Dentro da baleia, somos todos cobaias de Carsten Höller

Recorre-se à luz em momentos de escuridão - uma realidade não vive sem a outra. Tal como a experiência humana na natureza é mediada por tempo e realidade. É essa experiência multissensorial que nos traz “Dia”, do alemão Carsten Höller, acabada de inaugurar no MAAT.



E se de repente alguém nos propusesse passar a noite dentro de um museu, tendo à disposição duas confortáveis camas, onde tudo o que está exposto pode ser experienciado em privacidade? Mais: e se além disso nos oferecessem uma escova e uma pasta de dentes feita com estratos de plantas, algumas delas ilegais? A proposta é singular e não só não existe apenas no campo das hipóteses, como acabou de se tornar real esta semana no MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, em Lisboa, no âmbito de “Dia”, a nova exposição do artista alemão Carsten Höller, patente até Fevereiro do próximo ano.

A obra em questão chama-se “Two Roaming Beds”, foi criada em 2015 e convida dois visitantes a passarem uma noite sozinhos dentro da exposição. Guiadas por um algoritmo e um sinal de GPS, as camas percorrem a exposição como um par de gémeos inquietos com insónias enquanto os participantes dormem, deixando traços vermelhos ou azuis que vão formando um desenho gigantesco.

À estadia nocturna (das 20h00 às 8h00 do dia seguinte) junta-se ainda um conjunto de pastas de dentes especiais que o artista fabricou a partir de uma receita própria. O maior tubo contém uma pasta dentífrica activadora que aumenta a capacidade de recordar sonhos. Os tubos mais pequenos contêm três substâncias que evocam sonhos relacionados com o mundo feminino, masculino e infantil. No total, a experiência custa 200 euros, excepto às sextas-feiras, em que o valor da entrada sobe para 300.

$!Carsten Höller durante a apresentação de “Dia”
( )

Não obstante essa ideia de imersão ser precisamente aquela que nos torna cobaias de Höller, a dormir numa cama concebida por ele ou não, há muito mais a dizer sobre “Dia”. Ainda antes de entrarmos no edifício do MAAT, que está a assinalar esta semana o seu 5.º aniversário, vislumbramos “Light Wall”, um painel de 1100 lâmpadas que piscam simultaneamente a uma frequência de 7,8 Hz. É, como diz Vicente Todolí, curador da exposição, “uma primeira resposta de Carsten ao edifício”, que se liga harmoniosamente à temática da energia que está, afinal, na génese da Fundação EDP. É também a abertura do compasso binário que dá esqueleto à exposição. A luz como resposta à escuridão que altera a nossa percepção de realidade está presente do início ao fim e, como diz Carsten à imprensa numa visita à exposição, traduz ambiguidade, a forma como ele percepciona o mundo.

Ao passo que a primeira obra é marcada por uma certa aceleração, dado o intenso piscar de luzes, já no interior do MAAT, envolta num ambiente escuro, encontra-se “Moving Image”. É a projecção lenta e caleidoscópica de Muhammad Ali a desferir o golpe final sobre o supostamente invencível campeão mundial de boxe, George Foreman. Entramos na baleia, como chama Carsten ao museu português, e somos “Jonas”, à espera de mais luz para irradiar caminho dentro desse organismo vivo em que se transformou o MAAT.

Uma disco de classes
E não é preciso muito para chegarmos ao ponto alto daquilo que “Dia” significa com “Lisbon Dots”, apresentada na Galeria Oval do MAAT. É também o início de uma verdadeira imersão feita de luzes, aberta à experiência individual. Neste caso, em forma de jogo de “recompensa e castigo”, existem inicialmente 14 pontos vermelhos, três azuis, dois verdes e um branco. Cada pessoa que entre naquele espaço recebe um foco com uma destas cores que passa também a segui-la.

O lugar da individualidade ganha então um sentido comunitário. As pessoas sobre as quais incide um ponto vermelho podem ascender ao nível azul (ao unirem-se com uma pessoa desta cor) e assim sucessivamente até que, todos juntos, poderão ascender ao nível branco. Se no princípio estamos numa verdadeira discoteca de classes coloridas, por fim estamos num lugar branco e sem status.

Subjacente a uma noção de hierarquia social, Carsten defende a ideia “de que todos nascemos num determinado contexto, mas podemos mudar e chegar a outro”. Numa sociedade que já no passado apelidou trabalhadores através de cores - caso dos chamados blue-collar workers - em “Lisbon Dots” chegamos ao lado mais horizontal da sociedade a que podemos ascender, ainda que as danças de luzes coloridas sejam o que nos convença à partida.

$!“Lisbon Dots” é uma obra site specific planeada de propósito para a exposição
( )

Sentidos sintonizados
No total, “Dia” apresenta mais de 20 peças do artista nascido em 1961, muitas delas recriadas especialmente para o MAAT, que, desprovido de qualquer estrutura de suporte ou qualquer sistema de iluminação integrado, passa a estar apenas iluminado pelas próprias obras. Sensorial e por diversas ocasiões interactiva, a exposição torna-se por isso um convite para cada espectador sintonizar os sentidos em função das luzes que as obras emanam para o espaço, mas o processo em curso é cognitivo e comportamental.

Ainda antes de enveredar pelo mundo artístico, já Carsten Höller tinha uma carreira como cientista na área da entomologia e da ecologia química. Os insectos são uma parte importante no seu percurso e também ali estão presentes em “Silverfish House”, um contentor com “peixinhos-de-prata” (lepismas, comummente conhecidas como traças-dos-livros) sobre um retroprojector, no qual podemos observar cada um destes pequenos organismos a esconder-se da luz que se liga. Por comparação, numa escala necessariamente maior, pode dizer-se que o MAAT será por estes dias um retroprojector gigante e nós, os organismos vivos que por ele deambulam.

Certo é também que, para se chegar à luz, é preciso passar-se primeiro por um denso corredor escuro. De “Lisbon Dots”, há um caminho de escuridão até se entrar numa sala preenchida por grandes estruturas de néones multicoloridos. São na verdade relógios que contam o tempo em feixes de luz, uma parede de tubos néon ou um veículo redondo, que poderia ser utilizado para rolar por uma encosta abaixo com uma pessoa no interior, o que faria com que as luzes do objecto fossem alimentadas pela energia gerada por esse movimento.

Vicente Todolí explica a este ponto que o que se pode ver nesta exposição monográfica, a terceira de Höller em que assume papel de curador, é a forma como o artista alemão “encara o museu como espaço de experimentação”, para testar hipóteses e conceitos.

Se há um corredor escuro, há também um corredor de luz que nos leva para um último conjunto de obras, das quais se recordará inevitavelmente “Infrared Room”. Em três projecções simultâneas, mostram-se imagens dos visitantes no espaço com diferentes graus de atraso, o que cria um efeito de loop dinâmico. À medida que o tempo passa, perde-se a noção absoluta sobre qual é na verdade a projecção real do movimento.

$!A obra “Decimal Clock” (2018), numa sala repleta de néones multicoloridos
( )

Luz e cheiro
Regressamos às palavras deixadas por Todolí no início da apresentação de “Dia”: “Com Carsten nunca há só um caminho, é sempre binário e dialéctico. Por isso, paradoxalmente, a exposição é sobre a luz dos trabalhos, mas também sobre a escuridão entre eles.” Em retrospectiva, e olhando para a carreira que construiu ao longo de 30 anos, Carsten Höller salienta como o lado sensorial da arte sempre lhe interessou, seja pela luz, seja pelo cheiro que não está presente em “Dia”, mas que já tinha deixado no passado em Lisboa.

A certa altura, alguém o recorda da obra de arte pública que fez para a capital portuguesa durante a Expo-98, ainda hoje instalada no Jardim dos Jacarandás, no Parque das Nações. Longe do aparato tecnológico, uma ilha verde composta por loureiros e medronheiros para uma verdadeira experiência olfactiva que, admite, não visita há muitos anos. Todolí, que desconhece a obra, diz a Höller que irão certamente passar por lá por estes dias. Será visita para outro dia, certamente. No MAAT, continuamos imersos nas luzes que nos remetem para a vida nocturna, que por estes dias também ressurge em Lisboa.

É provável que se termine “Dia” com uma sensação de náusea ou desorientação. Fomos afinal cobaias num laboratório feito de luzes, em diferentes intensidades e cores, que nos despertam os sentidos. As perguntas sucedem-se, sobre aquilo que este espaço de experimentação quer realmente dizer para Carsten Höller.

Por entre os muitos convidados e jornalistas nacionais e internacionais, alguém pergunta ao artista como classifica afinal as suas obras: “Esculturas? Instalações?” A resposta é elucidativa para aquilo que quer transmitir, deixando essa hipótese, uma vez mais, no lado de quem vai continuar imerso nas suas obras: “Well, it’s up to you.”

Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas a 8 de Outubro de 2021

$!Dentro da baleia, somos todos cobaias de Carsten Höller
Ler mais
PUB