Desafio: ordenar seis homicídios espalhados por 100 páginas

O britânico Edward Powys Mathers foi um autor de quebra-cabeças que deixou “A Mandíbula de Caim” como legado literário.



TÓPICOS

Qualquer bibliófilo que tenha horror à ideia de escrever nos livros poderá ficar estarrecido ao constatar que cada uma das 100 páginas de “A Mandíbula de Caim” até tem um espaço reservado para os leitores tirarem notas. Mas a novela policial de 1934, agora editada em Portugal pela Lua de Papel, está longe de ser igual às demais. Nem que seja por oferecer um prémio de mil euros à primeira pessoa que resolva um enigma assaz intrincado: qual é a ordem correcta das páginas do livro e quem são as seis vítimas e os seis autores dos homicídios que vão aparecendo ao longo da narrativa?

Se o parágrafo acima parece confuso, dir-se-á que foi precisamente essa a intenção do autor do livro. Por detrás do seu pseudónimo Torquemada, Edward Powys Mathers, responsável pelas palavras cruzadas do jornal britânico The Observer, criou aquilo que pode ser descrito como um puzzle literário, com as páginas impressas e encadernadas fora de ordem, convidando o leitor a perceber o fio condutor, identificar todos os culpados e desvendar todos os mistérios. Garante a editora portuguesa de “A Mandíbula de Caim” - referência à primeira arma do crime de sempre, utilizada pelo primogénito de Adão e Eva para matar o irmão Abel - que, até hoje, apenas três charadistas conseguiram encontrar a única sequência correcta entre milhões de possibilidades.

Cada uma das 100 páginas, todas destacáveis, para facilitar a rearrumação da narrativa, tem passagens invariavelmente curtas, mas sempre repletas de pistas crípticas e jogos de palavras que foram muito bem transpostos para a língua de Camões (também referido) na tradução de Inês Fraga. Nem Sherlock Holmes é esquecido por Torquemada: “Eu investigara; mas quem iria acreditar num investigador que não tivesse saído de Baker Street? Eu era um juiz, mas sem bonezinho escuro nem maquinaria para tornar os meus julgamentos vigentes.”

Neste quebra-cabeças, que a editora adverte ser “extremamente difícil e desaconselhado a pessoas impressionáveis”, lê-se na página que surge como a primeira (embora possa tanto possa ser a 27.ª como a 99.ª): “Sento-me a sós à mesa indicada e pego na caneta para fornecer a quem de direito um relato preciso do que pode acontecer.” Já na última, em que uma mulher tem “a boca tingida de sangue sobre a pele sarapintada de uma beleza selvagem”, aparece: “Adeus, Henry. Cai...” Pelo meio, seis homicídios para investigar.

Ler mais