Carlos Coutinho Vilhena: “O ideal é não magoarmos ninguém ou só quem devemos magoar”

Regressado à antena da Cidade FM, no “Toque da Saída”, programa diário de final de tarde que diz ser o mais próximo que já teve de “um trabalho a sério”, Carlos Coutinho Vilhena falou ao NOVO dos limites do humor, nomeadamente quando prepara versões alternativas para os espectáculos a que os pais vão. Já com mais de 100 mil seguidores no Facebook, Instagram e YouTube, o humorista de 29 anos habituou-se a plateias lotadas e quer agora atingir o grau de unanimidade de Herman José, Ricardo Araújo Pereira ou Bruno Nogueira.



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Qual é o nível de pressão de ter piada a uma hora certa?

É complicado quando as pessoas pagam bilhete. Às sete e um quarto tenho de ter graça, pois o espectáculo está marcado. Aí existe pressão, mas só na primeira vez. Se repetir as piadas que testei, há probabilidade de aquilo resultar. Há uns anos sentia mais porque ainda não vivia disto e tinha de pedir mesada aos pais. Como parece que as pessoas gostam de mim, vivo disto e é a minha área, não há muita pressão. Há mais no “como é que vou fazer rir”.

E na rádio, como é?

Também não sinto. Sou muito feliz aqui. Como tenho colegas que me ajudam muito, sei que se não estiver num dia muito inspirado, eles vão enquadrar-me para conseguir ter graça como as pessoas esperam que tenha.

É importante ter uma equipa que jogue de olhos fechados, como no futebol?

É fundamental o humorista falar para o público certo e é importante que, num painel de rádio, quem está com o humorista esteja na mesma frequência - porque uns podem gostar de humor de observação e outros de humor político, e, de repente, são três cabeças a falar de coisas diferentes. É importantíssimo estarmos sempre na mesma frequência com o público e com os colegas. Quando não estamos, geralmente nota-se.

Dá mau resultado?

Ou em audiências ou em frustração.

Recebe dados demográficos da sua audiência?

Nestes poucos meses, ainda só tive uma análise de audiências, e a minha prestação só contava 25%, porque as audiências de rádio são complicadas de medir - não é como na televisão. Dão os dados demográficos e o crescimento que tivemos. A Cidade é uma rádio com um target dos 16 aos 24 anos, especializada em Lisboa, Porto e outras cidades. Importa termos esses dados também para saber para quem falamos.

Isso pode ser uma prisão ou apenas um afinamento?

Permite ser mais profissional. Conseguir dizer a mesma coisa com uma linguagem mais abrangente, ao contrário do que faço muitas vezes na internet, por capricho, que é usar referências de Lisboa. Não acho mais limitador. Tornar o meu discurso mais abrangente é bom para a rádio e para mim, pois quem está a ouvir no carro não me conhece e basta alterar referências e adjectivos para perceberem logo a piada. Em vez de dizer Snob, digo Chimarrão, pois toda a gente sabe que é um rodízio brasileiro. Com a alteração de referência, de repente incluí Portugal inteiro.

Ter horário fixo é algo que faz com que ser humorista se torne um trabalho mais parecido com os outros?

É, mas dizer que tenho um horário de trabalho é hilariante. Chego aqui às seis e vou-me embora às oito. É o mais parecido que já tive com um trabalho a sério, mas não desgosto e não me sinto preso. Tinha esse medo, por acaso, mas não sinto.

Disse sobre si próprio: “Não sou famoso. Sou uma pessoa que faz o seu trabalho.” Isso aplica-se a quem tem mais de 100 mil seguidores em duas redes sociais?

Sim. O que é um famoso? A palavra é um bocado pedante e, assim, também me defendo. Dá-me uma humildade que não sei se tenho, mas que assim passa. Não sou alguém a quem reconheçam na rua por ter ido ao “Alta Definição” ou por me verem num anúncio. Não tenho muitas pessoas nos espectáculos, ao contrário do que acontece com actores de novela, em que dizem “aquele diz umas larachas”, vêem o cartaz numa paragem e compram bilhete. Acontece a quem é mais famoso do que eu. Há pessoas que gostam dos projectos que executo e vêm aos meus espectáculos. Se eu abrir mais - e chegar à rádio também é abrir-me a outros públicos - serei um bocado mais famoso do que agora, pois vai haver pessoas que conhecem a minha cara, mas não muito o trabalho. Posso estar enganado, mas esses 100 mil seguidores sabem mais ou menos o que faço: sou humorista, faço espectáculos e séries. Normalmente, em metade do ano faço espectáculos e, na outra metade, projectos.

A notoriedade será sempre uma arma?

Claro. Mas notoriedade é diferente de fama. Há quem tenha muita notoriedade mas não seja famoso no país inteiro. Acontece com músicos e humoristas. E há pessoas que têm muita notoriedade e fama, mas não têm um público fiel.

Quando se começa a perceber que existe um público fiel?

No meu caso, senti quando fiz uns vídeos para a internet, pus o espectáculo à venda na Ticketline para uma sala do Cinema São Jorge, com 100 lugares, e esgotaram muito rápido. Mais rápido do que alguém mais conhecido. Foi então que senti a existência do interesse. Porque é que as pessoas estão a sair de casa, quando estacionar na avenida é difícil, e pagam 12 euros para me verem? Depois, fomos subindo a fasquia de aumentar a lotação das salas, consoante as visualizações e o feedback das pessoas, e continuaram a ir aos espectáculos.

O ex-futebolista Fernando Gomes disse em tempos que marcar um golo era como ter um orgasmo. Ter uma plateia cheia à frente é algo parecido?

É uma sensação muito boa. Dura mais, mas não é uma coisa tão física...

Uma espécie de enlevo?

É uma pequena felicidade. Comparo mais à sensação de quando estamos muito tempo sem beber café e temos a euforia matinal. Ou quando, a seguir a fazer desporto, nos sentimos bem, ou nos primeiros copos de vinho. Uma sensação de euforia extrema. Acho que tem a ver com a serotonina.

Fazer parte de uma geração que contou com redes sociais e câmaras nos telemóveis foi uma felicidade?

Foi fundamental para certas carreiras serem mais independentes. Há maior liberdade e mais mérito, no sentido em que se produz conteúdos com menos. Há uns anos era complicado ter uma câmara e um computador para editar conteúdo. Tínhamos de ter isso tudo, chegar ao director de um canal e dizer-lhe “está aqui uma cassete”. Nem sei se em Portugal dava para fazer isso. Hoje tenho um iPhone e consigo competir com vídeos do Herman na RTP. Consigo fazê-lo porque sei filmar e editar. É mais justo, porque o público pode escolher. Claro que ter nascido em Lisboa é importante, mas mesmo noutra cidade basta ter internet, um computador para editar e um telemóvel para começar a ter público. Este boom de músicos e de humoristas, sobretudo de humoristas, não teria acontecido sem internet.

A audiência também está na internet...

Também dá para ter audiência nos canais mais convencionais, como a rádio e as televisões. Mas na internet não temos de pedir permissão a ninguém. Quando digo “vou publicar este vídeo”, não há recursos humanos, marketing ou CEO.

Quando se tornou claro que o humor poderia ser uma carreira?

Foi passados uns meses, ou talvez um ano, depois de começarmos a produzir conteúdos digitais. Já tínhamos um retorno financeiro que nos permitia ter um ordenado igual ou superior ao de amigos que tinham acabado a licenciatura ou o mestrado e estavam a trabalhar como gestores, advogados, economistas e contabilistas. Tínhamos um ordenado igual ou superior fazendo espectáculos à quinta e sexta-feira. E não tínhamos de pedir mesada aos pais. Pensei que era uma coisa temporária, e entretanto ia estudando, mas tornou-se algo lógico: se recebo e pago as minhas contas com o que estou a fazer, se calhar vivo disto.

Mesmo uma família menos receptiva à ideia ficaria sem argumentos...

A família demorou mais tempo. Começou a dar valor quando tive a minha cara ao lado de uma pessoa a quem reconhecem mérito e têm respeito: “Ele foi entrevistado na SIC Radical”, “ele está ao lado do Herman”, “há uma notícia sobre ele”, “se calhar, ele faz algumas coisas e não é só dinheiro para pagar gasóleo”...

Nunca serviram de público de teste?

Nunca tentei. Sempre tive vergonha. Claro que os meus pais foram ver muitos espectáculos, mas os amigos eram mais público de teste do que os pais e o resto da família.

Há coisas no seu humor que não queira mostrar aos pais?

Nunca me fizeram essa pergunta e há algum tempo que estava para falar disso. Conto muito histórias pessoais, e no dia em que os meus pais vão ao espectáculo altero pormenores mas, depois, não corre tão bem. E então o que é que faço agora? Quando estou a construir as piadas, que é uma coisa que demora até ficar bem e apresentar em grandes salas, por vezes, já parto do princípio de que, se os meus pais forem ao Coliseu, ao Campo Pequeno ou ao Tivoli, terei de alterar. E já construo de forma que possa ser um tio ou vizinho. Tenho essa censura, para não os fragilizar ou magoar. Porque não vale tudo.

O mal que o humor pode fazer a uma pessoa específica, ou a um grupo, é uma preocupação permanente?

Por vezes tem de ser, mas não pode condicionar muito, porque uma boa piada é só uma piada. Claro que as palavras têm valor, mas não são acções - há pessoas que acham que são, mas são só palavras. Em relação aos meus pais é por ser específico e pessoal. Ao desvendar algo estou a magoar aquela pessoa. Os meus pais, irmãos ou tios sentem-no se estou a contar uma história privada. Nunca me disseram nada, mas percebo que seja difícil. Se eu tivesse uma namorada humorista, nós acabássemos e ela fosse contar histórias sobre mim, obviamente que ficaria muito tenso. Em relação a grupos, quando é para atacar no geral não tenho tanto filtro. Não magoa tanto por não estar a falar de ninguém específico.

No passado era fácil fazer piadas sobre grupos étnicos e minorias sexuais.

Durante anos fizeram-se muitas piadas xenófobas, homofóbicas e racistas, o que, com a evolução natural dos tempos, os humoristas perceberam poder ser um facilitismo. Não tanto porque a piada está a magoar ou a perpetuar um preconceito, mas por ser pouco sofisticada. E acho que o público português já é bastante julgador. Sinto diferença desde que comecei. Chegar ao palco e ter um clichê básico não resulta em todos os públicos e, muitas vezes, ficam logo de pé atrás quando perpetuamos um preconceito sobre uma minoria quando não existe um raciocínio nada fresco ou novo sobre isso.

O humor tem de ser verdadeiro e convicto da parte do humorista?

Não tenho certezas sobre isso. Se estiver a contar histórias pessoais, nota-se se são reais, tal como se nota quando o ponto de partida não foi ter muita graça e só passar uma visão política, o que pode cair no moralismo e até no paternalismo. Ser humorista é fazer rir, que é uma coisa nobre e muito difícil, e esse deve ser sempre o ponto de partida.

E não ter medo de que apareçam mitras chateados por serem retratados enquanto mitras?

Há sempre esse medo. Não faço piadas com claques porque tenho medo de levar na corneta. Já houve histórias e não me apetece ser apertado. Também não sou um herói. Mas valorizo quem é: a malta do Charlie Hebdo, que esticou a corda, ou pessoas que fazem piadas com organizações extremistas que sabemos terem historial de confronto físico. Mas o meu humor ainda não foi muito para aí. Claro que já falei de mitras e de betos, de classes privilegiadas e baixas e de pessoas que estudam no Chapitô. E não tenho medo de o dizer porque isso me interessa e me faz rir. Nunca pensei: “Não vou fazer esta piada porque tenho medo que me apanhem na Almirante Reis ou me apanhem no Restelo.”

Não teme que lhe façam uma tentativa de cancelamento?

Nunca tive muito esse medo. Se calhar não tenho porque, como estou sempre a apalpar a bússola da sensibilidade e da sensatez, que está sempre a mudar, quando piso o risco, já vou confortável. Gosto de andar no limite, de pisar o risco, mas já sei que, se passar a linha, as pessoas não vão gostar.

No limite, a própria admissão de que se passou a linha pode ser humor.

E sem ser um pedido de desculpas. Não gosto muito dos pedidos de desculpas porque põem a classe em causa. Gosto de relativizar e dizer: “Olha, falhei. De facto, a piada foi básica.”

Existirá alguma piada pela qual valha a pena perder um amigo?

Nunca estive nesse contexto de ou é a piada ou o amigo.

Amigo talvez seja demasiado forte, mas algum conhecido.

Quando dizem a um humorista “não digas isto” ou “não fales deste tema”, nos espectáculos para empresas ou na rádio, existe uma vontade imensa de o dizer. E tem graça quando se diz. O exemplo perfeito foi o Bruno Nogueira, que chegou ao “Levanta-te e Ri” e fez uma piada com o Balsemão. Aquilo é memorável porque houve um miúdo a gozar com a pessoa que pagava aquilo tudo. Às vezes vale a pena passar essa linha. Em relação a um amigo, acho que preferia manter o amigo. Como não tenho medo de arranjar mais piadas, se aquela não se fizer, faz-se outra. Mas o amigo também é parvo se ficar chateado com a piada. Não tenho desses amigos. Se alguém estiver nessa situação, acabe com o amigo e faça a piada.

Tem uma gaveta das piadas esquecidas?

Tenho histórias que não resultaram e às vezes vou repescá-las, mais para o stand-up. Mas, à partida, fico com raiva daquela história e não volto.

Raiva quase física?

Canso-me, sinto-me básico, penso “isto aqui não resulta” e já não consigo tentar polir e melhorar aquilo.

Disse noutra entrevista que foi uma criança hiperactiva...

Ainda sou e tomo medicação para isso.

Contar piadas era uma forma de libertar energia?

Era só uma forma de me sentir especial por sete segundos. Pensava: “Estão-se a rir imenso com isto, a professora está-se a rir, os colegas estão-se a rir, os meus primos estão-se a rir.” Sou viciado em fugir da norma. Mas ser hiperactivo não passava por aí. Desde o 2.º ano, o meu psicólogo e a minha mãe avisavam os professores e directores de turma que, de meia em meia hora, eu tinha de dar duas voltas à escola a correr. A minha turma estava no rés-do-chão, de janelas abertas, e viravam-se para me verem a correr, todos a pensar: “Lá vai o maluco, com a auxiliar, a dar voltas à escola.” Depois chegava sempre a transpirar e, ainda por cima, era gordinho. Era um espectáculo dantesco e hilariante.

Quase todos os humoristas que têm 40 ou 50 anos cresceram com o sonho (que alguns concretizaram) de escrever para o Herman José. Quais são os sonhos de quem está no humor à beira dos 30?

Penso que já fiz quase tudo o queria. Claro que tenho muita coisa para fazer, mas mais em termos de magnitude e números: ir para salas maiores, chegar a um público mais abrangente, começar a alcançar pessoas de 50 e 60 anos com um formato mais transversal... O que aconteceu com o Herman José, o Ricardo Araújo Pereira e os Gato Fedorento ou o Bruno Nogueira é que Portugal inteiro olhou para eles e disse “todos achamos graça a isto”. Nunca mudaram o seu humor, sempre foram assim, mas, de repente, o país virou para a sua frequência. Se isso acontecer comigo, ficarei feliz, continuar aquilo que me faz rir e que me dá prazer criar, e ver que as pessoas todas gostam daquilo. Só isso. E gostava de ter mais meios.

Voltando atrás, como se lida com cadeiras vazias ou pessoas desinteressadas nos espectáculos?

Sou um bocado mimado nisso. A partir do ano e meio de carreira deixei de ter salas vazias. Soa mal, mas é assim: começámos a avançar só quando sabíamos que íamos esgotar. Mas cheguei a fazer stand-up para 12 pessoas que não foram para me ver. Foi em Portalegre, e estavam à espera do autor de “Como Vencer a Crise”. Eram 12 pessoas sentadas em círculo, tios e primos dele, para terem o livro assinado e ouvirem-no falar. E eu ia fazer piadas sobre o Lux e usar sapatinhos de vela, ali em Portalegre, para pessoas de 60 anos, na apresentação de “Como Vencer a Crise”... Tive de me sentar ao colo de uma senhora, buscar temas diferentes, falar do Mário Soares e do PREC, mas lembro-me de que os conquistei. É bom treinar esse músculo para ter traquejo de palco. Mas também é muito confortável chegar à fase em que posso fazer piadas com aquilo que me apetece, as pessoas riem-se e não tenho de me sentar ao colo de uma senhora de 70 anos. E estão a rir mil pessoas, e não os 12 à espera do “Como Vencer a Crise”. Mas, agora, sou melhor humorista por ter feito muitas salas dessas, e às vezes gosto de me pôr nessa situação. Estava para ir ao Altice Arena, onde fiz a abertura de um espectáculo do Bruno Nogueira, e quis experimentar as piadas num contexto mais difícil. Então, dois dias antes de actuar para três mil pessoas, fiz stand-up num restaurante de Setúbal, no aniversário da mulher do dono. Todos estavam sentados na mesa em U e ninguém se mexia - havia crianças em cima da mesa a pisar azeitonas -, todos embriagados quando entrei, 20 minutos depois da meia-noite, para dizer piadas das quais ninguém se riu. No Altice Arena resultou, mas teve graça experimentar, porque quando viravam a cabeça no restaurante pensei logo que teria palmas dois dias depois. Se pararam de comer pão ali, a piada teria graça lá. É bom ter esse barómetro.

Há uns meses, no Coliseu dos Recreios, Herman José subiu ao palco para falar com John Cleese, que pareceu genuinamente alarmado. Há algum ídolo pelo qual se imagine a fazer algo parecido?

Não. Tenho uma relação com os ídolos que não passa pela ideia de que não os quero conhecer, mas mesmo que saibam que sou um humorista português, em cinco minutos, 20 minutos ou até numa hora no camarim, nunca irei conseguir dizer-lhes nada. Às vezes vou actuar a uma câmara e dizem-me que o filho do presidente escreve umas piadas e pedem que dê umas dicas. Mas, em cinco minutos, não há nada que o menino diga que me possa fazer convidá-lo para escrever. Os meus grandes ídolos podem estar a passar aqui ao lado e eu quero é fingir que não existo - se algum dia nos cruzarmos em trabalho, melhor, porque irei aprender, mas não tenho essa necessidade de precisar de cinco minutos para dizer que gosto deles, pois acho que iria entrar por um ouvido e sair pelo outro.

Alguém poderia apresentar os Globos de Ouro de Portugal no registo em que Ricky Gervais apresentou durante anos os Globos de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood?

Nos últimos anos, não aconteceu, mas há espaço para isso. Tem é de haver vontade e uma ocasião em que resulte. Mas, como este país é tão pequeno, o humorista faz uma piada e pode estar com dois primos da pessoa ou, de repente, estar a trabalhar com ela. As pessoas têm medo de terem de se cruzar e limitam o tom. Porque Portugal é um país muito pequeno.

Sobretudo no meio artístico?

O meio artístico português é hilariante. Todos trabalham uns com os outros. Porque é que vou dizer que ele foi traído se vamos estar juntos na quinta-feira? Até pode ter muita graça mas, depois, é estranho. O Ricky Gervais não está com o Brad Pitt passados dois dias. Acho eu.

Tal como agora se exige às empresas, um humorista também tem de ter responsabilidade social, promover a diversidade e ser sustentável?

Entre os humoristas há muitos que fazem só piadas e não têm activismo mas, se calhar, podem doar 40% da fortuna em privado, e isso também é louvável. É bom que a certo momento tenhamos essa responsabilidade, o que quer dizer que temos alguma sensibilidade. Na minha humildade, acho que o humor não tem esse impacto. Aquilo de estarem todos a bater no Trump não resultou, tal como toda a gente bate no Chega e no André Ventura e isso não resulta.

Há quem diga que é contraproducente.

Não tenho opinião formada, mas o ponto de partida é ter graça. Se um humorista tiver grande impulso para melhorar o mundo, crie uma fundação ou um partido, como o Zelenski. Ele está a fazer qualquer coisa mas, quando se posiciona como político, não está a ser humorista. Temos de definir bem o nosso propósito. Os melhores humoristas fazem humor da forma mais pertinente, como ninguém fez, chegando a todos, e o ideal é não magoarmos ninguém ou só quem devemos magoar. Mas o ponto de partida é termos muita graça.

Fala-se muito de Cristiano Ronaldo já não fazer falta à selecção. Tem medo de que chegue o dia em que façam comentários impiedosos acerca de si enquanto humorista?

Temos todos muito medo disso.

Já aconteceu a alguns humoristas.

Não há nada mais estranho do que ver alguém que toda a gente percebe que está a perder o tacto, a sensibilidade e a acidez, e ele próprio não o percebe - muitas vezes, por razões financeiras e de ego. Todas as carreiras que respeitamos até ao último dia foram de pessoas que fizeram a gestão de imagem de forma muito eficaz, aparecendo e desaparecendo quando sentem estar em sobreexposição. Parece que ganhamos carinho por essa pessoa, pois existe mistério. Gosto da ideia de só aparecer quando tiver algo pertinente para dizer, pois sei que a idade e a frescura da pele não duram para sempre e as pessoas são implacáveis. É diferente um humorista pisar a corda antes dos 55 anos do que quando é um velhinho a fazer piadas ordinárias. Espero não só crescer com o público como ter a oportunidade e o privilégio de só aparecer quando quiser. Mas isso envolve ser financeiramente independente, poder dizer que sim a projectos que me apeteça fazer e não ter de aparecer para pagar contas. Se conseguir fazê-lo, espero não chegar a essa fase. Não sei se o Ronaldo já está aí, e não quero fazer essa comparação, mas todos temos medo de que as pessoas deixem de gostar de nós.

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