Extremos e virtuosos

Os black midi são parte de uma nova geração de músicos para quem as fronteiras entre géneros não só já não existem, como a sua ausência os conduziu a um rol mais amplo de possibilidade sonoras e visuais.



Se em 2019, quando lançaram o seu primeiro álbum, “Schlagenheim”, os black midi assumiram, de forma um tanto ou quanto estereotipada, o epíteto de salvadores do rock, com “Cavalcade” os britânicos chegam a um novo ponto de ebulição e maturidade. No seu segundo álbum de estúdio encontramos novas texturas, mais próximas do rock progressivo e do jazz, não deixando de parte o som pesado e de extremos que os caracteriza.

Talvez por isso seja mais fácil afirmar que em “Cavalcade” existe uma ordem que impera sobre o caos e o frenesim, nomeadamente com “Marlene Dietrich” e “Diamond Stuff”. Já nos singles “John L” e “Slow”, o lado caótico mantém-se, o que se traduz em reconforto. Afinal, é neste equilíbrio que encaixamos os black midi, banda que veio de um lugar necessariamente adolescente (andam hoje na casa dos 21 anos), num exercício sonoro por vezes demasiado complexo e inqualificável, para um lugar que chega agora a um público mais vasto.

Prova disso é a evolução do próprio disco. Chegando a última faixa, “Ascending Forth”, percebe-se que há um amadurecimento da banda, desde logo na forma de cantar de Geordie Greep, hoje um vocalista mais coeso e substancial. Quando em 2018 começaram a ter lugar nas diferentes salas londrinas, rapidamente se percebeu a sua enorme capacidade criativa, mas o entusiasmo podia causar desconfiança. Três anos depois, as dúvidas dissolvem-se por fim.

Os black midi são parte de uma nova geração de músicos para quem as fronteiras entre géneros não só já não existem, como a sua ausência os conduziu a um rol mais amplo de possibilidade sonoras e visuais. Mais cerebrais na forma de composição, como se nota até nos instrumentos que escapam ao seu core e que aqui entram em cena, os black midi continuam a sua cavalgada, que, felizmente, podemos continuar a observar.

Cavalcade. De black midi (Rough Trade)

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos, Susana Bessa e Ricardo Ramos Gonçalves

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