Ana Sofia Martins: “Espero continuar a ter sede e fome de viver”

Começou a carreira como modelo e aos 16 anos já se tinha mudado sozinha para Nova Iorque, para trabalhar. Em 20 anos de carreira, Ana Sofia Martins juntou à bagagem a apresentação e a representação e integra agora o elenco da série internacional “Devils”, cuja estreia em Portugal está prevista para o início de Maio, na HBO. Em conversa com o NOVO na Galeria Francisco Fino, em Lisboa, falou sobre a constante procura por mais, os preconceitos, a que chama “barulho de fundo”, e a importância da saúde mental, que ainda é, segundo pensa, desvalorizada.



Iniciou a sua carreira profissional como modelo, ainda muito nova. Como é que isso aconteceu?

Foi a típica história que vemos nos filmes, de uma maria-rapaz que não tem nada a ver com aquele mundo. Fui scouted na rua. Ia a passear com umas amigas e um carro com uns modelos que tinham ido fazer um casting, no Restelo, parou e abordou-nos. Eu era muito gozona, continuo a ser, e comecei a meter-me com eles. Até que um me deu um cartão e disse que eu tinha as características físicas para ser modelo. Fiquei muito surpreendida. Uma maria-rapaz a ouvir isto...

Nunca tinha pensado que podia acontecer?

Era completamente fora de tudo o que tinha imaginado. Guardei o cartão em casa, mas nunca liguei muito ao assunto. Passados uns meses, quando a minha família teve uns problemas financeiros, pensei: “Bem, se calhar, isto é a altura para ir ver como é isto dos modelos.” E nunca mais saí.

Acabou por se mudar para Nova Iorque com 16 anos. Como foram os primeiros tempos?

Veio uma scouter a Portugal, à minha agência, que vinha buscar modelos portugueses, e chamou-me. Gostava de me ver e queria conhecer-me. Foi ela que me levou para lá. Senti logo uma ligação muito grande à cidade, às pessoas, e senti que pertencia ali. Por isso é que fiquei tantos anos. E foram anos maravilhosos em que trabalhei muito, fiz muitos trabalhos comerciais. Continuo a achar que a minha vida, mesmo agora, neste lado da representação, ainda vai voltar a passar por lá.

Sentiu-se sozinha?

Tive momentos em que me senti um bocadinho sozinha, porque era muito ligada ao meu irmão, continuo a ser. Sentia falta dele e dos meus amigos. Mas sou muito sociável, rapidamente fiz outros amigos. Não arranjei foi outro irmão. [risos] Mas nunca me senti assustada com nada que acontecesse lá. Até porque isto foi pós-11 de Setembro e Nova Iorque era das cidades mais seguras do mundo. Era uma aventura. Imagine o que é estar, aos 16 anos, numa cidade como aquela, sem ninguém a controlar. Quer dizer, eu tinha uma agente que, por acaso, era um bocadinho controladora. Mas ainda bem que era, porque eu era destravada. Mas acho que vivi um sonho e que só agora é que tenho noção disso.

Dizia-me que trabalhava muito. A vida de modelo é tão exigente como se pensa?

Se se for uma modelo que está constantemente a trabalhar, como era o meu caso, é. Há dois tipos de modelo: os modelos comerciais e os mais high fashion. Eu, de vez em quando, fazia uns trabalhos high fashion, mas o meu mercado era muito o comercial, em que estamos sempre a trabalhar e a viajar de um lado para o outro. Era fantástico. Viajei muito, conheci muitas culturas novas, e foi uma profissão que estou muito grata por me ter acontecido. Não seria a pessoa que sou hoje e não teria mundo como tenho. A moda pode trazer esse mundo, temos é de saber gerir bem o tempo.

Vários modelos portugueses, como é o caso de Luís Borges, singraram internacionalmente. É um meio em que Portugal tem relevo lá fora?

Claro. Nós podemos ser uma fábrica de modelos se assim decidirmos. Temos muitos miúdos, muito talentosos, com muita fome e muita ambição, que é o que acho que faz a diferença entre um bom modelo e um modelo razoável. E vejo muito isso na nova geração de modelos: querem muito singrar, querem viajar, superar aquilo que já foi feito até hoje. Isso é maravilhoso porque, se estivermos sempre a tentar ser melhores, alguma coisa vai acontecer. E quando falo de ambição não é a ambição por dinheiro, mas sim por sermos mais. Acho que a ambição tem de fazer parte de uma pessoa que queira fazer parte do mundo da moda.

A Ana Sofia tinha essa ambição?

Continuo a ter, mas direccionei-a. Tem a ver com utilizar bem o tempo que se tem nesta terra, que não sabemos se acaba hoje. É chegar à cama todos os dias com o sentido de dever cumprido, é tentar sempre superar-me. Não tem a ver com mais ninguém, com o que as outras actrizes estão a fazer. Tem a ver com aquilo que eu defini para mim.

Portanto, a sua competição é consigo.

Exactamente, e acho que é muito saudável. Quando tenho de ser dura comigo também sou, mas sou muito minha amiga. Dou muito valor às coisas que já fiz. Depois de 20 anos de carreira, olho para o meu trajecto e só penso que tem sido muito giro. Estou a divertir-me. Ainda me divirto e ainda tenho muita coisa para aprender. Acho que é isso que me move, é isso que me faz querer mais, mais e mais.

Regressou a Portugal aos 25 anos e passou a ser um dos rostos da MTV Portugal. Como se deu esta mudança?

Foi a coisa mais fixe de sempre. Fiz o casting, fiquei com o trabalho e mudei-me para cá outra vez, porque sentia que a minha carreira de modelo também já não tinha muito a dar. Aos 25 anos, se ainda não houve aquele boom e já trabalhamos há cerca de dez anos, pouco, provavelmente, irá acontecer. Então decidi tomar as rédeas e dedicar-me a outra área. Foi das melhores coisas que me aconteceram, estive exposta a pessoas a que não estaria de outra maneira, músicos, artistas. A equipa era muito jovem, muito cool. A MTV, há muitos anos que não é só música e eu apanhei essa transição. Acho que isso também me deu muita bagagem para o resto da vida e tenho muitas saudades desses dias. Não sou nada saudosista, mas acho que me diverti tanto que, de vez em quando, penso e vem um sorriso. Foi muito divertido e desafiante, porque era uma coisa que nunca tinha feito. E ter uma pessoa como o Diogo Dias ao meu lado... não podia ter tido melhor colega. Ele é muito generoso, sempre se disponibilizou a ajudar, mesmo fora das horas de trabalho.

Imagina-se a voltar à apresentação?

Imagino-me a voltar à apresentação pontualmente, não seria feliz só a apresentar. Mas, de vez em quando, falamos, eu e a MTV, sobre alguns projectos que podem fazer sentido. Alguma coisa há-de acontecer, eventualmente.

Não fechou essa porta.

Nunca fecho a porta a nada e acho que é por isso que a vida me corre bem. Não saio dos sítios zangada, saio sempre em verdade e dou a cara quando tenho de mudar de um sítio para outro. Acho que isso faz com que as pessoas confiem em mim – e eu confio nelas também.

Em 2015 entrou no mundo da representação como protagonista de “A Única Mulher”, da TVI. Foi mais um desafio que abraçou sem medo?

Quando tive de sair da MTV foi um bocadinho duro, porque estava a mergulhar no desconhecido. Era um meio que não era assustador para mim, mas era desconhecido, e o desconhecido, às vezes, pode ser desafiante. Recebi um telefonema do Pedro Curto a perguntar se gostava de fazer uma novela. E eu, claro, como me mando a tudo, disse: “Claro.” Mas sempre a pensar que era uma participação, como já tinha visto outros modelos fazer, nunca imaginei que fosse para protagonista. Não entrámos em pormenores. Já estava na L’Agence e fui fazer o casting, onde estava o Afonso Pimentel, que é quem responsabilizo até hoje. [risos] Foi a minha contracena. Entretanto, fui de férias para o Algarve e recebi um telefonema da minha agente a dizer que eu tinha ficado com o trabalho e que era a protagonista. Aí tive um bocadinho de medo. Nunca tinha tido aulas de representação nem nada que me valesse. Mas, como sou muito despachada, rapidamente falei com o Bruno Schiappa e ele tornou-se o meu coach e acompanhou-me sempre. Foram dois anos e tal de gravações. Quando acabou “A Única Mulher” inscrevi-me numa escola, fiz um curso em Nova Iorque e, entretanto, já fiz mais não sei quantos mil cursos. Estou sempre à procura disso, acho que nunca deixarei de fazer formação entre projectos.

Faz falta?

Claro. Como actor, temos de estar sempre a renovar as nossas ferramentas. A base mantém-se, mas é preciso aprender coisas novas, novas maneiras de fazer. Estou sempre à procura de coisas novas ou de lenha para me queimar, como se costuma dizer. [risos] Até agora, está a correr bem.

Ainda na TVI, voltou a fazer de protagonista, mas também de antagonista. Prefere o lado bom ou o lado mau?

Que pergunta tão boa, mas tão difícil de responder... Gosto dos dois, por motivos diferentes. A protagonista é a adorada, as pessoas gostam muito e têm muito carinho por ela. Ainda por cima, nós, portugueses, somos muito afáveis e muito vocais; então, cada vez que ia a um supermercado, as pessoas continuavam a tratar-me carinhosamente por Mara. Eu percebo, foi a minha apresentação ao público que vê novelas. A antagonista deu-me muito gozo porque foi logo a seguir e também porque acho que ninguém é só bom, ninguém é só mau. Todas as pessoas têm a capacidade de ter os dois lados. Quando tive de interpretar uma personagem menos boa, tive de defender os motivos pelos quais ela era assim. Foi giro que também tenho isso dentro de mim, acho que todos nós temos um bocadinho de tudo. E estar a ser paga para ser mazinha foi muito bom. [risos] Entretanto, já fiz mais não sei quantas personagens diferentes, e a TVI e a Plural, nesse aspecto, sempre me desafiaram. Nenhuma das minhas personagens foi igual à outra.

Pouco antes da pandemia, estava exclusiva com a TVI. Decidiu rescindir contrato. Estava à procura de mais?

Mais uma vez, já estava a olhar para o relógio e a achar que estava tudo muito pacífico. Em 2019 fui fazer formação a Londres durante alguns meses e conheci o meu agente. Era muito difícil conciliar a parte de fazer as selftapes com a condicionante de ter um contrato de exclusividade, que tinha primazia, obviamente, sobre a minha agenda. Já tinha dito duas vezes que não a trabalhos para os quais tinha sido seleccionada e cansei-me de ter de dizer que não a novas coisas na minha vida para estar a fazer mais do mesmo. Foi tudo muito falado, muito pensado. Quando o fiz, finalmente, as coisas começaram a acontecer.

Alguma vez se arrependeu desse passo?

Não me arrependo, mas não fecho as portas à TVI nem a canal nenhum. Não fecho as portas a novelas, a teatro, a nada, desde que faça sentido com o trajecto que eu defini agora. E não é por ter rescindido o contrato com um canal que, neste momento, faz maioritariamente novelas, que não vá trabalhar com eles, até porque, mais uma vez, eles deixaram-me a porta aberta. Mas acho que agora é altura de explorar mares nunca antes navegados.

Um desses mares foi integrar o elenco principal da segunda temporada da série “Devils”, cuja estreia aconteceu recentemente em Itália.

É verdade, o meu agente inglês é muito bom. Eles propõem-nos para os papéis, recebem os guiões, faz-se o casting em casa e o agente envia ao director de casting. Só que, aqui, há uma grande diferença: enquanto em Portugal somos 20 ou 40, lá somos aos milhares para o mesmo papel. É preciso perceber aquilo de que eles estão à procura. Por isso é que prefiro o casting presencial, porque a pessoa pode dar-me direcções. Com a selftape, somos um bocadinho o nosso director de casting.

É intuição?

É. E, lá está, durante estes dois anos já fiz dezenas e dezenas de selftapes e apanhei um trabalho – para se perceber o rácio de uma coisa para a outra. É preciso ser paciente, persistente e muito profissional.

Como foi a experiência de trabalhar numa série internacional?

Foi muito boa. De repente, estava a trabalhar num projecto em que há dinheiro, e isso nota-se em tudo, na comida que nos servem, no tratamento que nos dão, no camarim só para nós. Nota-se no guarda-roupa, até na vontade que as pessoas têm de lá estar. Confesso que, se calhar, durante um tempo, também me limitei sobre o tipo de papel que podia fazer. Porque quando se está muito tempo a fazer a mesma coisa ou o mesmo tipo de projectos, podemos achar que não vamos passar dali.

Quando diz que se limitou, quer dizer que achou que não era capaz de mais?

Não, não. Achava era que talvez não me fosse aparecer essa oportunidade. E, de repente, há aqui uma coisa que se liga dentro e diz: “Se ficares aqui quietinha no teu sítio, claro que não te vai aparecer mais nenhuma oportunidade.” É o típico “quem não arrisca, não petisca”. E eu percebi rapidamente que tinha de me despedir de um lado para as coisas poderem acontecer no outro. E podiam não ter acontecido, podia não estar aqui a dar esta entrevista. Mas aconteceu e ainda bem que aconteceu. Foram três, quatro meses intensos, em que passei muito tempo sozinha. Isso deu para me focar noutras coisas, fiz muito exercício, cuidava da minha alimentação, passeava muito. Conheci Roma sem turistas, foi maravilhoso. Tenho fotografias na Fontana di Trevi sozinha, a pedir os desejos todos. Conheci actores fantásticos e acho que pode ser o início de uma coisa muito boa. Propus-me fazer isto. Quando me despedi da TVI decidi que queria fazer uma série ou um filme internacional. E já fiz. Mas, agora, quero mais. Se não acontecer, não vai ser o fim do mundo, mas é um extra. É uma fome de mais.

A personagem que interpreta na série, Carolina Elsher, é uma investidora que não expõe a sua intimidade. Identifica-se com ela?

Agora, sim, mas já fui uma pessoa diferente que não se importava de abrir a porta para as pessoas entrarem. Agora, não me apetece. Às vezes dizem-me que quando se abre a porta, ela fica aberta e tem de se deixar sempre as pessoas entrar. Não é assim. Há um dia que acordamos e não nos apetece, e temos esse direito, assim como pode acontecer o contrário. Mas foi engraçado a personagem ser assim, porque eu estava a passar exactamente pela mesma coisa que ela. Portanto, acho que facilitou.

Trabalhou ao lado de Patrick Dempsey, o famoso McDreamy de “Anatomia de Grey”. Deixou amigas com inveja?

Todas. Eu sabia que toda a gente o adorava, porque vivia nos Estados Unidos quando a série esteve no auge. Mas, na minha inocência, pensei que só algumas pessoas tinham visto em Portugal. Na altura, não podia contar a muita gente o que andava a fazer, mas quando souberam ficaram muito surpreendidas. Também tenho muitos amigos homens que são mais fãs do Alessandro Borghi, de “Suburra”. São os dois pessoas muito engraçadas, muito agradáveis de se estar, muito cavalheiros. Somos quatro mulheres novas nesta temporada e eles fizeram-nos sentir em casa. Deixaram-nos à vontade para perguntar tudo e para perceber como aquele mundo funciona. Foi incrível. Só tive pena da pandemia no meio disto tudo, porque não deu para haver grandes convívios fora das gravações. Mas foi fantástico trabalhar com estas pessoas. E, lá está, quando uma pessoa trabalha assim, depois só quer trabalhar assim. Quero mais.

As produções internacionais trazem mais responsabilidade?

Trazem a mesma responsabilidade, mas aqui é o meu cartão-de-visita para o mercado internacional e, nesse aspecto, sim, podem trazer mais responsabilidade. Mas tratar bem as pessoas, ser profissional, chegar a horas, também o faço aqui. São coisas que são transversais a qualquer meio, internacional ou nacional. E acho que é por isso que continuo a trabalhar, porque trato muito bem as pessoas com quem trabalho e, em retorno, recebo a mesma coisa. Profissionalismo é transversal aos dois lados, mas tenho noção de que isto é o meu cartão-de-visita e espero que seja bom.

Já há data para a estreia em Portugal?

Deve estrear-se no início de Maio, na HBO.

Ao longo da sua carreira teve ainda uma participação no filme “Quero-te Tanto”, de 2019, de Vicente Alves do Ó. Como foi a experiência do grande ecrã?

É diferente porque temos mais tempo para criar. Foi uma pequena personagem, mas adorei estar lá. Para já, adoro o trabalho do Vicente e dos meus colegas que lá estavam. Depois, é ter mais tempo para fazer as coisas, fazer com cuidado. Não estou a dizer que nas novelas isso não acontece, mas estamos ali todos os dias pressionados com tempo porque são muitas cenas, são 12 horas de trabalho todos os dias. É diferente.

Gostava de fazer mais cinema?

Gostava, e acho que vai acontecer. É uma questão de tempo, de personagens, de guionistas. Acho que agora, como se fala do mundo diverso e de que toda a gente tem o seu lugar, é uma questão de tempo até os guionistas começarem a incorporar isso no seu trabalho. E de dar um espaço a guionistas negros, ou não brancos, para também começarem a contar as nossas histórias. Porque acho que, às vezes, não há espaço para todos porque nem todas as histórias estão a ser contadas. Não me vão pôr a mim a fazer um clássico português, se bem que isso era uma ideia diferente, era disruptivo. Mas já não conto com isso. Agora, conto que alguém escreva histórias que valham a pena contar e em que valha a pena participar, num mundo mais diverso.

Ainda faz falta a diversidade?

Então não? Temos um longo caminho a percorrer e por isso é que digo que é preciso tempo. Mas no que depender de mim, farei a minha parte. Tenho uma ideia de quando estiver a trabalhar, por exemplo, numa telenovela, pedir para que façam parte do painel de escritores – há tanta gente e há tanta coisa para fazer – pessoas negras também, porque faz sentido que as histórias também sejam contadas por elas. Por exemplo, “A Única Mulher” foi uma história que foi escrita por dois autores brancos e foi muito bem feita, mas também gostava de saber como seria “A Única Mulher” escrita por autores negros. Quais seriam as grandes diferenças? Será que os personagens falavam da mesma maneira? Acho que faz falta isso, faz falta contarmos as histórias de maneiras diferentes e com outras vozes. Não queremos sentir que estamos sempre a fazer o mesmo projecto ou que é sempre a mesma história. E, às vezes, quando é sempre escrito pelas mesmas pessoas, há uma tendência para que isso aconteça. Mas tenho fé no futuro. Acho que isso vai acontecer e, como disse, farei a minha parte para incluir toda a gente.

Cresceu no Bairro dos Barronhos e na Outurela. Num vídeo da Câmara de Oeiras disse que foi proibida, durante muito tempo, de dizer de onde vinha. Como é que isso a fez sentir?

Não deixava de dizer, mas é esquisito. Isto foi tudo porque tinha dado uma entrevista à TVI quando comecei a ter alguma relevância internacional. Vieram ao bairro, foram lá a casa, mostrei a minha família. Depois, outro jornalista pegou na mesma temática, de eu vir dali, e fez-me uma entrevista. Nessa altura, fui aconselhada a não falar mais no assunto, porque distraía daquilo que eu estava a fazer, da minha profissão, e tirava brilho. E eu pensava: “Como assim tira brilho? Eu sou dali.” Não achava que tinha de gritar aos ventos, mas não tinha vergonha. Como uma pessoa diz que vem de Cascais ou de Oeiras, eu vinha dali. E venho. Acho que isso nunca jogou contra mim ou a favor. É aquilo que eu sou, mas não sou só aquilo. Já vivi 50 vidas, entre uma coisa e outra, entre o passado e o presente. Sempre fui uma pessoa muito decidida e sempre tive pêlo na venta. Não era mal-educada, era determinada. E quando me disseram aquilo, não me fez o mínimo sentido. Mas nunca escondi, continuei sempre a falar no assunto, não segui esse conselho. E, hoje em dia, ainda há pessoas que vêm falar comigo e me elogiam por assumir de onde venho, como se fosse uma grande coisa. Não é. Acho que nem é assunto.

Ou não devia ser.

Não devia ser, de facto. Cresci ali, tenho muito orgulho das pessoas que me rodeavam, da maneira como cresci e como me fez tornar esta pessoa.

Traz amizades de lá?

Claro que sim. Os meus amigos recentes chegaram a ficar muito ofendidos porque no outro dia, quando fui ao programa do [Manuel Luís] Goucha, disse que os meus melhores amigos continuam a ser os amigos de infância. É verdade. É com eles que vou jantar, são eles que frequentam a minha casa e me conhecem à séria. Também gosto muito dos meus amigos recentes, mas é diferente. Porque estes, os da infância, conhecem-me de outros carnavais e conhecem, talvez, um lado meu que pode não estar tão presente hoje em dia. Eles sabem quem eu sou na verdade. E acho que isso nunca se vai perder porque eu procuro-os, gosto muito de pessoas, sou sociável, e acho que, enquanto assim for, estas amizades vão todas manter-se. Chego a ser chata. [risos] Às vezes, gostava de ter mais tempo para estar com eles, mas as novas tecnologias vieram tornar, neste aspecto, o mundo um lugar melhor.

Levou as suas origens ao longo do seu percurso?

Estão sempre presentes. Aliás, quando me olho ao espelho... olhe para o meu cabelo. [risos] É inevitável. Mas acho que me enriquece como pessoa e, se puder partilhar isso com quem está à minha volta, faço-o. É uma mais-valia até eu ser uma pessoa diferente. Tinha um pai que veio de Cabo Verde, uma mãe portuguesa, e tudo isto faz com que seja a pessoa que sou hoje. Tenho dias bons, tenho dias péssimos, como toda a gente. Mas acho que sei gerir bem isso, sei fazer bem a ginástica.

Alguma vez foi alvo de preconceito?

Sim, provavelmente. Mas... como posso dizer isto? Tento não me focar nisso. Tenho ferramentas para me defender e sofro mais quando alguém que não tem essas ferramentas é vítima de preconceito. Aí, ergo a minha voz e faço tudo o que for possível, tudo o que estiver ao meu alcance. Mas as pessoas que tentam lançar-me preconceitos para cima não têm muita sorte, nem as oiço. É barulho de fundo e, para isso, não tenho tempo. A vida é curta e não devemos focar-nos nisso, mas digo isto porque, se calhar, nunca fui vítima de um preconceito que me abalasse de raiz. Mas sou, obviamente, contra qualquer tipo de preconceito.

Fala muitas vezes sobre a importância da saúde mental. Acha que ainda é um assunto desvalorizado?

Claramente. E agora, com a pandemia, isso foi flagrante. Tenho muita pena, acho que se faz o que se pode, mas estamos sempre ali na red line. Não estou a dizer que não foram feitos esforços, mas acho que não foram suficientes para dar resposta àquilo que nos aconteceu. Obviamente que ninguém estava à espera de uma pandemia mas, depois, a resposta não foi suficientemente rápida. Tenho amigos, pessoas muito próximas de mim, que ficaram muito mal e procuraram ajuda junto do seu médico de família. Primeiro, chegavam lá e nem médico de família tinham. E, segundo, até hoje continuam à espera da ajuda psicológica. É difícil ver pessoas quererem combater aquilo, quererem ser melhores e não quererem que o sofrimento as domine, e não terem uma resposta do Estado. Acho que se fez muito, acho que fomos exemplares no nosso comportamento como sociedade durante a pandemia, mas a resposta à saúde mental não foi, de facto, suficiente. Agora, acho que temos uma oportunidade nova de fazer bem neste pós-pandemia. Mas, a meu ver, toda a gente devia ter acesso a terapia, a apoio psicológico, psiquiátrico. E é triste viver num país em que isso não acontece. Devia falar-se disso e deixar de se pôr a etiqueta de que quem vai ao psicólogo é maluco. O que é isto? Deveria ser uma consulta normal. Ainda estamos um bocadinho longe, mas temos uma oportunidade de fazer melhor, de aprender com os erros. Eu, felizmente, tenho a possibilidade de pagar se me sentir mal, e fiz terapia durante muito tempo. Tenho pena que a maior parte das pessoas não tenha acesso a isto. Por outro lado, em termos de saúde no geral, acho que Portugal está a fazer o melhor que consegue, estamos a dar o máximo. A Graça Freitas e a Marta Temido foram duas mulheres exemplares, inspiracionais até. Como é que elas aguentaram o barco? Nunca me esquecerei destas duas mulheres. Dar a cara diariamente quando as pessoas estavam tão descontentes não é fácil. E tivemos ali dois exemplos de duas supermulheres.

Está nos planos ser mãe?

Está, mas não sei se vai acontecer. Esta pergunta, hoje em dia, traz mixed feelings. Tenho 35 anos, a vida encaminhou-se para outros lugares e tenho as minhas ambições, de que também não estou disposta a abdicar. Nem sei se posso. Hoje em dia, há muitas mulheres com problemas para engravidar. Quero, mas não sei se vai acontecer. Depois, definimos coisas para a nossa vida, agora falando profissionalmente, e onde encaixamos o ser mãe? É lixado termos de escolher porque depois, ao fim e ao cabo, acaba por ser uma escolha. Quando podemos ter filhos, claro. Quando não podemos, é outra coisa. Está nos planos? Está. Se tiver de acontecer, acontecerá.

Para fechar, onde se imagina daqui a 20 anos?

Na Broadway. [risos] Não, a sério, espero estar a dar-lhe uma entrevista outra vez para falarmos dos projectos dos últimos dez anos, em que foi tudo maravilhoso e correu tudo lindamente. Também gostava de voltar a estudar e acho que vai ser na universidade sénior, porque agora tenho muita coisa para fazer. E espero ser uma miúda feliz – e repare que disse “miúda”, não vou perder isso – e que continue a gostar tanto de viver como gosto agora. Gosto mesmo de cá estar. Sou alegre, optimista por natureza. Espero continuar a ter sede e fome de viver, porque acho que é isso que, afinal de contas, me motiva.

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