Ainda a presciência revolucionária de “The Watermelon Woman”

O marco de cinema de Cheryl Dunye, primeiro filme americano realizado por uma mulher negra e lésbica, encerra este sábado, no São Jorge, o Queer Lisboa, numa dupla celebração dos 25 anos do festival e de um filme sobre o cinema enquanto espaço de democratização.



Cheryl é uma cineasta. Ou melhor, ainda não é uma, exactamente. Está a “trabalhar para isso”, como nos diz. Mas sabe que, se se identificar como uma, eventualmente, lá acontecerá. Quando “The Watermelon Woman” (artigo na íntegra na edição em papel desta semana do NOVO) atinge a sua duração, Cheryl não só é uma assim denominada cineasta como esta sua primeira longa-metragem nunca foi realmente sobre ela, ainda que seja, de forma literal, uma autoficção e uma criação de uma linguagem fílmica que procura fechar uma fenda social e dar a visão a tantas outras mulheres como ela: negra, lésbica e artista.

Com uma energia infecciosa e o tipo de sentido de humor pontiagudo e acídico dos metadocumentários, a Cheryl que começamos por conhecer não é a mulher mencionada nos ensaios de estudos fílmicos sobre o movimento new queer cinema dos anos 90. Ela é jovem, trabalha num videoclube, vive preocupada com o processo do “fazer” audiovisual enquanto o faz e quer uma temática de investigação. Como não usar a falta de representação no ecrã de outras mulheres, figuras-modelo que se parecem com ela, para elevar as falhas sistémicas dos objectos culturais heteronormativos?

Sob o signo pioneiro de Isaac Julien e da performatividade da sua curta-metragem “Looking for Langston” (1989), reconstrução da memória do poeta Langston Hughes através do olhar da experiência negra homossexual, Cheryl evoca uma interpretação do lesbianismo interseccional olhando essencialmente para a forma como as histórias são contadas e começando, a partir daí, a perseguir a ideia de Faith Richards, uma actriz negra americana, na década de 1930, relegada para papéis racializados não creditados em filmes de Hollywood, também conhecida por Fae Richards, para aqueles que se lembram dela enquanto cantora em bares lésbicos na Filadélfia da altura. Após ver o filme “Plantation Memories”, em que Richards interpreta o eterno papel de uma mammy, uma empregada escrava, Dunye procura criar um mapa à volta desta perdida identidade da mulher a quem chamam Mulher-Melancia - um aceno à radical e absurdista comédia de Melvin Van Peebles “The Watermelon Man”, na qual um empresário branco fulminantemente racista acorda como um homem negro.

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