Buenos Aires é a constante nos versos do bisneto de português

Jorge Luis Borges tinha um bisavô oriundo de Torre de Moncorvo que se estabeleceu na Argentina.



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A capital da Argentina aparece no título de sete dos poemas reunidos em “Poesia Completa”, de Jorge Luis Borges, editada pela Quetzal, com a tradução do também poeta Fernando Pinto do Amaral. No entanto, abundam nas 600 páginas deste livro os versos em que marca presença Buenos Aires, de onde o autor de “História Universal da Infâmia”, “Ficções” e “O Aleph” era natural, ainda que tenha passado a juventude na Europa, nomeadamente em Genebra, regressando à cidade helvética, octogenário e desenganado, para passar os últimos dias.

Logo no arranque de “Fervor de Buenos Aires”, obra de 1923, da qual o Borges de 1969 admitia ter mitigado “excessos barrocos”, limado “rugosidades” e apagado ”lamechices e coisas vagas”, o argentino retornado pouco tempo antes à pátria e que, “naquele tempo, procurava os entardeceres, os arrabaldes e o infortúnio”, anuncia que “as ruas de Buenos Aires/ são já as minhas entranhas./ Não as ávidas ruas,/ incómodas pela turba e a azáfama,/ mas sim as ruas monótonas do bairro,/ quase invisíveis de tão habituais.”

Para esse jovem, que ainda não poderia adivinhar as glórias e fracassos de uma longa vida, observando que “mais vil do que um bordel,/ o talho rubrica a rua como uma afronta”, a sensação de pertença à sua terra era uma constante. “Esta cidade que julguei ser o meu passado/ é o meu futuro, o meu presente;/ os anos que vivi na Europa são ilusórios;/ estava sempre (e estarei) em Buenos Aires”.

No salto para a poesia do Borges sexagenário pode ler-se a evocação da ascendência lusitana de quem devia a sua existência a um bisavô oriundo de Torre de Moncorvo que se estabeleceu na Argentina. No poema “Os Borges”, o escritor faz uma admissão: “Nada ou bem pouco sei dos meus maiores/ Portugueses, os Borges: vaga gente/ Cumprindo em minha carne, obscuramente,/ Seus hábitos, rigores e temores.” Algo que não o impede de trazer à lembrança D. Sebastião (“o rei que no místico deserto se perdeu”) ou de dedicar outro poema “A Luís de Camões”, que “à nostálgica pátria regrediste”.

A caminho do final de “Poesia Completa”, quando o autodenominado “poeta menor de 1899” ultrapassara a barreira dos 80 anos, Jorge Luis Borges conta a quem o lê que “nasci noutra cidade que também se chamava Buenos Aires”, para concluir no desfilar das memórias que “nessa Buenos Aires, que me abandonou, eu seria um estranho”. Pois, como remata o poeta, “os únicos paraísos não proibidos ao homem são os paraísos perdidos”.

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