Escapar para contar ao mundo o que se passava em Auschwitz

Rudolf Vrba tinha 19 anos e ainda se chamava Walter Rosenberg quando foi um dos primeiros judeus a fugir de Auschwitz. É o protagonista do livro “O Mestre da Fuga”, escrito por Jonathan Freedland.



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Rudolf tinha 19 anos quando deu o primeiro beijo a uma mulher. Chamava-se Alicia, era três anos mais velha e chegara, meses antes, a um lugar de que ele já conhecia todas as regras: Auschwitz. O eslovaco que ainda respondia pelo nome de Walter Rosenberg, mas que para os captores era só um número tatuado no braço, viria a fazer amor com a checa, alta, morena e “imensamente bonita”, no pequeno quarto que garantira graças ao estatuto de escrivão, na véspera de ela ser retirada do relativo conforto da parte do campo de extermínio nazi que existia para ser mostrada se a Cruz Vermelha Internacional exigisse ver o que se passava.

Rudolf Vrba sabia que a sua amada e todos os que a acompanhavam iriam morrer, meses mais tarde do que teria sido expectável e meses mais cedo do que os raros que iam sobrevivendo, por serem resistentes, ardilosos ou por terem a sorte de não se cruzarem com um guarda interessado em exercer o poder discricionário de matar um prisioneiro.

A esmagadora maioria dos recém-chegados a Auschwitz, aliviados pelo fim da longa viagem de comboio em vagões de gado sobrelotados, quase sempre cheios de mortos, eram encaminhados para as câmaras de gás. Rudolf sabia-o bem, pois chegara a trabalhar na rampa de desembarque, carregando bagagens para o sítio onde os nazis separavam o que tinha valor, desde jóias até vestuário, enquanto os donos iam para a morte de que não suspeitavam. “Os nazis tinham congeminado um método que funcionaria como um matadouro bem organizado”, lê-se no livro.

Obra do jornalista britânico Jonathan Freedland, fascinado por um dos dois primeiros judeus a escapar de Auschwitz, “O Mestre da Fuga” acompanha o seu protagonista pelo horror que viveu, das tentativas de escapar ao fascismo eslovaco até chegar ao local que passou a ser sinónimo do Holocausto. Graças a fontes documentais e a entrevistas às duas mulheres com quem viria a casar, atira o leitor para o terror organizado e dissimulado que matou mais um milhão e meio de judeus, mas também para a odisseia em que Rudolf e o seu amigo Fred não só enganaram os nazis como encontraram quem arriscasse a vida para os ajudar na fuga que chegou aos ouvidos de Heinrich Himmler.

Para o final do livro fica o mais importante: tudo o que fizeram para revelar ao mundo o que estava a acontecer em Auschwitz-Birkenau. Mesmo quando ninguém queria crer que fosse possível mas, ainda assim, contribuindo para salvar da morte 200 mil judeus.

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