Beatriz Godinho: “Tento sempre apanhar os meus preconceitos na curva”

Ainda não foi a Havana, até porque a pandemia levou a que as gravações de “Cuba Libre” tivessem lugar em Cádis, mas Beatriz Godinho é a protagonista da série da RTP sobre Annie Silva Pais, a filha do director-geral da PIDE apaixonada pela Revolução Cubana. Para a actriz de 30 anos, tratou-se de um “projecto tão delicado e tão acarinhado” que confessa o “desejo secreto” de que as pessoas se consigam relacionar com a história que ainda hoje não acredita nunca ter ouvido dos familiares comunistas que combateram o Estado Novo.



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Já tinha ouvido falar de Annie Silva Pais antes de ser convidada a interpretá-la na série “Cuba Libre”?

Não, e isso surpreendeu-me, pois grande parte da minha família paterna esteve ligada ao PCP, mesmo antes do 25 de Abril, e cresci a ouvir muitas histórias desse período. Quando recebi o pedido de casting chateei-me com alguns. [risos] Como é que nunca me tinham contado esta história? Também é verdade que, na altura, interessava ao regime que fosse abafada, pois o major Silva Pais era a segunda figura do Estado. Não interessava muito que a história se disseminasse, o que é compreensível.

Qual foi a primeira impressão com que ficou dessa filha do director-geral da PIDE que se apaixonou pela Revolução Cubana?

Apaixonei-me pela história dela desde o primeiro momento. E lendo o incrível trabalho de investigação de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz sobre a vida da Annie, penso que se vai percebendo logo desde o início que a vontade de sair dos padrões expectáveis já existia para ela quase desde sempre. Enquanto jovem adulta, a Annie também tinha uma admiração muito grande pela Brigitte Bardot, ela própria uma figura de rebeldia e de emancipação feminina que não deixava de ter a sua sensualidade, mas estava disposta a sair das caixinhas da mulher frágil e bem-comportada. Essa vontade de se libertar e de construir o seu caminho sempre existiu e foi tomando diferentes formas à medida que ela ia conhecendo o mundo, diferentes circunstâncias e diferentes pessoas. Isso é apaixonante, pois faz logo adivinhar que vai ser uma vida cheia de procura, um caminho completo e complexo.

O que lhe pediram no casting para esta personagem?

Eram cinco cenas grandes, em três línguas diferentes. A primeira cena da série fazia parte do conjunto. Sou do Porto, e na minha terra chama-se “ter pêlo na venta” a essa atitude de ser uma pessoa consciente do sítio onde está, mas que tenta sempre namorar os limites daquilo que pode dizer e das barreiras que pode ir ultrapassando. A relação com a mãe também foi muito trabalhada logo à partida, pois eram duas mulheres com códigos de valores completamente diferentes e em conflito. E o lado passional da Annie, no que toca à figura do “Che” Guevara, que ela chegou mesmo a conhecer. Eram cinco cenas grandes e, como o Henrique [Oliveira, realizador e criador de “Cuba Libre”] estava a trabalhar no argumento há 20 anos, eram cenas complexas, com muitas subtilezas, quase um microrretrato desta figura, que foi desafiante desde o início - mas, uma vez mais, os desafios activam o interesse e o fascínio. Sem que conhecesse a história, pois só tive oportunidade de ler o livro depois de fazer a primeira fase de casting, só com aquele universo pequeno de cinco cenas conseguia-se traçar logo uma linha de personalidade da personagem.

Além de ler “A Filha Rebelde”, que outro tipo de preparação fez para se inteirar daquela época histórica, da qual não se fala muito?

Houve um mapeamento de contexto histórico que me esforcei por fazer. Aliás, a série vai do final dos anos 50 até 1990. Passamos pela Revolução Cubana, pela crise dos mísseis, pelo nosso 25 de Abril e, logo a seguir, pelo 25 de Novembro, que também afectou directamente a vida da Annie. Foi muito importante, mas também adorei pesquisar notícias da altura e procurar material que activasse outros sentidos. No que toca às músicas da altura, tenho o grande gosto de ter amigos muito mais velhos e pude falar com eles, e focar-me nos interesses da Annie, como a cultura francesa.

Muito valorizada entre a burguesia portuguesa da altura...

Também foi um foco de pesquisa, tal como me esforcei por estudar a figura de “Che” Guevara. Aliás, encontrei uma edição que é um auto-retrato dele, com entradas do diário ao longo de bastantes anos. Tentei inteirar-me sobre as figuras de referência para a Annie. Foi uma boa forma de fazer a revisão da história de Portugal e do mundo nestas décadas.

Intriga-a que ela tenha sido uma mulher que tentou por todos os meios escapar a uma ditadura que existia em Portugal e que a seguir se apaixonou por uma ditadura que existia noutro país?

A mim parece-me que a vontade inicial dela era fugir à prisão que conhecia. Na realidade, tinha já fascínio pelos ideais da Revolução Cubana, mas foi lá parar por acaso, pois o marido dela, um diplomata suíço, foi lá colocado. E como a Annie era uma pessoa muito passional e muito movida por emoções, penso que, inicialmente, o fascínio dela foi pela envolvência de Havana. Tivemos o gosto de ter imensos actores cubanos na produção e foi fácil perceber o quão fascinante é partilhar tempo com aquelas pessoas. Têm imensa energia e luminosidade, bem como uma alegria muito efervescente de estarem vivos. Acredito que, primordialmente, tenha sido isso que a moveu, e a meio misturou-se a ideologia política, mas em conversa com a Lia Gama, que na série faz de minha avó e que conheceu pessoalmente a Annie - foi maravilhoso conversarmos sobre isso -, fiquei a saber que, apesar de quando voltou a Portugal ela ter vindo para trabalhar na Quinta Divisão, e ser uma ávida crente nos ideais comunistas, já tinha consciência das suas falácias. Mesmo num período mais tardio da sua vida há relatos de amigos a dizer que ela, depois da morte de “Che” Guevara, começou a questionar muitas atitudes do Fidel Castro. O que a movia, essencialmente, eram as relações humanas. Teve várias relações ao longo da vida, mas nunca constituiu família. Casou, teve uma longa relação com o ministro do Interior de Cuba, mas vivia muito a comunidade de Havana. Foi professora de Português de imensas pessoas. Por opção, pois não era o seu trabalho. Ao longo da vida foi-se apegando aos ideais da comunidade e afastando-se das atitudes do partido e do governo cubano.

Ficou com pena por Cádis ter de servir de Havana nas gravações?

De maneira alguma, e explico-lhe porquê: foi uma surpresa e um daqueles males que vieram por bem. Devido à pandemia, era muito difícil ir gravar a Havana, mas quando chegámos a Cádis com todos aqueles colegas cubanos, a reacção deles foi tão genuína que fiquei descansada. Chegámos, passámos logo pelo Malecón [passeio marítimo] e eles começaram logo a fazer videochamadas com as famílias para mostrarem as ruas. Havana tem muitas semelhanças arquitectónicas com Cádis, pois essa cópia foi feita propositadamente. Muitos deles diziam “sinto-me em casa”, e para nós foi melhor, pois a Havana de hoje não é a Havana dos anos 60. Está muito mais degradada, enquanto Cádis, por estar mais preservada, consegue transportar-nos para a Havana dessa época. E ficava a apenas 600 quilómetros de distância da nossa base de produção. [risos]

Antes ou depois de gravar “Cuba Libre” chegou a ir a Havana alguma vez?

Ainda não. Tenho essa vontade há muitos anos. Admito que eu própria tive uma fase da minha adolescência em que pesquisei muito a figura do “Che” Guevara, e queria lá ir. Mas, depois, comecei a vida profissional de actriz. A relação que tenho com a minha agenda é sempre de amor-ódio. Adoro que esteja superpreenchida, porque isso quer dizer que estou a fazer aquilo de que gosto, mas, ao mesmo tempo, dá-me menos liberdade para fazer viagens maiores. Quero muito lá ir e vou tentar ainda este ano. Se calhar, agora vai ter um gosto diferente, até porque posso ir ter com muitos dos colegas que estiveram a trabalhar connosco.

Teve de imediato noção de que iria ser a protagonista da série?

O casting que me foi apresentado foi para ser protagonista. Sendo muito honesta - como dizê-lo sem parecer pretensiosa? -, há traços que eu intuitivamente sentia que percebia na Annie. Não sei porquê. A questão de ela ser um poço de contradições, por exemplo. É algo que cresci a ouvir da minha família: eu queria ser bailarina clássica mas, ao mesmo tempo, sou apaixonada por motos, por desporto e tudo o mais. Havia uma pressa de viver um pouco ignorante ou inocente da minha parte. Percebi um motor qualquer da Annie e fiquei com muita vontade de fazer o trabalho. Quando passei para a segunda fase do casting, com uma viagem ao Porto para falar com o realizador, claro que tudo começou a ficar mais palpável. Aquilo que mais gosto de fazer na minha profissão tem mesmo a ver com este mergulho de criar universos. Às vezes leva-se com desilusões, mas faz parte e aprende-se com elas. No momento em que passei à segunda fase decidi que ia começar a trabalhar, que ia começar a pesquisar. Adoro isso e ganho coisas ao fazê-lo. Se corresse mal, iria ter de fazer um luto que me iria custar, mas prefiro assim. Então comecei logo a trabalhar, o que também acabou por beneficiar o processo de casting. Criei uma cumplicidade de pensamento muito próxima com o Henrique e não lhe poderia estar mais grata.

Sendo protagonista, existiu também uma forte carga de trabalho, devido à percentagem de cenas que foi preciso fazer...

Trabalho como actriz profissional desde 2010, maioritariamente em teatro até há quatro anos. Fiz algumas produções de televisão e de cinema, mas nada com esta dimensão de trabalho propriamente dito.

Protagonizar uma série é como estar no palco quase em permanência?

É isso. Como sou muito fã de estudo e de preparação - o teatro deu-me essa disciplina, e o ballet clássico também -, preparo o meu estojo de material, vejo que está ali tudo e depois vou usar para jogarmos uns com os outros. Essa foi uma das preocupações do Henrique. Ele próprio foi e é atleta, e quando eu lhe disse que também tinha sido, ele respondeu: “Então, os níveis de disciplina devem estar controlados.” Foi muito honesto comigo e disse que era um enorme volume de trabalho e que, durante quase quatro meses, a minha vida iria ser aquilo. Tinha de ter disciplina, aliada a uma dose de salto de fé. Era capaz de começar o dia com quatro horas de caracterização para a Annie de 54 anos, com cancro, e depois voltávamos aos 20 anos e saltávamos para os 30. Houve um trabalho quase de filigrana para não perder a especificidade desta viagem ao dar esses saltos, mas, mesmo nisso, fizemos um trabalho de preparação muito disciplinado e específico para não nos perdermos na história. A vida da Annie é muito cheia, mas é preciso ir crescendo com ela. O desenvolvimento intelectual e emocional da personagem tinha de ser justo a cada passo. E essa era sempre uma prioridade. Tive um mês e pouco de preparação com o Henrique antes da gravação, e penso que fez toda a diferença.

Annie Silva Pais era uma filha de pais incómodos, cada qual pela sua razão. E, para si, como foi “ser filha” de Adriano Luz e Margarida Marinho?

Tanto um como o outro tiveram o engenho e a generosidade de serem companheiros e mestres em igual medida. Sempre estiveram prontos a ajudar-me, com a experiência de largos anos que têm, mas nunca foram condescendentes comigo. E é muito difícil chegar a esse equilíbrio de mestre e companheiro. Foi maravilhoso, porque confiava neles plenamente, e permitiam-me jogar estas relações e cenas de igual para igual com eles.

Sendo mestres da protagonista.

Mas a colocarem-se numa relação sempre horizontal comigo. É de uma generosidade e de uma humildade de quem é mesmo apaixonado por aquilo que faz e quer o melhor para o resultado final. Sempre me apoiaram e encheram de confiança, ao mesmo tempo que me mantinham alerta. E também levavam em consideração visões contrastantes que tínhamos das relações entre as nossas personagens. A Annie tem uma relação muito específica com a mãe e outra muito específica e completamente diferente com o pai, e construímos essa relação em conjunto quer em ensaios, quer mesmo durante a gravação.

Como foi a sensação de, nestes dias que antecederam a estreia do primeiro episódio de “Cuba Libre”, não poder sair à rua sem ver o seu rosto em cartazes publicitários? Deve ter sido estranho.

Admito que sabia que iria haver cartazes na semana de apresentação da grelha da RTP, mas não sabia exactamente quando. Ainda hoje tento fingir que sou atleta e estava a ir, muito ensonada, para o ginásio, com pouca gente na rua, porque ainda era muito cedo, quando me deparei com os cartazes. Como é que hei-de explicar?... De repente senti os pés na cabeça e pensei: “Isto está mesmo a acontecer.” Não tenho filhos, mas falei com a minha mãe de uma sensação que me parece semelhante àquela quando os filhos já estão criados e vão sair de casa. É uma alegria muito grande mas, ao mesmo tempo, há medo e ansiedade. O “Cuba Libre” foi um projecto tão delicado e tão acarinhado que apetece dizer-lhe: “Tem cuidado a atravessar as passadeiras!” [risos] Tento não pensar em como os projectos vão ser recebidos, até porque sou uma grande crente em que ao actor compete-lhe ser sincero, e o resto logo se vê. Mas não posso negar o desejo de que as pessoas consigam relacionar-se com a série de alguma forma. É o meu desejo secreto.

Antes da representação dedicou-se ao ballet clássico. Com que idade começou?

Não me lembro muito bem, pois comecei completamente contrariada. A minha mãe achou que era boa ideia, mas eu não queria. Na altura, já andava na natação e dizia que gostava era de fazer desporto. Só por volta da pré-adolescência ou já na adolescência é que comecei a interessar-me por uma possível carreira de bailarina clássica. A partir dos 13 ou 14 anos dediquei-me ao ensino vocacional, sempre em paralelo com o ensino obrigatório, e depois, no secundário, estudei na Academia Contemporânea do Espectáculo. Pensava que já tinha uma formação técnica muito forte em ballet clássico, queria ir estudar para Londres, mas, se calhar, era capaz de ir buscar mais uns skills: o teatro dava-me jeito, e também tinha uma vertente de dança contemporânea.

Nunca tentaram contrariá-la por conciliar dança de rua com ballet clássico?

A minha família em geral, e os meus pais também, sempre me deram a liberdade de perseguir as minhas curiosidades, fazendo sempre a menção de que a liberdade vinha com responsabilidade. E sempre me considerei uma pessoa responsável. Era boa aluna e genuinamente interessada, mas não havia mais nenhum artista na minha família. A minha bisavó, que também se chamava Beatriz - sou Beatriz por causa dela -, era poetisa e chegou a editar alguns livros, mas não vivia disso. A minha família está repleta de economistas e engenheiros. E eu também adorava números, matemática, física... Foram apanhados um bocado de surpresa quando, no 10.º ano, decidi que era a dança e que ia experimentar teatro.

Reagiram bem?

Assustaram-se. Sempre tive o apoio incondicional do meu avô materno, que é uma pessoa com muita experiência e que, se calhar, percebia que mais vale seguir as coisas que nos fazem mais sentido na vida. Quanto aos meus pais, não é que não aceitassem, mas preocuparam-se e tentaram, na altura, que seguisse um caminho um pouco mais seguro: ciências, que eu adorava. Mas eu sempre fui... não uma pessoa do contra - a minha família é que tem a mania de dizer que sou do contra. Sempre gostei muito de pensar “e se for assim?”, “e se eu for por aqui?” e “posso sempre voltar atrás e moldar-me”. Nisso, desresponsabilizo-me, porque o culpado foi o meu avô, que sempre me apoiou a tentar descobrir o mundo pela minha perspectiva. Quanto a esse lado que os fazia estar preocupados, porque não é fácil ser artista em Portugal - e em nenhum sítio do mundo, se calhar -, numa preocupação genuína por quererem que a filha tivesse uma vida confortável, hoje em dia estão mais tranquilos, porque também já perceberam que até sou resiliente.

Presumo que, tendo sido também atleta federada, passou ao lado de estereótipos associados a bailarinas, como distúrbios alimentares ou concentração excessiva no ballet?

Afastei-me do ballet clássico porque tive uma lesão no joelho esquerdo que ainda hoje me diz quando vai chover no dia seguinte. [risos] Foi outro mal que veio por bem. Fisicamente falando, não sou particularmente dotada para o ballet clássico, mas trabalhava muito e era muito disciplinada. E o que acaba por acontecer é que se perde o contacto com o mundo exterior, porque as horas que durmo são importantes, o exercício que faço é importante, tudo aquilo que como é importante. Essa lesão devolveu-me uma mundivisão mais abrangente que me fez apaixonar pelo teatro. Recuperei uma comunicação mais abrangente com o mundo e que me interessou mais. É muito fácil cair em obsessões quando a própria fórmula basal do ballet clássico não é sequer anatómica. Surgiu de desenhos num papel.

Não são movimentos naturais...

O certo é que se pode criar uma visão em túnel que pode resultar numa vida menos preenchida.

Daquilo que aprendeu no bailado, o que passou para a representação?

A disciplina, e também... eu era uma grande fã do [bailarino russo Mikhail] Baryshnikov quando era mais nova. E lembro-me que ele dizia muitas vezes que o ballet clássico tem fama de ser muito competitivo, mas não lhe fazia sentido competir a não ser com ele próprio. Isso foi uma coisa que tive de aprender com o ballet clássico pois, tecnicamente, tinha de trabalhar quase o dobro do que algumas colegas que estavam ao meu lado e eram geneticamente mais dotadas. Isso ensinou-me a encontrar caminhos individuais para chegar aos meus fins, muito estruturados numa ideia de disciplina e de passo a passo. Tenho sempre um objectivo final, que é um farol, mas está longe. Olho de vez em quando e digo: “Estás aí ainda.” Mas há uma estrutura de passo a passo e de objectivos rotineiros que eu sinto ser muito útil para o meu trabalho de actriz. E muitas produções teatrais que faço também têm uma componente física muito forte. Já tive o gosto de trabalhar com o Miguel Moreira, o João Garcia Miguel, o Tiago Vieira. É um registo mais próximo do teatro físico.

Do seu currículo consta uma formação em stage combat...

Oh, yeah! [risos] Infelizmente, tenho de renovar a minha licença, porque caducou há dois ou três anos, mas já estou a tratar disso. Também temos bons profissionais de stage combat em Portugal. E também já fiz artes marciais, o que é bastante útil. No que toca à Annie - e tento fazer isto na construção das minhas personagens -, não há registos em vídeo, tanto quanto eu saiba, mas há fotografias. Tentei mimar a forma como ela cruzava os braços e pôr aquele corpo em movimento. O corpo também nos dá mensagens sobre como construir a pessoa. Mas há muita coisa em que nem sequer penso e as pessoas é que me dizem “nota-se que foste bailarina”.

Quando lhe aparecem convites como o de entrar na série “O Clube”, toda a exposição física que é evidente que vai acontecer nas cenas entra na equação de aceitar ou não o trabalho?

A primeira coisa que entra na equação é a pertinência do projecto. E digo isto num sentido subjectivo, porque há projectos que podem ser superpertinentes e eu, simplesmente, não ter ainda a capacidade de o perceber. Mas se houver algo que faz sentido ser falado, e eu sentir que tenho alguma coisa a acrescentar... Acontece haver projectos pelos quais me apaixono mas, depois, sinto que não tenho nada a acrescentar. E, às vezes, é melhor para ambas as partes seguirmos caminhos diferentes.

Quase dizer “conheço uma pessoa que seria perfeita para isto”?

Sim. No que toca a “O Clube”, eu não vejo aquilo como exposição física. É utilizar o meu corpo como mais um veículo de comunicação. Já fiz trabalhos mais próximos da dança com nu integral em palco, e para mim, desde que não seja gratuito e seja um meio que acrescenta alguma coisa, é muito mais simples do que algumas cenas cujo registo emocional é muito frágil e vulnerável. Essas cenas são capazes de me assustar mais do que a questão de utilizar o meu corpo, com nus parciais ou mesmo totais, se for um veículo pertinente para chegar a uma ideia. Não me incomoda e nem sequer perco muito tempo a pensar nisso. Muito importante é a comunicação muito honesta e clara com as pessoas com quem estou a trabalhar, sejam colegas de elenco, seja a equipa. Estando isso salvaguardado, para mim, nunca foi uma questão.

Um actor ou uma actriz pode dar-se ao luxo de recusar projectos em Portugal neste momento?

Às vezes. Sinto que já fiz alguns trabalhos pura e simplesmente porque tenho uma renda para pagar e dei-me ao luxo - aqui agradeço aos meus pais, que trabalham com números e me passaram essa disciplina desde sempre - de fazer alguns saltos de fé. Penso “vou fazer este trabalho e depois vou tentar gerir a minha vida o máximo possível para ficar à espera de outro trabalho em que sinta que posso acrescentar alguma coisa”. A verdade é que, efectivamente, os actores, muitas vezes, têm de trabalhar muito para conseguirem fazer uma vida minimamente digna, mas desgastam-se. Por vezes, isso é-nos mais claro e evidente num atleta, que tem a época de competição e depois tem o descanso. Os actores, muitas vezes, não têm esse espaço porque, como não é um suporte físico, é mais difícil conceber que existe um desgaste efectivo e que há alturas em que a criatividade precisa do ócio ou até do tédio para poder voltar a ficar cheia e produtiva. Infelizmente, isso, às vezes, não é possível. É preciso fazer uma gestão estratégica. Eu já fiz essa gestão e correu-me bem, mas também já fiz essa mesma gestão e pensei, “meu Deus, arregaça as mangas, porque estas contas faziam sentido, mas agora tenho de dar corda aos sapatinhos”.

Por outro lado, há sempre convites irrecusáveis...

Claro. Aí entra a parte da loucura de cortar nas horas de sono. No primeiro semestre deste ano cometi algumas dessas loucuras, pois surgiram-me alguns convites novos. Enquanto seres humanos, somos muito passíveis de termos preconceitos de que, muitas vezes, nem sequer temos consciência. E eu tento sempre apanhar os meus preconceitos na curva. Sei que os tenho, mas gosto de os colocar em causa. E surgiram-me neste semestre projectos em que posso ter uma ideia de fora completamente diferente das ideias que vêm de dentro. Fiz coisas completamente diferentes: entrei num projecto de teatro, participei num projecto televisivo de novela, fiz uma longa-metragem e uma performance e ainda alguns pequenos trabalhos aqui e ali. Foi uma loucura em termos de resistência física mas, para mim, eram convites irrecusáveis, uns pelo interesse que tinha em trabalhar aquelas temáticas e outros por serem novidade - e que, por isso, vão acrescentar-me coisas, e não sei quando é que aquilo iria voltar a acontecer. Mais vale agarrar. Sou mais adepta de ir pensando a andar do que de me sentar para pensar. Tenho uma amiga que costuma dizer: “Mesmo quando é para chorar, chora a andar.” Acho que essa é uma imagem muito bonita.

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