Ângelo Rodrigues: “Tinha um iPad com posições do Kama Sutra para escolhermos”

Ângelo Rodrigues, de 35 anos, é um nome em foco com a participação na série brasileira da Netflix “Olhar Indiscreto”. O actor conta como foi ter uma coordenadora de cenas íntimas e revela que deseja ser presença mais assídua no cinema, apesar de considerar que os portugueses não gostam do cinema nacional. Diz estar viciado no desconforto e que agora vive de forma diferente, após o acidente de 2019.



“Olhar Indiscreto”, em que é um dos protagonistas, está a ser um sucesso no universo Netflix. Estava à espera disso?

Não estava à espera que tivesse uma projecção internacional tão grande e uma receptividade tão estrondosa. Prefiro nivelar as expectativas por baixo e tudo o que vem depois é um acréscimo. Tinha as expectativas junto ao chão, só contemplando Portugal e Brasil porque a série é falada em português. Mais do que isso é bónus. Tudo o que está a acontecer tem sido uma grande novidade e uma maravilha.

Começaram a gravar em 2021 mas, quando terminaram, tinham a noção de que podia estar ali uma série que pudesse entrar nos melhores rankings?

Estávamos seguros de que tínhamos uma história altamente intrincada, uma intriga bem feita, e, aí, tudo começa sempre com um roteiro, com o guião, e quando eu o tive nas mãos não conseguia parar de ler porque os ganchos narrativos aconteciam bastante rápido. Sabíamos que tínhamos um possível diamante. Agora dependeria só da forma como o iríamos polir.

Na série é Heitor, um empresário que se demora a entender se é um vilão...

Se eu disser, vou fazer spoiler. Acho que é preferível as pessoas verem porque todas as personagens aparentam ser uma coisa que, à partida, não são. O Heitor não é diferente. Há ali umas surpresas que só no final é que temos algumas respostas.

Como se deu a oportunidade de entrar em “Olhar Indiscreto”?

Surgiu em Maio de 2021, tinha acabado a minha décima cirurgia. No dia em que cheguei do hospital recebi uma mensagem do meu agente brasileiro a dizer que tinha um casting para uma série. Não me disse qual seria o meio, disse que era para uma emissora. E que eu tinha 48 horas para entregar quatro cenas através de uma self-tape. Deveria gravá-la no meu quarto, só que as minhas condições físicas não eram as melhores: não conseguia andar, estava com duas muletas. Coloquei a câmara estrategicamente em partes do quarto para que não se percebesse que não conseguia andar e enviei as cenas. No dia seguinte mandei uma mensagem extensa ao meu agente a dizer que não tinha ficado nada confortável com o casting porque o tinha feito em português do Brasil, e eu já não estava há alguns meses no Brasil. Portanto, o cantar brasileiro já estava bem distante. Então pedi ao meu agente para daí em diante fazer sempre duas das self-tapes; uma em português de Portugal, porque me sinto na plenitude das minhas capacidades, e outra em português do Brasil. E assim foi. No dia seguinte, ele liga-me a dizer que a coordenadora tinha adorado o meu casting, mas que faltava uma última resposta da emissora - ainda não sabia que era Netflix. Eles pediram-me porque fizeram uma pesquisa e encontraram algumas notícias em Portugal sobre o meu estado de saúde. Como a realizadora tinha gostado do casting, pediram-me, uma vez que a série ia ter algumas cenas íntimas de exposição, para enviar uma foto da minha cicatriz e um vídeo a correr. Eu não tinha forma de o fazer porque estava com a perna ligada e uma máquina de vácuo ligada à minha perna e com duas muletas. Não tinha forma de conseguir tirar e mandar material de jeito. Então fui ao rolo da minha câmara e encontrei uma foto de oito meses antes, que se via assim meio enviesado a minha cicatriz, que não comprometia. E pensei, já tenho a foto. Segunda parte: como arranjo um vídeo a correr? Fui a um documentário que a SIC tinha feito sobre a minha recuperação e peguei em 30 segundos do final, onde aparecia a correr. Fiquei com o casting, fiquei com o papel. E o meu agente diz-me que era para a Netflix, o que me encheu de orgulho, mas a história não fica por aí. Infelizmente, depois aconteceu uma tragédia: a minha mãe da ficção, a Maria João Abreu, faleceu. E quando fui ao velório, ainda estava de muletas.

Há fotos disso.

Exactamente, fui fotografado com muletas e essas fotos chegaram ao Brasil. No dia a seguir tinha novamente o meu agente a ligar a dizer que eles estavam confusos porque queriam saber o meu estado de saúde. Para acabar com as dúvidas, queriam que eu fizesse um vídeo em casa a dar saltinhos e a dizer que estava tudo bem para a câmara. E assim fiz: coloquei um tripé na minha sala, dei uns passinhos atrás, respirei fundo, baixei as muletas, dei uns saltinhos e digo “está tudo bem”, a levantar os polegares. E foi assim que fiquei com o papel.

Contracena com Débora Nascimento e Emanuelle Araújo. Esta série é abordada com um olhar feminino...

Esse era o objectivo da Netflix. A ideia era contar o prazer a partir do olhar feminino e foi isso que aconteceu. Tínhamos uma equipa predominantemente feminina, desde a escrita à realização e até dentro do próprio set - câmara, directora de fotografia, directora de arte, operadores de som, tudo mulheres, para se contar o prazer a partir do olhar feminino. E foi a primeira vez que me aconteceu uma coisa dessas. Como tínhamos algumas cenas de intimidade...

Tiveram um coordenador de cenas íntimas. Isso não é uma coisa normal.

Não, isso foi a primeira vez que aconteceu no Brasil, a mando da Netflix americana. Tudo surgiu há três ou quatro anos com o movimento Me Too, que relatava abusos e o ambiente tóxico nas gravações. E, para prevenir esse tipo de abusos, a Netflix, aquando de uma produção internacional que tinha cenas com um teor mais erótico, designou um coordenador de intimidade. Nós tivemos a Barbara Harrington, uma preparadora de actores renomada que já trabalhou com a Penélope Cruz. E a Netflix contratou-a para dar formação em intimidade. Tivemos um acompanhamento na pré-produção porque era vital termos afinidade, quebrar o gelo.

Que formação dá aos actores um coordenador de cenas íntimas?

Passa, primeiro, por estudar as permissões de cada um, conversar abertamente sobre os limites de cada actor, perceber que esses limites não são imutáveis. Colocar isso em palavras e falar abertamente das coisas foi o primeiro passo; depois fizemos alguns exercícios frente a frente em que verbalizávamos as permissões, ou seja, o lugar onde a actriz pode tocar, onde o actor pode tocar, feito muito na base da confiança. Isso permitiu uma relação muito horizontal dentro do elenco e direcção: todos os actores e actrizes participavam activa e criativamente no desenho das cenas. Isso fez com que as cenas de intimidade fossem preparadas com muito cuidado não só nestas permissões, mas também no desenho da cena, na escolha das posições sexuais que íamos fazer. Essa foi uma parte engraçada porque, de repente, estava numa sala a preparar um ensaio de intimidade e tinha ali um manancial de mulheres à minha frente com um iPad na mão, com posições do Kama Sutra para nós escolhermos, e lembro-me de a Luciana Oliveira, a coordenadora, perguntar: “Então, Ângelo, o que é que você acha?” E eu só me lembro de pensar: “O que é que eu acho? É o que vocês quiserem, que eu ainda por cima estou a ser pago para fazer isto.”

Essa coordenação íntima foi um plus?

Completamente. Foi muito importante termos a coordenação presente no projecto e também a preparação do laboratório que fizemos. Contactámos e verbalizámos coisas com que nos laboratórios que eu fiz na vida não tinha contactado ainda: conceitos como um que a nossa preparadora de elenco trouxe chamado after care, que consiste num acompanhamento ao actor pós-cenas limite. Tínhamos várias cenas de intimidade, seria normal que o corpo respondesse biologicamente. Então, verbalizar isso desde o início e estabelecer os limites de cada um era bastante importante. E o after care veio precisamente para atenuar os possíveis estragos que pudessem acontecer depois de uma cena de intimidade - as cenas eram longas, não havia cortes. Para que o actor e a actriz ficassem bem cientes da fronteira entre o trabalho de actor e a pessoa era feito um acompanhamento depois das cenas durante praticamente uma semana, com uma pessoa a ligar-nos a perguntar como estávamos, para ver se conseguíamos separar bem as coisas do trabalho.

Esta série tem uma forte componente erótica. Foi uma das chaves do sucesso para estar no top-10?

Está no top-10 de 57 países. Foi uma ajuda, mas a série não vive escrava disso. Tem um bom argumento, que é isso que prende o espectador, mas, obviamente, a parte dita mais erótica também acaba por piscar o olho ao público. Acredito que também seja uma das razões do sucesso.

Tinha feito no passado duas séries brasileiras, “As Canalhas” e “(Des)encontros”. De que forma isso o ajudou? Com o sotaque?

A personagem que eu fiz no “(Des)encontros” para a Sony latino-americana era em português de Portugal. Mas ajudou-me num outro sentido. Aliás, foi o link perfeito para esta série. O director de casting que me escolheu para fazer essa série em 2018, em São Paulo, lembrou-se de mim para me chamar para o casting de “Olhar Indiscreto”. Se não tivesse feito “(Des)encontros”, não teria conhecido o Luciano Baldan, a pessoa que me chamou para o casting três anos depois.

Assim que soube da sua escolha começou a fazer algum tipo de exercício para falar em português do Brasil?

Uma das primeiras preocupações que tive foi contratar uma fonoaudióloga. Os primeiros ensaios foram feitos através de Zoom, estávamos num contexto pandémico ainda, e eu estava em Portugal, a tratar do meu visto de trabalho. Portanto, os primeiros ensaios foram feitos através daquelas janelinhas de Zoom. E esse foi o primeiro encontro que tive com a fonoaudióloga, a Thays Vaiano. Fizemos o primeiro encontro online e a formação começou quando cheguei a São Paulo. Devo dizer que isto foi tratado exclusivamente por mim, não era uma coisa proporcionada pela produção. Fui eu que quis fazer este trabalho para ser o mais verosímil possível. Então comecei a frequentar um lugar chamado Centro de Estudos da Voz, onde existem vários gabinetes com fonoaudiólogas, dependendo do trabalho que se queira fazer. Então, a Thays ajudou-me no início. Eu encontrava-me com ela apenas para ler os guiões, para ela me ir ouvindo, para dar dicas, mas, a partir do momento em que começámos as gravações, a nossa relação passou a ser apenas de uma vez por semana - portanto, através do Zoom. Todos os dias, quando chegava a casa, tinha um método de trabalho. Depois das 12 horas de gravações, memorizava o texto para o dia seguinte. Gravava cada cena num clipe de voz e mandava para a fonoaudióloga por volta da meia-noite. Se ela estivesse acordada, respondia. Senão, só quando eu acordasse, às cinco horas, é que esperava as alterações dela. Tive esse processo diário durante quatro meses.

O streaming tem aberto uma janela de oportunidade aos actores portugueses. É uma forma de expandir o talento nacional ao nível da interpretação?

Com certeza. Acho que já está obsoleta a ideia de o actor ir para os Estados Unidos, para Los Angeles, trabalhar num restaurante durante anos à espera de conhecer um produtor cinematográfico que lhe dê uma oportunidade de vingar no cinema. Sempre cresci com esta narrativa e até a persegui durante muitos anos. Felizmente, apareceu o streaming, que acabou por democratizar o acesso a produções de todos os países porque, simplesmente, o facto de haver séries em línguas tão diferentes, o facto de todas elas levarem legendas fez com que o utilizador ficasse mais habituado a ouvir outras línguas. É caso da “Casa de Papel”, em espanhol, ou do “Squid Game”, em coreano. Já existe uma maior receptividade das pessoas a ouvirem outras línguas. Acredito que isso faz parte também do sucesso do “Olhar Indiscreto”. É normal que, agora, conseguir um trabalho numa produção internacional esteja mais atingível para um actor português, porque não tem necessariamente de falar outra língua. E, no trabalho de actor, não há nada tão bom como nos expressarmos na língua mãe. Mesmo um sotaque, que foi o meu caso, mas, pior ainda, uma outra língua... representar numa outra língua ou num outro sotaque é representar com um colete de forças.

É algo que preferia evitar?

Preferencialmente. Se eu conseguir representar no meu português de Portugal, óptimo, estou nas minhas capacidades máximas, mas o desafio é esse também, abraçar outros idiomas. Quero fazê-lo no futuro, obviamente.

De preferência em inglês?

Pode ser inglês, espanhol, francês ou coreano. Porque não?

Esta participação no “Olhar Indiscreto” pode levar a que tenha uma carreira mais activa no Brasil e/ou na Netflix? Ou pode funcionar como uma porta que se abre para actores portugueses?

É uma total incógnita. É como nadar no desconhecido. Não faço a mínima ideia do que poderá acontecer, mas estou aqui para abraçar qualquer oportunidade que surja. Seja um trabalho em Portugal, no Brasil ou noutro país, estarei de braços abertos para esse projecto desde que me desafie profissionalmente. Se puder ser uma porta para outros actores vingarem no Brasil, óptimo.

Já fez várias novelas desde que se estreou em 2006 com “Doce Fugitiva”. A última que fez foi “A Serra”, transmitida no ano passado. As novelas ainda estão na sua agenda?

Na altura, depois da última novela, achei que precisava de fazer uma pausa. Não fecho a porta, obviamente, a qualquer novela que possa aparecer desde que me desafie profissionalmente, e nem foi intencional. Quando parei fui agraciado com duas óptimas oportunidades: uma delas foi a série da Netflix e outra foi um filme que haverá de se estrear.

“Cherchez la Femme”.

Exactamente. Vai estrear-se no primeiro semestre deste ano.

Neste momento da carreira dá preferência a que formato: cinema, novela, série, teatro...?

Gostaria de ser uma presença mais assídua no cinema porque é difícil fazer cinema em Portugal. Há sempre pouco dinheiro, vivemos sempre na sombra de uma crise que sempre existiu e sempre existirá. É difícil também furar os compadrios que existem. E essa é uma luta para o futuro. Adoraria fazer mais cinema em Portugal e acho que temos cartas para jogar em qualquer parte do mundo.

Quando fala de compadrios, isso significa que são sempre os mesmos a fazer cinema em Portugal?

Não quero dizer isso porque, senão, vai fazer disto título. Da mesma forma que uma equipa de futebol, quando está a ganhar, apostamos na mesma equipa, isso acontece em vários meios e o cinema não é diferente. Eu próprio acredito que faria o mesmo. Se fizesse um filme que fosse bastante prazeroso de fazer com um grupo de pessoas, eu quero trabalhar novamente com elas. É difícil conseguir furar. Há coisas que já estão estabelecidas, grupos que já estão estabelecidos, mas acredito que há uma nova vaga de realizadores que quer muito fazer coisas diferentes e espero estar incluído nessa nova vaga.

É possível aproveitar a fome de cultura na fase pós-pandémica?

Espero que sim. Principalmente se a pandemia servisse para obrigar as pessoas a irem ao cinema ver filmes portugueses. Porque os portugueses não gostam de cinema português. E essa é a nossa grande luta e da nova vaga de realizadores que existe: demonstrar às pessoas que o cinema português pode ser múltiplo, pode ser várias coisas, pode ser de autor, pode ser comercial, pode contar várias histórias que encaixem em vários contextos. Como acontece com o cinema francês, que faz muito bem essa distinção e conseguiu, ao longo dos anos, dar uma boa oferta de cinema, do dito mais erudito ou de autor a propostas mais comerciais e mainstream, porque há um movimento de cinema. O cinema tem de caminhar num colectivo, não é cada um para seu lado. E em Portugal, historicamente, no cinema, cada um rema para o seu lado. E enquanto não houver essa união, enquanto não conseguirmos anular o preconceito que temos em relação a algumas produções que se fazem, o público não se sentirá motivado a ir ao cinema.

O preconceito é do público em relação ao próprio cinema. Mas como se consegue mudar isso? Com propostas mais mainstream, mais comerciais?

Também.

Também há pouco dinheiro para a cultura, como mostrou o último Orçamento do Estado (OE)...

Certo, mas isso é uma realidade de que nós, que somos de um país pequeno, sempre nos queixámos. Não podemos viver para sempre à sombra da crise e dos baixos orçamentos. É uma característica com a qual temos de lidar. E quem faz cinema sabe que o faz para perder dinheiro, infelizmente. Mas como mudar isso? Com bons investidores? Mas os bons investidores vão perder dinheiro.

E os bons investidores querem ter retorno.

Certo. Quem põe dinheiro quer pelo menos reaver o dinheiro investido. Só com o Estado. A mudança de alento do público em relação ao cinema português só se consegue com mais dinheiro dado pelo Estado através dos OE... para conseguirmos ir buscar um público que está de costas voltadas.

Não falando do compadrio, porque receia que utilize essa palavra para título, se calhar podiam diversificar-se as oportunidades a mais pessoas.

Diversificando a oferta, sim, esse é o caminho.

Como está a carreira como músico depois de, em 2012, ter lançado “Angel-O” e, em 2019, divulgado quatro singles?

Confortavelmente adormecida na gaveta da minha mesa de cabeceira. Digamos que tenho tido outros assuntos mais urgentes. Planeio voltar, porque é uma coisa que faço com prazer e com nenhum objectivo de alcançar outros voos. Quando tiver tempo e achar que é o timing certo, voltarei. [Mostra notas no telemóvel.] Tenho um hábito desde adolescente que é fazer notas. Antes eram escritas. Continuo até ao dia de hoje a apontar rimas. Mesmo que não se traduza em músicas, gosto bastante de escrever.

Vamos a 2019, aquele que foi, segundo as suas palavras, o melhor ano da sua vida e que coincidiu com o internamento devido a uma infecção na perna. Foi-lhe dada uma segunda oportunidade para viver?

Completamente, por isso é que considero que foi o melhor ano da minha vida. Porque foi preciso quase tirarem-me a vida para conseguir viver a segunda com outro olhar.

Esteve em coma, teve uma paragem cardíaca, entretanto fez 12 cirurgias... como se lida com isto aos 35 anos?

Com muita paciência e anestesia geral. E muitos comprimidos para as dores.

Sente que a sua carreira pode não ser a mesma devido ao que se passou?

Nunca reflecti sobre isso, mas não vejo porque poderia prejudicar. Porque acha que poderia prejudicar?

Pelo exemplo que deu há pouco das self-tapes que enviou para o casting do “Olhar Indiscreto”, em que teve de mandar vídeos antigos.

Mas deu certo. Até agora tem dado certo.

Mas isso passou-lhe pela cabeça?

Não, nunca me passou pela cabeça.

Além de uma segunda vida, o que ganhou com esse período complicado?

Passei a encarar as coisas com uma outra velocidade. Via tudo muito rápido. Sabe aquelas passadeiras que existem nos ginásios, em que uma pessoa está a correr constantemente? Se, de repente, pararmos a máquina e formos para o chão, sentimos que estamos a ser levados. É um pouco uma metáfora para o que acontece no Ocidente. Nós estamos a pagar as contas, a trabalhar para pagar uma renda, a contar o dinheiro para ver se chega milagrosamente até ao final do mês. E para quê? O que realmente importa? Estamos nesta roda viva que é incessante, a galopar sem fim, quando, daqui a 50 anos, vamos estar todos mortos. Portanto, ajudou-me na clarividência o acidente que tive, ajudou-me com a máxima do latim memento mori, a lembrança de que somos mortais. Ao lembrar-me constantemente de que sou mortal e ao vislumbrar toda a gente à minha volta como estou a olhar para si e a pensar, exactamente como lhe disse, que daqui a 50 anos você está morto, isso ajuda-me a aproveitar melhor este momento. E, como vivemos em tempos líquidos - a sociedade líquida é um termo explorado por Zygmunt Bauman, filósofo polaco que pressupõe o mundo como um bloco sólido que está a derreter aos poucos... Isso é uma metáfora também para os nossos valores. Com o advento das redes sociais e a pressa que a tecnologia nos incute, tudo está a tornar-se demasiado rápido. Posso dizer que o acidente ajudou-me a colocar as coisas no devido lugar, a perceber a importância da tecnologia e da nossa presença digital - enquanto actor falo - e a parte pessoal de entender a importância das conexões reais e perceber que não estamos aqui para sempre.

Esteve internado porquê?

Revelei-o num documentário chamado “Toda a História”, que a SIC fez sobre a minha recuperação. Foi uma reposição hormonal que correu mal, diria acupunctura auto-infligida que correu mal. Isso levou-me às portas da morte e a quatro dias de coma de que, felizmente, consegui recuperar.

Surgiram notícias de que tinha estado internado devido ao uso de esteróides.

Não, não teve nada a ver com anabolizantes, teve a ver com uma terapia de reposição hormonal que fiz - nada a ver com a componente estética, mas por questões de saúde mesmo.

Esteve em Moçambique em 2017 a dar aulas de teatro e agora esteve no Nepal a ensinar inglês em regime de voluntariado e depois, mais tarde, no Camboja. No fundo, ser professor é algo que o atrai?

O meu pai é professor, a minha tia é professora, sempre me habituei a assistir às aulas deles. Ainda por cima, a minha tia, além de professora de expressão dramática, é actriz. Sempre bebi muito da carreira dela, de tudo o que ela ia fazendo. Tinha bons exemplos em casa. Então, não há nada que me dê maior prazer do que viajar pelo mundo e poder pôr em prática um pouco da minha formação profissional e comunicar com outra cultura.

Estamos a falar de oportunidades que partiram da sua iniciativa?

Sim, sou eu que vou à procura delas, não há ninguém que me convide.

É aquela ideia de ser altruísta, de ser mais solidário?

Entendo que começa por aí, sim, mas essa é só a resposta até à página dois.

E a partir da página três?

Tenho uma grande vontade de conhecer a complexidade do ser humano e de compreender a natureza humana. E isso passa por fazer voluntariado em África ou na Ásia, estar durante muito tempo num sítio com pessoas muito diferentes de mim. Procuro fazê-lo fora da Europa e sempre em ambientes em que estou num total desconforto. É como se estivesse viciado nessa sensação de desconforto, um pouco por causa da teoria dos contrastes, que é uma teoria oriental. Nós precisamos de passar pelos opostos para, no meio, encontrar a consciência. Isso aconteceu na minha vida em 2019, quando passei por um extremo, uma experiência de quase morte que me obrigou a olhar para a vida de outra forma. Foi uma situação de desconforto extremo mas, ao mesmo tempo, faço isso em todas as viagens que faço: atirar-me para o desconforto, porque sei que o que advém daí são óptimos ensinamentos. Quais? Primeiro, a velocidade do mundo, que é completamente diferente nos lugares onde vou. A ausência de competitividade é algo que enche o meu coração, porque não há nada que me destrua a confiança, ou o querer viver num país ou numa sociedade mais capitalista, como a competição. A vida é demasiado curta para ser pequena e para competirmos. Se nós todos saíssemos de casa com uma vela na mão, bastava isso, uma vela na mão... eu saía com uma vela na mão, saía com uma vela na mão. A minha está acesa e, se eu passasse por si e, por acaso, a sua vela estivesse apagada, eu aproximava a minha vela e fazia da sua chama uma chama maior. E esta troca é o que eu procuro. Porque estamos fora de competição, eu quero o melhor do outro e espero o mesmo do outro para comigo. É uma ideia talvez inocente de fraternidade que procuro nas minhas viagens e como forma de viver.

Hoje encara a morte de uma forma muito mais simples?

Sim, completamente. Séneca era um filósofo que dizia “viver é aprender a morrer”. Eu precisei de praticamente morrer para aprender a viver. Acho que antes não sabia viver ou vivia segundo outros valores, e acho que agora estou a começar a aprender a viver. Só ambiciono a tranquilidade da minha alma e buscar essa imperturbabilidade. Mais do que isso, trabalhos que possam aparecer, trabalhos da Netflix que possam aparecer... óptimo, são só bónus. O essencial é conquistar essa paz interior.

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