tive o apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para a produção. O ICA funciona nesse aspecto, permitiu-me de alguma forma ampliar esta ideia e trabalhar com uma equipa profissional, e tenho a sorte de ter uma produtora [a Força de Produção] que acredita mais em mim do que eu próprio, e ajudou-me a reunir estas condições todas e puxou por mim. Depois, a questão das rádios locais: especialmente com este projecto do “Deixem o Pimba em Paz”, que fiz com o Bruno Nogueira, a Manuela Azevedo, o Nelson Cascais e o Nuno Rafael, e com a mesma produtora do filme, a Sandra Faria, que faz este espectáculo, viajámos bastante pelo país e ouvimos rádios locais. Em Tondela havia muito disso quando era miúdo, as rádios para onde as pessoas ligam a pedir músicas. Tenho um fascínio muito grande por isso. É uma coisa muito portuguesa.

Tenho ideia de que nas cidades mais pequenas criam uma ligação entre as pessoas, são uma forma de interacção entre as pessoas daquele meio, e não só. É muito próprio da nossa cultura.

Os telefonemas que aparecem no filme são transcrições palavra por palavra de telefonemas reais que ouvi na Rádio Voz de Alenquer, que, aliás, foi uma parceira preciosa no processo, porque me deixaram ir lá, deixaram-me ter acesso aos programas. Isso foi uma inspiração. Por último, o tema mais importante da curta-metragem, e talvez o mais sombrio, obrigou-me a fazer uma investigação mais difícil, a falar com pessoas e ler testemunhos de coisas que se passaram. Obviamente, isso foi a parte mais difícil não só de escrever, mas também de tentar abordar, porque levanta uma questão - sem querer estragar o filme a quem poderá não ter visto - com a qual fico sempre intrigado, que é quando as pessoas seguem determinadas figuras públicas até ao limite, mesmo quando elas revelam ser pessoas horríveis. Em termos globais, temos assistido muito a isso: já alguém foi muito além de qualquer tipo de razão, chega ao domínio da psicopatia e continua a ter uma série de seguidores, que são uma espécie de minions. Vimos isso há dias no Brasil. Também era uma reflexão sobre isso, como é que se constrói um vilão. Também tem a ver com a forma como alguém pode ser julgado na praça pública. Pode haver essa questão. Se é culpado, obviamente, é um psicopata. Mas caso seja inocente...

O filme aborda ainda temas como o imediatismo através do online e das redes sociais, as reacções das pessoas através das redes sociais, a pedofilia e os traumas associados. Como foi condensar tudo isto numa curta-metragem?

Houve alguém que verbalizou algo que fez muito sentido para mim. O “Lobo Solitário” é como uma montanha-russa. Aquilo está muito lento e, de repente, vamos por ali abaixo. Isso foi intencional. Eu vinha de uma série de histórias em que o elemento comum era uma personagem que procura a redenção. Isto é uma coisa que está muito enraizada, especialmente na minha geração. Crescemos a ver filmes nos anos 80 e 90 sobre personagens que estão à procura de redenção, a viagem do herói que acaba por aprender com todo o processo. Nos anos 70, por exemplo, não era tanto assim. O cinema americano dos anos 70 é muito mais interessante nesse sentido porque tem personagens que não estão à procura de redenção, personagens que não aprendem. Isso, depois, foi recuperado. Acho que, nos últimos anos, temos bons exemplos. Estou a lembrar-me de vários filmes muito bons, desde o Paul Thomas Anderson, o “There Will Be Blood”, o “Uncut Gems”. Estes tipos de filme interessam-me muito mais. Mesmo na televisão, quantas personagens não têm como objectivo a redenção? Essas personagens arranjaram mecanismos de defesa ou muralhas para ocultarem um carácter horrível, e isso é fascinante. Se calhar, há uns anos não tinha a experiência de pensar que podemos ter um protagonista assim, que continua a ser interessante - talvez até mais interessante do que um clichê ambulante. Eu estava interessado em ver até que ponto as pessoas queriam seguir alguém que pode ser um completo psicopata e reflectir sobre isso. Foi isso, mas de uma forma muito natural, pois, para todos os efeitos, é um thriller. Houve muitas questões, especialmente o final, que foram muito refinadas, porque ficámos um ano parados, não podíamos filmar devido ao confinamento. Deu para refinar algumas questões que um ano antes não teriam sido tão discutidas.

Anteriormente, já tinha realizado o “Sleepwalk” (2018), que é uma curta-metragem muito interessante. Depois destas duas curtas-metragens em anos recentes, está no horizonte uma longa-metragem?

Posso dizer com toda a sinceridade que gostaria muito de fazer uma longa-metragem, mas uma grande vantagem também de não ser um profissional, isto é, de não fazer do cinema a minha profissão, é que não tenho de fazer qualquer coisa da qual não tenho completa convicção. Só vou fazer isso se tiver uma ideia em que digo “isto, quero fazer”. Depois posso falhar e pode ser uma porcaria, mas tem de ser algo que, quando começar, tenho de ter a convicção de que tenho de fazer. Tenho muita vontade. Eu disse que já sou um senhor de idade, mas continuo a ter aquela energia juvenil quando penso num projecto que me entusiasma. Para mim, essa é a razão de uma pessoa estar viva, sentir aquele entusiasmo. Gostava muito que acontecesse. Adorava. Tenho é de trabalhar, porque sou extremamente preguiçoso.

Não diria isso, pela quantidade de trabalhos que já fez em diversas áreas. Em pequeno era difícil responder à pergunta “o que queres ser quando fores grande”?

Quando me perguntavam o que queria fazer, respondia que queria ser o Steven Spielberg. [risos] Não dá. “Pode alguém ser quem não é?”, já dizia o outro senhor. Dito isto, as primeiras memórias cinematográficas que tenho são exactamente essas do “E.T”, do “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, do “Indiana Jones”. Aquilo despertou em mim uma vontade incrível de contar histórias, e depois, a partir daí, consigo relacionar com algumas outras pessoas no jazz, por exemplo. Foram elementos essenciais que depois me levaram a toda uma árvore genealógica de cinema ou de música. Para mim, era claro que o que queria fazer era filmes como os do Spielberg.

Acaba depois por se focar mais cedo na música. Como foi essa transição?

Teve a ver com uma altura em que estava meio perdido na vida porque, inicialmente, tive uma obsessão que era a informática, e depois, devido a uma série de circunstâncias, tive de largar a informática e fiquei obcecado por música por causa de uma visita ao Hot Clube. Comecei a relacionar-me com muitos músicos de jazz, nomeadamente os irmãos Moreira, que são uma família muito importante - o pai deles foi uma figura essencial no jazz -, o Bernardo Sassetti, o Mário Laginha. Estas pessoas tiveram um impacto tremendo na minha vida, porque fiquei obcecado com aquele género de vida. Ouvia o Keith Jarrett, o Herbie Hancock, essas pessoas, e queria perceber como aquilo funcionava. Durante uma altura, o cinema ficou adormecido. Só que, depois, como não havia um curso superior de jazz, ainda estive noutro curso, mas não ia dar. Estive dois anos a estudar Comunicação Social, mas não me lembro de um único colega e de um único professor. Não era a minha vocação. Já estava muito obcecado com o piano. Depois consegui ir estudar para fora e estive durante três anos a estudar jazz nos Estados Unidos, e isso deu-me uma grande oportunidade. À noite ia à Tower Records alugar filmes e isso foi a minha escola de cinema.

Quão importante foi ter estudado no Berklee College of Music, em Boston? Também teve impacto a mudança de cenário e enriquecer a sua cultura musical e cinematográfica?

Acho que, neste momento, é uma óptima fase para se estar aqui; há 20 anos, fazia bem ir para fora. Por exemplo, vi filmes que era difícil encontrar aqui: filmes gore, de exploitation, policiais italianos dos anos 70. Não havia cá. Da mesma maneira que não havia tantos concertos de jazz. Hoje há muitos concertos de jazz e de rock. Fez-me muito bem estar lá. Toquei com músicos incríveis, vi filmes que nunca tinha visto aqui. Felizmente, agora, isso está muito mais atenuado e muito mais globalizado.

O que mais aprecia no jazz e de que forma o preenche enquanto músico?

Claro, gosto muito de música no geral. Aliás, tive uma educação no rock, porque os meus irmãos sempre me tentaram levar para o rock e eu alinhei. Tinha um irmão que me levou a ver concertos de Soundgarden, de Nirvana, e comecei a ter curiosidade pela música. Depois comecei a estudar a música clássica e gostava, mas só quando comecei a estudar jazz é que fiquei mesmo apaixonado pela música. Na música clássica, todo o ensino está orientado para que um jovem pianista toque sozinho antes de tocar com outras pessoas. A primeira aproximação ao jazz é feita a tocar e a comunicar com outras pessoas e, para mim, isso é a coisa mais bonita que existe, conseguir conversar com alguém musicalmente. Esse diálogo musical com alguém - e em vez de utilizar palavras usar notas e ritmos - é a parte mais fascinante.

A introdução na criação de banda desenhada com a trilogia “As Incríveis Aventuras de DogMendonça e Pizzaboy” não podia ter corrido melhor. O Filipe e o Juan Cavia elevaram logo a fasquia.

Não vou pôr as coisas dessa forma. Diria que, na altura, o que tínhamos era tanta coisa ali metida de esforço e tanta convicção, aquela convicção inocente... porque, hoje em dia, vejo o resultado e dá-me vergonha, a mim e ao meu amigo Juan, porque agora vemos quem éramos na altura. Então, há uma mistura de carinho, mas aquele carinho de quem pensa: “Coitadinhos.” Era um exercício de escrita para mim, pôr em prática aquela estrutura clássica do herói, a estrutura de três actos. Era um estudo, e para o Juan era um estudo de composição, de desenho, de narrativa. Quando o livro saiu, passámos tanto tempo a fazê-lo que fizemos um esforço tremendo para que chegasse às pessoas. Tínhamos orgulho em oferecer o livro e em saber que as pessoas liam o livro. Criámos uma relação muito próxima com os leitores. Lembro-me de leitores com os quais me cruzo de vez em quando em lançamentos que, na altura, eram pequeninos. Queríamos era aprender a contar histórias e, como a coisa correu bem, ganhámos entusiasmo para fazer outro e depois outro.

Em 2020 vocês fizeram “Balada para Sophie”, que foi um sucesso. A ligação da história à música tem a ver com a sua própria experiência como músico?

Tanto eu como o Juan tocamos piano e temos um grande amor pela música - o Juan mais na área da música clássica e eu mais no jazz. Nas viagens que fizemos por causa dos livros anteriores, como o “DogMendonça” e “Os Vampiros”, íamos falando sobre fazer qualquer coisa que tivesse a ver com música. Não sabíamos bem o que seria. Até que, a dada altura, demos com a capa de um disco que tinha um pianista e pensámos que a capa era horrível, e decidimos imaginar qual seria a história deste indivíduo para fazer uma capa assim. Começámos a conversar sobre qual seria a natureza da história, e ia ser uma comédia, daquelas de rivalidade, em que há um que está sempre a tentar sabotar o outro. Só que o livro acabou por ser escrito numa fase em que estava bastante destroçado por uma série de razões e a minha forma de tirar umas férias da vida real foi canalizar tudo para o livro. Suponho que haja uma série de ansiedades e também de manifestações de amor à música que são obviamente minhas, e também do Juan. O desenho também transmite metade do que aquilo é. Há muitas coisas que estão ali que nem sequer estão disfarçadas. As inseguranças dos músicos, a relação de obsessão com a música, as prioridades entre fazer-se aquilo em que se acredita ou aquilo que nos pode trazer reconhecimento ou dinheiro, tudo isto são questões que são muito humanas e que não são necessariamente só da música, mas que os músicos conhecem muito bem. Foi tudo ali parar, e sem filtros.

Já falámos sobre “Lobo Solitário” estar na shortlist dos Óscares. “Balada para Sophie” foi nomeado para os prémios Eisner, que são os Óscares da BD.

Tal como falei da dualidade Óscares e Cannes, há uma espécie de equivalência entre os Eisner e Angoulême. Pensámos que, sendo o nosso livro europeu, uma história que se passa na Europa, um estilo menos americano, se íamos ter sorte era em Angoulême. Não fomos nomeados. Ficámos tristes. Isto para dizer que as nomeações para os Eisner foram completamente imprevistas. Foi o mesmo que agora. Foi óptimo. Estas coisas são muito boas, mas já tenho anos suficientes para perceber que não são prémios que trazem felicidade ou ajudam a criar uma carreira.

Na sua carreira tem colaborado frequentemente com Juan Cavia. Vocês já estão na mesma página quando têm alguma ideia para um trabalho?

Aprendi muito, muito com ele. O Juan tem mais facilidade a falar com pessoas do que eu. Também acho que isso acontece porque ele trabalha na indústria dos filmes e lida com muita gente. Está mais habituado a lidar com certos aspectos, como a concessão de uma ideia, negociar uma ideia. Isto para chegar ao ponto que tenho sorte por ter conhecido o Juan, porque dificilmente teria feito tanta coisa na banda desenhada se não tivesse sido com uma pessoa tão inteligente e tão generosa. É muito fácil trabalhar com ele. Acima de tudo há uma disparidade entre o talento que ele tem e a falta de ego.

Sendo tão multifacetado, ainda assim há alguma área na qual ainda não tenha trabalhado, mas que gostasse de experimentar?

Não, já chega. Isto já me dá uma trabalheira. Sempre que começo a trabalhar numa das áreas sinto que estou péssimo nas outras.

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