Emancipação clandestina

Não é fácil assistir a “O Acontecimento”. Há uma dureza intrínseca à situação vivida por Annie, a protagonista, que encontra na clandestinidade uma saída. O risco é uma palavra que assenta bem a esta crónica de uma luta íntima, mas que vocifera para fora e em cada um de nós.



Não é fácil retratar um tema que ainda há menos de 20 anos era tabu e criminalizado na generalidade dos países europeus. Menos ainda quando em alguns deles, como também em certos estados norte-americanos, continuam a existir bloqueios legislativos. Mesmo que a realidade de “O Acontecimento” se passe na década de 1960, é também o presente que ressoa no novo filme da realizadora francesa de origem libanesa Audrey Diwan.

Nesta que é a sua segunda longa-metragem fala-se de aborto: retrata-se o drama de uma jovem adulta, Annie, que vive no dormitório da escola onde estuda literatura em Angoulême, no sudoeste francês, e que, depois de um encontro casual, descobre que está grávida.

A revelação surge como uma sentença de morte neste filme baseado no romance semibiográfico homónimo de Annie Ernaux. Com uma frieza incomum, passamos a acompanhar os dias e semanas deste evento aparentemente insolúvel que, na possibilidade de transformar radicalmente a vida de Annie, desmancharia as suas expectativas e paralisaria as suas ambições de continuar a estudar.

Passado em 1963, numa altura em que o aborto é proibido e criminalizado em França, a narrativa explora o dilema da jovem, determinada a pôr fim à gravidez. Quando, por exemplo, tenta colocar a questão ao médico que lhe confirma a gravidez, ele, em tom ameaçador, impede-a sequer de chegar a referir a palavra aborto - que, na verdade, nunca é pronunciada ao longo do filme.

A narrativa adensa-se à medida que as semanas passam: assistimos ao isolamento crescente da protagonista, brilhantemente interpretada por Anamaria Vartolomei, na sua busca por ajuda - tanto quando expõe às duas amigas a sua situação como quando viaja para se encontrar com o pai do bebé, que se escusa às suas responsabilidades.

Também por isso não é fácil assistir a “O Acontecimento”. Há uma dureza intrínseca à situação vivida por Annie, que encontra na clandestinidade uma saída. O risco é uma palavra que assenta bem a esta crónica de uma luta íntima, mas que vocifera para fora e em cada um de nós. Tanto é marcada pela angústia como pelo alívio, servindo, do princípio ao fim, como lembrete de uma luta que não está, seis décadas depois, completamente terminada.

O Acontecimento. De Audrey Diwan, com Anamaria Vartolomei, Kacey Mottet-Klein, Sandrine Bonnaire, Louise Orry-Diquero

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Markus Almeida, Pedro João Santos e Ricardo Ramos Gonçalves

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