De olhos postos na literatura árabe

Naguib Mahfouz, Muhammad Chukri, Ali Duaji
e Tayeb Salih são apenas alguns dos autores árabes traduzidos em Portugal nos últimos anos. Durante séculos quase desconhecida
fora do mundo islâmico, a literatura árabe vem ganhando um interesse crescente - apesar de, nas palavras do tradutor Badr Hassanien, a sua edição ainda se encontrar “limitada e marcada por uma visão orientalista e eurocêntrica”.



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Quando há pouco mais de cinco anos o editor da E-Primatur, Hugo Xavier, propôs ao tradutor Hugo Maia que fizesse uma nova tradução em português de “As Mil e Uma Noites”, nunca o também antropólogo imaginaria que estaria perante uma das obras mais forjadas da história da literatura mundial. E tudo por causa de um europeu. Até àquele momento, Hugo Maia tinha lido o clássico árabe mais conhecido da cultura ocidental numa tradução de Martim Velho Sotto Mayor feita a partir da edição francesa de Antoine Galland. O que veio a descobrir depois, conta ao NOVO num artigo que pode ser lido na íntegra na edição em papel desta semana, é que essa versão, usada como referência em diversos países europeus, continha contos inventados e partes acrescentadas.

O tradutor e reconhecido orientalista francês tinha integrado na sua versão da obra algumas histórias que escutou do contista sírio Hanna Diab, como, por exemplo, as de Aladino ou de Ali-Babá e os Quarenta Ladrões, apesar de as mesmas não constarem de nenhum manuscrito antigo de “As Mil e Uma Noites”. A tradução de Galland, que Maia diz tratar-se acima de tudo de uma “versão adaptada”, foi uma das razões que motivaram o tradutor português a enveredar por outro caminho.

Hugo Maia esteve vários anos a aprender a língua árabe padrão na Tunísia, o que lhe deu bagagem para aprender igualmente alguns dialectos, utilizados em contexto social. Foi pioneiro na tradução dos contos originais de “As Mil e Uma Noites”, tal como aparecem no manuscrito mais antigo que é conhecido, datado do século XIV e depositado na Biblioteca Nacional francesa. A maior parte dos escritores árabes contemporâneos escrevem no chamado árabe padrão ou literário, mas há variantes. Para traduzir directamente do árabe, é necessário ter um conhecimento abrangente de um e outras.

Actualmente, são vários os tradutores que por essa via têm feito chegar aos leitores diversas obras de autores árabes, muitas delas pela primeira vez. Desde as “As Mil e Uma Noites” (o primeiro volume foi publicado em 2017), Hugo Maia traduziu também para a E-Primatur “Périplo Pelos Bares do Mediterrâneo e Outras Histórias” (2020), de Ali Duaji, considerado um dos grandes renovadores da literatura árabe moderna, e “Pão Seco”, a autobiografia do escritor e romancista marroquino Muhammad Chukri, publicada já este ano pela Antígona. A estas obras juntam-se outras, traduzidas directamente do árabe: a E-Primatur acaba de lançar “Entre os Dois Palácios”, o primeiro livro da célebre “Trilogia do Cairo”, do Nobel egípcio Naguib Mahfouz, com tradução de Badr Hassanien, e uns anos antes, a Cavalo de Ferro editou “Época de Migração para Norte”, do escritor sudanês Tayeb Salih, com tradução de Raquel Carapinha.

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