Dez anos de tiras que já foram vistas por “uma pilha de gente”

O autor, Hugo van der Ding, descreve-se como “um homem que não sabe desenhar, mas por acaso até se safa a mandar umas bocas”.



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Quem não estiver familiarizado com o humor de Hugo van der Ding, autor de tiras de banda desenhada que nos últimos anos ganharam uma legião de fãs nas redes sociais, fica apresentado com aquela em que uma mulher abre a porta à EDP, “para fazer uma leitura”, e fica na presença de um funcionário que inicia a leitura do “Evangelho Segundo São Lucas”, nomeadamente a parte em que, “naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa”.

Como essa, as centenas de tiras reunidas em “O Lixo na Minha Cabeça”, agora editado pela Oficina do Livro, valem pelo humor inteligente, por vezes erudito e sempre extravagante de quem se descreve como “um homem que não sabe desenhar, mas por acaso até se safa a mandar umas bocas”. Nascido Hugo Sousa Tavares, adoptou o nome artístico após viver em Amesterdão, embora revele na biografia, patente na contracapa de um volume com quase 400 páginas, e que não resistiria ao mais ténue fact checking, que “recebeu o apelido de um de três holandeses que, pelas datas, poderiam ser o seu pai”.

Quem comprar a colectânea de dez anos de trabalho, faça ou não parte de “uma pilha de gente” que já viu todas ou quase todas as tiras, pode testemunhar como Hugo van der Ding eleva o trocadilho a toda uma arte. Seja quando o urânio enriquecido, à mesa de um restaurante fino, indica ao empregado para lhe trazer “duas garrafas de xatô láfite, ou lá como se chama aquela merda”. Ou quando a garantia “recuperámos a casa toda, mas mantivemos a traça” é reforçada pela aparição, em tamanho gigante, do insecto mais temido pelo guarda-roupa.

Como não poderia deixar de ser, “O Lixo na Minha Cabeça” também é percorrido pelas personagens que integram o elenco residente da imaginação do autor. É o caso da Dra. Messalina, horror em forma de gente do Serviço Nacional de Saúde - quando uma paciente lhe pergunta como é capaz de fumar enquanto atende uma grávida, limita-se a responder: “As grávidas já não me fazem impressão” -, tal como Madalena, “a farmacêutica que odeia pessoas doentes”, ou Juliana Saavedra, “a psicanalista que deixa os pacientes na merda”.

Bem vistas as coisas, se houver alguém que tenha fama de odiar profissionais de saúde e esteja prestes a ficar com mais tempo disponível para o lazer, poderá estar encontrado o presente ideal neste livro, dedicado pelo autor às muitas pessoas que têm passado pela sua vida. “Estão todas neste livro. Bom. Aquelas com quem só me deitei uma vez se calhar não estão”, ressalva Hugo van der Ding.

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