“Euphoria”: o desespero, raso como o chão

Após dois anos e meio de intervalo, com dois episódios especiais pelo meio, os triângulos amorosos e os vícios voltam para dominar o quotidiano de Rue e Jules. Está aí a segunda temporada de “Euphoria”, um retrato ímpare polémico de uma geração. Às segundas-feiras, na HBO.



Desde o primeiro momento do episódio inaugural de “Euphoria” que o sabíamos: esta série de Sam Levinson é um retrato sombrio e amplificado da geração Z e dos seus vícios que não deixa de ter ecos numa realidade bastante palpável. Talvez por isso seja, desde a sua primeira temporada, lançada em 2019, polémica e alvo de debate e controvérsia.

Mas vamos ao que interessa. Ao fim de dois anos e meio, a série dramática de nuance niilista não deixou de ocupar o seu espaço na memória colectiva. Pelo contrário. O seu efeito estético, de ambiente urbano, periférico e depressivo, as suas personagens multiformes, com interpretações de destaque, e um enredo marcado pela violência e pela desconstrução de estereótipos e tabus compõem uma mistura de ingredientes apetecível.

É daqui que partimos para a nova temporada de “Euphoria”, composta por oito episódios de cerca de uma hora disponibilizados na plataforma de streaming da HBO Portugal semanalmente, desde a passada segunda-feira. E é sobretudo um regresso ao tema das drogas, que já estava presente na sua primeira temporada - aqui, porém, visto à lupa.

Depois de um final de temporada em que Rue, a protagonista interpretada por Zendaya, numa prestação que em 2020 lhe valeu um Emmy, sofre uma recaída no que ao consumo de drogas diz respeito, assistimos agora a outro estado dessa adicção. Raso como o chão, o desespero em virtude desse vício atinge um pico assinalável e, nesse aspecto, “Euphoria” foge de vez ao cânone das séries juvenis. O tema é sério e os 5% de hipóteses de se sair limpo dessa condição hão-de pairar sobre os episódios que se seguem.

De Rue fica também a conhecer-se um novo amigo: a ela e a Jules (Hunter Schafer), com quem já tinha desenvolvido uma relação íntima, vem juntar-se Elliot, interpretado pelo cantor Dominic Fike, que se estreia no mundo da representação. Os três formarão um triângulo amoroso que não é o único desta temporada.

Neste regresso, os criadores de “Euphoria” optaram por aprofundar as linhas a que já tinham dado forma e a relação entre pais e filhos continua marcada por tensões - que só mesmo o passado poderá clarificar. Mas o espaço da escola secundária deixa de ter a anterior importância e a acção passa-se muito mais nas ruas, ainda que venha a ser num sarau de fim de ano, em forma de peça de teatro, que todos os problemas voltam a ser expostos.

Num tempo em que tanto se exagera nos retratos geracionais, “Euphoria” demarca-se pela sua frescura, não deixando de ser intensa, crua, explícita e, por vezes, indigesta, sobretudo para um público mais sensível. Certo é que atraiu um outro tipo de espectador para a HBO, a quem porventura a história destas personagens sirva para alertar que são muitas as coisas na vida que têm consequências duradouras, algumas delas fatais.

$!“Euphoria”: o desespero, raso como o chão
Ler mais
PUB