Ana Guiomar: “Digo há muito pouco tempo que sou actriz”

Ana Guiomar é uma das actrizes mais carismáticas da televisão nacional. Os portugueses acompanham o seu percurso na representação desde a adolescência e neste momento destaca-se pelo papel que desempenha na novela “Festa é Festa”. Nesta entrevista, assume que num futuro próximo quer fazer papéis diferentes daqueles a que nos tem habituado e partilha o gosto especial que tem pelo teatro. Apesar da evolução registada na indústria das novelas em Portugal, assinala que faltam bons argumentos.



A série “Morangos com Açúcar” foi uma rampa de lançamento para uma geração de actores em Portugal. Como recorda a sua estreia na área da representação, nesta série?

Foi uma rampa de lançamento óptima, foi um ciclo. Na altura, acho que nem tinha bem a noção de que queria fazer isto. Foi mais do que uma rampa de lançamento, porque era completamente inconsciente que isso ia acontecer. Foi uma experiência e, para uma criança de 13, 14 anos, foi incrível. Incrível, mas também podia ter corrido mal. Se bem que vivíamos outra época. Acho que o tempo não passava tão rápido. Não termos redes sociais num projecto daqueles era óptimo.

Antes de “Morangos com Açúcar”, teve alguma experiência de representação?

Tinha feito coisas muito pequeninas em televisão, tinha feito muitas campanhas, por exemplo, de regresso às aulas. Na escola tive algumas experiências teatrais, mas irritava-me sempre muito porque ninguém levava aquilo a sério e eu queria fazer a sério.

Quando percebeu que realmente queria ser actriz?

Eu digo há muito pouco tempo que sou actriz. Esse clique não aconteceu há 12 ou 15 anos. Tenho projectos muito importantes na minha vida. Ter entrado no teatro com 19 anos foi muito importante porque me fez ter um clique, uma abordagem muito mais formal à profissão e à exploração de outras coisas para as quais, na televisão, não temos tanto tempo, como, por exemplo, a palavra, a própria gramática, a valorização do verbo, coisas nas quais nem sequer pensava. Depois, tenho projectos históricos como o “Conta-me Como Foi”, que também me deu uma carga diferente, obrigou-me a pesquisar sobre aquela época, sobre aquelas pessoas, aquelas mulheres. Há aqui vários cliques. De há cinco anos para cá - não parece muito, e não é mesmo - é que não tenho nenhum pudor em dizer que quero fazer isto para o resto da vida.

Estreou-se no teatro em 2008. Poder testemunhar instantaneamente as reacções do público é um desafio acrescido? Tem maior impacto para um actor?

Esse impacto com o público, curiosamente, aconteceu no ano passado quando fiz um espectáculo chamado “Perfeitos Desconhecidos”, que é um espectáculo muito mais imediato, muito mais cómico e que provoca uma reacção imediata - às vezes, até descontrolada - do que propriamente nos outros espectáculos que tinha feito até aqui. Claro que gosto do teatro e do contacto com o público, de perceber o que as pessoas estão a sentir, mas gosto muito do caminho que se faz até à estreia. Como não tenho formação, sinto que é um bocadinho a minha formação. E tenho a sorte de ter trabalhado com grandes mestres, como eu considero o João Lourenço, do Teatro Aberto, a Marta Dias, que são pessoas que trabalham frase a frase, palavra a palavra, que nos fazem ver os quadros da época, a roupa da época, e isso, para mim, é altamente enriquecedor. O “Perfeitos Desconhecidos” trouxe essa coisa imediata com o público, e confesso que foi uma coisa que procurei ao fazer um espectáculo mais comercial e mais imediato, porque gosto de televisão, gosto da rapidez da televisão, gosto do tipo de trabalho, mas também gosto muito de teatro. Às vezes perguntam-me se prefiro teatro ou televisão, e não consigo escolher. Mas a verdade é que acho que a minha vida seria muito mais monótona ou, se calhar, já me tinha fartado mais se tivesse feito só televisão, e também se tivesse feito só teatro. Portanto, gosto muito do teatro porque, como não tenho formação, ensinou-me a ver outras coisas, e o crescimento pessoal também foi muito grande.

Sei que há uma peça de teatro na qual vai entrar no próximo ano. O que pode adiantar sobre essa peça?

O projecto está numa fase muito embrionária. Ainda não li o texto, não tenho bem ideia do que é. Sei que, com toda a certeza, não será um desafio dramático.

Ao longo da carreira tem trabalhado em televisão, teatro e cinema. Poder experimentar essas formas de representação permite-lhe alternar entre registos diferentes. É interessante para si ter a possibilidade de alternar entre formas distintas de arte?

É muito interessante. Há algo que quero conquistar agora. As pessoas acham sempre que estou muito ligada à comédia, e a verdade é que, em televisão, me vêem a fazer papéis mais leves. Acho que o “Festa é Festa” é a primeira vez que faço comédia à descarada. Quero muito conquistar um lugar que não seja de comédia em televisão, quero fazer papéis diferentes. Em teatro faço coisas muito mais pesadas mas, como o público não é tão de massas, as pessoas não têm bem ideia do que tenho feito em teatro. Mas é muito interessante fazer papéis diferentes. No cinema falta-me conquistar tudo, porque este país é um bocadinho duro com o cinema. Em televisão tenho de fazer papéis mais sérios depois do “Festa é Festa”, garantidamente.

Tem algum método definido quando passa de uma personagem para outra ao abraçar um novo projecto? Necessita de um período de intervalo?

Do “Amar Demais”, que foi a última telenovela, para este “Festa é Festa” tive um mês e meio de descanso e pensei, “não vou conseguir mudar, isto é um erro”. Mas estávamos naquele período da covid-19 em que não se passava nada e pensei, “erro maior vai ser ficar em casa agora se isto durar muito tempo, portanto, vou”. A verdade é que acho cada vez mais supererrado não haver períodos de descanso, porque vou ficando mais exigente e já não tenho 18 ou 19 anos, com aquela garra toda que tinha. Já me apetece fazer um espectáculo de teatro e fazer só isso, ou fazer só televisão, para poder entregar bem o trabalho, permitir-me saborear, porque, repare, agora vou ter uma experiência que nunca tive: frustra-me saber que vou estar a gravar para a televisão e saber que, na peça de teatro do próximo ano, os meus colegas vão poder estar a 100% naquilo e vão jantar. Porque o teatro tem esse lado que a televisão não tem tanto, essa experiência de grupo. Adoro a parte das tournées, de ir a restaurantes em locais diferentes do país. Adoro isso. E fazer teatro e televisão ao mesmo tempo faz-me correr mais e não aproveitar isso a 100%. Quanto aos períodos de descanso entre trabalhos, em teatro, de um espectáculo para outro, diria, pelo menos, quatro ou cinco meses. E em televisão, agora quando acabar o “Festa é Festa”, gostava muito, muito de ter entre oito meses e um ano, porque nunca parei a sério e acho que estou numa idade que é óptima para fazer balanços pessoais, balanços profissionais. Desde os 14 anos que não paro e, de repente, passaram 20 anos e já tenho 35 daqui a nada.

Referiu o “Conta-me Como Foi”. Fez outros trabalhos que a obrigaram a fazer um maior trabalho de pesquisa e que contribuíram para que crescesse mais como actriz?

No teatro, quase todos, porque mesmo que as experiências não tenham sido tão boas ou tenha gostado mais ou menos das peças, no Teatro Aberto fazemos um trabalho muito engraçado. Eu fiz a “Purga” e fomos ver vários filmes daquela época, quadros. Depois fiz o “O Pai” e era uma diferença de idades muito grande de mim para a personagem principal, portanto, tive de ir buscar outras coisas. Em teatro, quase sempre. Em televisão, infelizmente, não. Acho que em televisão se trabalha cada vez mais rápido e nós fazemos milagres, e penso que, às vezes, o nosso meio artístico é um bocado injusto com a televisão, porque nem toda a gente consegue fazê-la bem nem responder com aquela rapidez e, obviamente, eu gostava que fosse mais cuidada. Mas não há forma.

A sua carreira tem acompanhado o crescimento e o sucesso da indústria das telenovelas em Portugal. Sente uma grande diferença no investimento e na dimensão das produções comparativamente à fase inicial da sua carreira?

Não considero que tenha acompanhado a evolução das novelas. Acho que o “Morangos com Açúcar” foi uma máquina de formação mais rápida e foi isso que, se calhar, chocou o cinema com a televisão. Lembro-me de ser miúda e ver o “Jardins Proibidos”, a “Roseira Brava”. Foram projectos que me marcaram como espectadora que, na altura, se calhar nem tinha idade para os consumir. Não estou a falar mal do projecto nem do método, porque estaria a falar contra mim, mas o “Morangos com Açúcar” foi uma máquina muito rápida. Talvez as novelas tenham evoluído, mas acho que, agora, com as redes sociais, com as plataformas, arrisco até dizer, com autores belíssimos que temos, acho que estamos muito carentes de argumentos. Devia evoluir-se um bocadinho nesse sentido. Fazem falta bons argumentos, histórias diferentes, histórias inesperadas, mesmo que sejam mais leves. Acho que o “Festa é Festa” acaba por ser um sucesso por isso. É leve mas, ao mesmo tempo, a história é muito inesperada. São três casais com quezílias do dia-a-dia. Não vou comparar a um “Friends”, obviamente, mas roça ali algumas parvoíces, muito mais adaptadas à nossa realidade e à nossa carteira. É inesperado e acho que estamos muito carentes de argumento, e faz-nos falta um rasgo na ficção para voltar a aproximar as pessoas. As audiências não me assustam, mas assusta-me a perda de espectadores diária. Quando pergunto a um miúdo de 23, 24 anos o que ele vê na televisão, e ele diz “nada”, fico muito triste. Eu nunca fui essa pessoa. Então, gostava de perceber porque é que ele não vê nada.

É mais difícil prender as pessoas à televisão, actualmente? As plataformas de streaming têm peso nisto?

Acho que os jovens estão muito descrentes na televisão porque já estavam habituados a que nada lhes interessasse muito. Acho que o argumento faz muito a diferença. Se formos a uma Netflix, a uma HBO, temos argumentos para toda a gente. Temos terror, romance, drama. Na ficção, em Portugal, só nos dão uma coisa que são histórias de amor que, normalmente, correm mal durante 200 episódios e depois acabam bem. As pessoas estão descrentes. Temos autores tão bons, a nossa literatura é extraordinária. Porque não desafiar os nossos grandes autores a fazerem algo mais direccionado para ficção? Não sei sequer se isto é possível, mas faltam-nos argumentos diferentes.

A solução pode passar por adaptar livros de grandes autores? Nem todos são pesados ao ponto de não poderem ser adaptados.

Sim, mas, isso, acredito que careça de mais dinheiro, porque, aí, os autores vão ter as suas próprias regras para as histórias que imaginaram. Se eu não fizesse teatro, os argumentos das novelas iam ser todos muito parecidos.

O teatro tem essa característica. Regra geral, as peças são diferentes umas das outras.

Muito diferentes. E vê uma novela, e do que é que se lembra? É a rica ou a pobre, o engraçado ou o mau, a história de amor. É isto. A base pode ser essa, acho é que era muito giro fazer algo diferente. Vejo uma série como a “White Lotus” e aquilo é superdivertido e superleve, mas aquelas histórias podem realmente acontecer. Depois vejo um “The Affair”, uma história de amor em que o marido traiu a mulher, mas tem algo mais. Estamos carentes de argumentos na ficção em Portugal.

A novela “Festa é Festa” tem sido um fenómeno de popularidade. Surgiu num momento marcado pela pandemia, pelo confinamento, com o impacto que isso teve nas pessoas; agora, também estamos a viver um período marcado pela guerra na Ucrânia, pela crise. A novela também tem sido importante na forma como traz alegria às pessoas no final do dia. Sente esse papel que a televisão tem, tal como o teatro e o cinema, de poder transportar as pessoas para uma dimensão diferente?

Sou altamente defensora do “Festa é Festa”. Acho que teria sucesso em qualquer altura: com covid, sem covid. Está é muito na moda dizer isso. Acho que as pessoas sempre quiseram chegar a casa e ter produtos leves. Mas habituámos as pessoas a terem grandes histórias de amor, e nós temos esta questão muito católica, gostamos muito de sofrer, e se gastarmos um dinheirão numas férias é um grande sentimento de culpa. Gostamos de sofrer para fora. Acho que o “Festa é Festa” tinha sucesso em qualquer altura. É um produto que nunca existiu na televisão. Às vezes comparam-no com o “Bem-vindos a Beirais”, com “Os Batanetes”, e acho que é errado. Cada produto é um produto. Eu comparo o “Festa é Festa” mais com o “Uga Uga”, da Globo, que era altamente disparatado. O “Festa é Festa” entra numa categoria de histórias inesperadas e leves, e de fantasia. E nós permitimo-nos muito pouco a fantasia enquanto sociedade, a fantasia do fantástico. E isso fazia muita falta às pessoas.

Qual foi o projecto que mais lhe deu prazer fazer?

Escolho vários projectos. O “Conta-me Como Foi” porque, de repente, descobri que tínhamos de estudar para isto, não bastava chegar lá e ter muita energia. O “Perfeito Coração”, em que trabalhei com a Ana Nave e ela deu-me um twist de rapidez e de ataque de texto que, para mim, foi quase um curso de improviso espectacular. No teatro, a “Purga” foi um impacto brutal. “Vénus de Vison”, porque era um sítio muito tumultuoso e negro onde eu, como ser humano, nunca tinha ido, e era muito miúda na altura. E o “Festa é Festa”, agora, porque me mostrou que é possível criar personagens verdadeiros com características físicas sem ser um boneco - apesar de haver pessoas que acham que é boneco, outras que não acham. Estou-me um bocado a marimbar para a opinião, sinceramente. Mas permitiu-me experimentar, que é algo que, em televisão não é muito permitido. E isso estimula-me muito, diariamente. Senão, nem aguentava ter feito já 500 episódios desta novela.

Já referiu alguns nomes de pessoas que tiveram impacto na sua carreira. Tinha alguma referência, quando era mais nova, com quem já teve a oportunidade de trabalhar?

Eu tinha umas grandes vergonhas com algumas pessoas. Ainda hoje, quando vou ao Manuel Luís Goucha, não digo nada de jeito porque via-o com a minha avó. Tenho muitos nervos. Também é muito complicado trabalhar com ela. Consegui agora, com umas cenas que gravámos no Porto, perder a vergonha, porque ficava mesmo do tamanho de uma formiga. Depois, em teatro, o João Perry foi um sonho e a Ana Nave foi muito importante.

Sei que não descarta a hipótese de voltar a fazer apresentação. Qual é o projecto ideal ou desafiante o suficiente para voltar a fazê-lo?

Confesso que tenho tido alguns convites nesse sentido e não os tenho feito, exactamente, porque não sinto que sejam os projectos ideais para mim e por estar numa fase de trabalho em que só me ia sobrecarregar mais, e a entrega não seria igual e não poderia crescer naquele desafio. Como não tenho pretensão nenhuma de apresentar, nem sei. O “MasterChef”, adorava, mas nem é por apresentar, mas sim porque gosto daquilo. Se me dissessem que não ia apresentar o “MasterChef” mas que podia ir para lá experimentar aquilo tudo e falar, iria na mesma. Acho que, para voltar a apresentar, tem de ser algo muito descontraído, mais de entretenimento, um concurso. Gostei muito de fazer o “Ver p’ra Crer”, por exemplo, pois estava ali só a mandar bitaites e a divertir-me. Nem sei bem como responder, mas porque acho que os conteúdos de entretenimento são fracos. Tenho saudades de um “Big Show Sic”. Agora, já não se podia fazer o “Ai, os Homens”, mas era um conteúdo muito pateta. Tenho saudades desses conteúdos dos anos 80, 90.

Em termos de conteúdos de entretenimento, os anos 80 e 90 presentearam-nos com conteúdos memoráveis.

Sim, programas muito mais fantásticos. Acho que isso também é uma evolução da sociedade, temos muito mais regras. Temos de obedecer a coisas a que não obedecíamos. Somos cancelados por qualquer razão.

O “Ai, os Homens” teria esse problema, provavelmente.

Seria um disparate brutal, mas também acho o “Quem Quer Namorar com o Agricultor?” um disparate brutal. Não é por ser de um canal concorrente; se fosse um programa do canal de que visto a camisola, diria o mesmo. São formatos que, para mim, não são apelativos. Por exemplo, também gostava de apresentar um programa como o “Jogos sem Fronteiras”, é um clássico.

Está no auge ou num pico da sua carreira profissional?

Há quem diga que a idade que estou a atravessar agora é uma idade terrível. Já ouvi isto muitas vezes. Dizem-me: “Não podes fazer de mãe, mas também não podes fazer de velha, e não podes fazer de nova.” E eu até tenho feito umas coisas. Acho que a nível teatral, sem dúvida nenhuma, dos 35 para a frente é um período fantástico para todas as personagens clássicas, tirando a Julieta, que acho que são incríveis de se fazer, tanto em textos clássicos como contemporâneos. Portanto, no teatro espero vir a ter desafios muito fortes. O auge? Não sei. Imagine que o “Festa é Festa” não era um sucesso, será que essa pergunta era feita? Não sei, o nosso mercado é tão pequenino que não sei em que é que se mede. Eu podia não estar a fazer uma novela de sucesso e ter feito uma curta-metragem de um personagem espectacular que, para mim, seria o auge. Só não quero deixar de ser desafiada. Estar três anos a fazer o “Festa é Festa” e não ter nenhum projecto teatral ou não ter nenhum telefilme para dizer que não, isso é que não quero.

O seu companheiro, Diogo Valsassina, também é actor. Qual é o segredo para conseguir conciliar a vossa vida profissional e pessoal de forma saudável e equilibrada?

Eu e o Diogo conhecemo-nos muito miúdos e acho que acabámos por crescer juntos. Isso ajuda bastante: no respeito, na admiração, nas expectativas, em tudo. Depois, temos uma abordagem muito diferente ao trabalho. Muito diferente mesmo. Ele tem um método, eu tenho outro. Vemos as coisas um do outro, admiramos algumas coisas, outras não. Damos a opinião um ao outro, mas são sempre críticas construtivas. De resto, acho que é só não competir. É um pormenor. Não me lembro muito durante o dia que temos a mesma profissão. Mas o projecto que mais odiei fazer foi com ele porque, de repente, não se admira aquele processo de trabalho e aquilo começa a irritar. Gostava muito, muito de fazer teatro com ele para andar superirritada, mas ter essa experiência.

A paixão pela culinária deu azo à página de Instagram “Mãe, Já Não Tenho Sopa!”, onde partilha as suas receitas, que posteriormente resultou num livro de receitas. Quando começou a partilhar as receitas no Instagram esperava que suscitasse tanto interesse e sucesso junto das pessoas?

Comecei aquilo por graça, na altura, porque as redes sociais estavam numa rampa de lançamento e queria ver o que ia dar. Nunca pensei, ao fim de tantos anos, ter este projecto. Se me perguntar se tenho o mesmo prazer, vou dizer que tenho, mas dá-me muito mais trabalho porque, de repente, tenho uma agenda, e depois tenho o teatro e a novela, entre outras coisas. Mas há algo de que gosto muito e que ganhei com o período de confinamento, que foi a aproximação às pessoas. Comecei a conhecer melhor as pessoas que me seguem, percebi que aquilo é mesmo um mundo onde elas falam todas umas com as outras, e é quase uma religião. Para quem gosta de cozinhar à séria, é uma religião, e isso é muito engraçado.

Depois destes anos todos é mais difícil encontrar receitas novas? É um desafio?

É um desafio quando tenho um ingrediente para trabalhar que não é habitual na minha cozinha ou no dia-a-dia. Obriga-me a experimentar e a testar umas coisas. Mas não me custa muito.

Viajar também é uma parte importante da sua vida. Qual foi a viagem que mais gostou de fazer e o que a tornou especial?

Estou muito afastada das viagens. Depois deste tempo todo, não tenho grande vontade de viajar. Isto é muito grave, estou muito preocupada com isto. Também porque as últimas experiências no aeroporto são um inferno. Mas aquela ideia de ir um mês de férias de mochila às costas, já não estou aí. Mas gostei muito do Japão e gostava muito de voltar lá. Uma viagem grande que me falta fazer, e que gostava muito, talvez seja à Austrália, para fazer a Grande Barreira de Coral. Costa Rica, também. Acho que é só começar outra vez e depois, a partir daí, é mais fácil.

Que sonhos e aspirações profissionais ainda lhe faltam alcançar?

Há tantas peças que ainda gostava de vir a fazer... Ainda gostava de fazer cinema à séria. É um mercado difícil de entrar. Sinto que, se calhar, tenho de fazer menos televisão para tentar lutar por esse mercado e ter mais disponibilidade. Mas, como fui criada em televisão, tenho sempre o bichinho da rapidez, estou muito viciada naquele stresse. Se calhar, quando parar a sério, volto a fazer um reset. Mas os meus sonhos são esses. Sou muito feliz e muito realizada, quer a nível pessoal, quer a nível profissional. Tenho uma sorte do caraças. Agora, está na moda fazer gratidão, mas é mesmo verdade. Se continuar assim, estou muito bem.

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