As visões do clássico dantesco que Botticelli revisitou

No século XV Botticelli produziu uma série de ilustrações para uma edição de “A Divina Comédia”. Duas delas viajam pela primeira vez até Lisboa, para a exposição “Visões de Dante”, que inaugura esta sexta-feira.



O vermelho desponta numa sala improvisada do museu para acolher a exposição em que a Gulbenkian exibe pela primeira vez em Portugal dois desenhos de Sandro Botticelli alusivos aos cantos XII e XIII do “Inferno” de “A Divina Comédia”. Viajaram para Lisboa da Biblioteca Apostólica Vaticana. “É um processo de revelação”, diz-nos o curador João Carvalho Dias, apontando para um dos desenhos. Ali vemos Dante acompanhado do poeta Virgílio, descendo ao encontro dos centauros, à beira de um rio de sangue repleto de danados submersos conforme a gravidade do pecado cometido. “São os violentos com o próximo guardados pelos centauros, prontos a alvejar quem tenta sair.”

Ao lado, o outro desenho revela uma floresta espinhosa, lugar dos “violentos contra si próprios”. Explica João Carvalho Dias: “O suicídio, temática central desta ilustração, é punido pela perseguição de cães ferozes e das harpias. É referente ao episódio de Pier della Vigna, que, falsamente acusado por um crime e preso, comete suicídio.” São dois de uma série de 92 desenhos que o pintor italiano produziu no século XV para uma edição de “A Divina Comédia” que nunca chegou a ser terminada. Sete dessas ilustrações fazem actualmente parte do espólio do Vaticano; as restantes estão à guarda do Museu de Gravuras e Desenhos de Berlim.

Em “Visões de Dante. O Inferno segundo Botticelli”, que o Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, abre ao público esta sexta-feira, entramos no universo profundamente imagético de Dante, que tem motivado um diálogo artístico presente até hoje. O arco temporal entre obras e os artistas que ali se apresentam são prova disso mesmo. Além dos desenhos de Botticelli, são apresentadas ainda várias edições da obra do autor, comentadas por figuras como Boccaccio ou Iacopo della Lana, assim como um dos mais antigos exemplares de “A Divina Comédia”, proveniente da Biblioteca Nacional, outrora propriedade do pároco português Frei Manuel do Cenáculo. Mas o salto temporal não termina.

Presente está ainda a obra “A Eterna Primavera”, de Auguste Rodin, que retrata a paixão entre Paolo Malatesta e Francesca de Rímini, retratada no Canto IV do “Inferno”, seguida por uma escultura e um conjunto de desenhos de Rui Chafes, da série “Inferno (a minha fraqueza é muito forte)”, a completar a mostra. Sobre a incursão do artista português pelo universo de Dante, o curador explica tratar-se de “um conjunto de desenhos que são, na verdade, um desenho em expansão, com referência escrita, em cada página, a Botticelli, que está sempre presente.”

O título encara a carga imagética presente na obra do autor. “Há em Dante uma visão anterior à própria escrita, como se a escrita fosse uma sequência da visão”, diz o curador, que não deixa de salientar a sua intemporalidade: “é por isso que é um clássico, porque é válido para todos os tempos”. Acrescenta ainda: “A Divina Comédia é uma obra em contínuo, porque remete para uma viagem que qualquer pessoa faz ao interior de si mesma. De alguma forma, reconhecemo-nos sempre nessa viagem que não termina enquanto existirem homens. É também por isso que ela tem ganhado múltiplas possibilidades de representação, seja literária ou plástica”.

Em programação paralela, decorrerá igualmente um conjunto de conferências em que participam, entre outros, José Tolentino Mendonça, comissário do programa internacional “Dias de Dante”, no qual se integra a exposição, e Alberto Manguel.

Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas a 24 de Setembro de 2021

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