Afonso Reis Cabral: “Há estereótipos da minha geração, mesmo artísticos e literários, que não acompanho”

Chegou aos 30 com dois aplaudidos romances: “O Meu Irmão” (Prémio Leya) e “Pão de Açúcar” (Prémio Saramago). Entretanto atravessou Portugal a pé, de Chaves a Faro, pela mítica Nacional 2, experiência que deu mais um livro. Enquanto não chega o próximo, por agora “em descanso”, aos 31 anos, Afonso Reis Cabral prepara-se para revisitar os locais por onde passou Camões, para produzir um novo manuscrito colectivo de “Os Lusíadas”.



Há escritores que se esquivam de dar entrevistas. Quando se ganha o prémio Leya com 24 anos e se dá tantas de uma só vez, não fica pouco por dizer?

Se pensar numa entrevista como uma conversa em que tenho sempre um interlocutor diferente, essa conversa também será sempre diferente. Nessa medida, sim, pode ser uma conversa estimulante e não vejo o porquê de não dar uma entrevista, desde que seja para dizer o que penso. Não tenho qualquer reserva moral contra dar isso. Não me revejo nessa ideia do escritor marginal.

Foi um dos vencedores do prémio Leya mais mediáticos. Como lida com esse momento particular da sua vida?

É de certa forma um momento fundador - não propriamente da minha escrita, mas em termos de imagem. Foi um bocado estranho, porque tinha 24 anos, escrevia há 15, desde os nove, e há alguns chavões que foram usados logo à partida que me impressionavam, porque não os compreendia. Por exemplo, a questão da idade e a questão do Eça de Queirós, que evidentemente nunca pude aceitar, nem aceito. É uma coincidência genética em relação à qual não tenho qualquer responsabilidade. Na altura, isso surpreendeu-me um bocado.

De onde veio isso?

Achava inclusive que, não tendo Queirós no nome, passaria despercebido. Penso que essa informação foi veiculada na conferência de imprensa aquando do anúncio do prémio. Não assisti. Desafiaram-me a ir lá e cheguei no fim.

Mas sente algum remorso pelo facto de terem ido buscar essa informação?

Tenho muitos remorsos em relação a muitas coisas da minha vida, mas não propriamente a coisas de terceiros. Acho que seria inevitável, de alguma maneira. Hoje em dia estou mais em paz com isso, porque acho que, depois de ter publicado um livro de poesia aos 15 anos, de ter publicado “O Meu Irmão” no contexto do Prémio Leya [2014], depois de “Pão de Açúcar” [2019] receber o Prémio Saramago e por aí fora, qualquer bom leitor perceberá que essa informação é um dado biográfico, não mais do que isso.

Mas o Afonso Reis Cabral de hoje teria uma postura diferente em relação à que teve na altura?

Acho que teria percebido melhor o espanto de algumas pessoas em relação à idade. Estava muito feliz por ter conseguido escrever o livro e por ele ter saído num contexto que o favorecia e que também me permitiu descobrir imensas coisas. A figura do leitor para mim foi uma descoberta e continua a ser, de tal maneira que uns tempos depois de sair “O Meu Irmão” tive um momento de paragem na escrita, até emocional, porque tinha descoberto o leitor, a exposição pública e o que isso implica, e não queria comprometer a minha privacidade ou intimidade.

Mas sente que esse momento condicionou a vivência mais plena da sua juventude?

Acho que seria muito ingrato pensar num prémio que me deu tanto como algo que me tirou alguma coisa. Tudo o que possa ter sido tirado dependeu de mim e do meu feitio. Agora, é evidente que deixei de escrever sozinho, e por vezes tenho saudades desse escrever sozinho.

Sem os ecos à volta?

Sem os ecos e sem sequer saber se o livro vai ser publicado. A inocência que tinha em “O Meu Irmão” [era] uma inocência mais em relação à vida do que em relação à literatura, porque nessa altura tinha uma ideia de literatura muito formada, fosse a ideia de estrutura narrativa e de história ou de uma voz narrativa muito marcada. Não me sentia de maneira nenhuma estreante, embora o fosse. Talvez seja outro tipo de ilusão. Mas a verdade é que hoje tenho uma certa saudade de escrever em solidão.

Não mudou muita coisa, portanto.

Acho que não [risos]. Não há realidades alternativas, nem realidades paralelas. Nesse sentido, não sei o que teria sido. Sei que o que se seguiria seria sempre um próximo romance, talvez um bocadinho mais cedo do que foi o “Pão de Açúcar”.

Demorou mais por esse período de descoberta que se abriu?

Tive esse tempo de descoberta do leitor, do que é escrever em companhia - de escrever sabendo que vou ser publicado, lido e criticado. Não foi propriamente um statement contra a publicação de um romance todos os anos.

A verdade é que já são dois romances, um livro sobre uma viagem a pé pela Estrada Nacional 2 [“Leva-me Contigo”, de 2019], além do livro de poemas. Quem lê sobre o Afonso fica com a ideia de que escrever foi a única coisa que sempre quis fazer.

Eu achava que sim e, como me meti nessa ilusão, a certa altura era tarde demais para sair dela [risos]. Quando comecei a escrever a sério, sentia - ou estava iludido disso - que essa seria a minha vida. Nunca tive de fazer escolhas. Nunca tive de escolher a área de estudos, nunca tive de escolher a profissão. Só tinha de honrar aquilo que achava que era um percurso natural.

Mas pensou em alternativas, caso não viesse a ser escritor?

Tenho um certo sentido prático da vida, portanto nunca me passou pela cabeça que pudesse fazer da escrita vida. Sabia que tinha de aprender a ler melhor e cada vez mais. Daí ter ido para Estudos Portugueses e Lusófonos na FCSH [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]. Ao mesmo tempo, sabia que a saída profissional desse curso poderia ser edição, que hoje faz parte da minha vida. Quando penso na minha profissão, não penso na edição, mas ela sempre esteve lá: comecei a trabalhar aos 18 anos como revisor, porque gosto de trabalhar e porque não me sentiria bem estando simplesmente a estudar - e também para ajudar a pagar os estudos.

Teve, por exemplo, a orientação da também escritora Silvina Rodrigues Lopes. Pessoas como ela ajudaram nessa orientação para a escrita?

A escrita é um acto tão solitário, tão unicamente dependente da fortaleza de espíritos e da força de vontade, que qualquer pessoa só faz bem em aproveitar as mãos que lhe são dadas. Essas foram umas das mãos que me foram dadas.

Sente-se um escritor profissional, que escreve para publicar?

Talvez [a ideia de] escritor profissional tenha um certo cariz depreciativo. A verdade é que é a minha profissão e também o meu ganha-pão. Mas, antes de tudo isso, é a minha vocação, portanto penso que as duas coisas se aliam bem. No dia em que deixar de ser possível, farei outras coisas. Não tenho qualquer problema em trabalhar em qualquer sítio.

Mas sempre com a escrita presente?

Nunca deixará de estar presente e há vida em todo o sítio, ou seja, há escrita em todo o sítio. Caminho muito a pé e encontro vida a rodos. É uma coisa que me preenche de tal maneira que, por vezes, nem me sinto capaz de responder com escrita à vida que vou vendo - já nem digo vivendo. É uma coisa de mirone: quando estou nos meus passeios, aproveito para pescar pequenos momentos da vida de terceiros, sem compromisso nenhum, e isso vai tudo parar à escrita de alguma maneira.

$!Afonso Reis Cabral , escritor . Lisboa , 11 de Outubro de 2021 . ©Enric Vives-Rubio
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A sua escrita passa irremediavelmente por esse lado observacional?

É curioso. Por vezes sinto-me mais descritor do que escritor e acho muito importante viver para escrever. Não tenho nada a ideia do escritor retirado ou do escritor entregue a si mesmo. Muitas vezes, vejo inclusive a escrita como motivo de vida e como motivo de novas experiências. Quando estava a escrever o “Pão de Açúcar” aproveitava algumas cenas que via ou que experienciava, apenas para perceber como é que as colocaria em termos de escrita. Coisas muito simples. Há, por exemplo, um capítulo do “Pão de Açúcar” em que o Rafa, o narrador, está atrás do Fábio, a persegui-lo sem que este se aperceba. Precisava de saber como é que era perseguir uma pessoa na rua, portanto tive de sair de onde estava, de identificar uma pessoa e de a seguir durante uma hora. Felizmente essa pessoa não percebeu que estava a ser seguida. Para mim foi essencial, para conseguir escrever o capítulo.

Uma experiência como “actor do método”.

É exactamente isso. Por vezes acho que isso é importante na escrita, justamente porque quanto mais se vive, mais se escreve.

Esse lado de voyeur e de flâneur tentou arrumar-se a certa altura na literatura.

Para já, o Cesário Verde não se arruma, embora não tenha de maneira nenhuma a pretensão de estar nessa tradição. Simplesmente gosto de caminhar, gosto de acção, e isso motiva também a escrita. Identifico-me bastante com alguns aspectos da escrita do John Steinbeck, é uma das minhas referências. Ele era também um homem de acção. Nas “Viagens com o Charley” [1962], já no pós-Prémio Nobel, com 60 e tal anos, adapta uma carrinha e anda pelos Estados Unidos sozinho com o cão Charley, mas também antes, para escrever “As Vinhas da Ira” [1939], esteve nos campos de refugiados dos migrantes que iam para a Califórnia em busca de uma vida melhor. Leu muito e investigou sobre esses campos, mas esteve lá, sentiu o cheiro à terra e das pessoas, viu as barracas onde viviam e transformou isso em escrita. É o quinto de seis irmãos.

Tem um busto de Flaubert em casa. Pode dizer-se que teve uma “educação sentimental”?

Por vezes, em escritores esses pormenores parecem ter algum significado muito especial, mas não têm [risos]. Trabalhava num alfarrabista, o Artes e Letras, e na primeira semana de trabalho parti um busto do Flaubert e o meu patrão disse para o deitar fora. Pu-lo todo num saco que seria para o lixo, mas depois pus a mão na consciência e achei que podia colá-lo e reconstruí-lo. Assim fiz.

O que lhe queria perguntar era como nasceu essa ligação com a literatura.

Não sei se há uma explicação conjuntural. O que é certo é que cresci rodeado de livros e que os meus pais são grandes leitores, que sempre me acompanharam na leitura e na escrita. Nasci já com os meus pais mais velhos. As minhas irmãs são bastante mais velhas do que eu, portanto acho que já nasci noutra fase familiar e, embora tenha uma família grande, sou quase filho único porque quando tinha 5, 6 anos, as minhas irmãs já tinham saído de casa. Tinha o meu irmão mais novo, mas com síndrome de Down, portanto não é um irmão típico e companheiro no sentido em que entendemos a irmandade. Sempre estive um bocado isolado e entregue aos livros. Talvez isso possa ajudar a explicar o início da minha ligação à escrita.

Sente-se integrado na sua geração?

Não particularmente. Há alguns estereótipos da minha geração que não acompanho, mesmo do ponto de vista artístico e literário. Quando era adolescente ouvia [Charles] Aznavour e muita música dos anos 60, 70. Lia clássicos, tinha muitas referências partilhadas com os meus pais. Portanto, acho que não tive uma adolescência também no sentido clássico do termo, nem nunca acompanhei muito algumas coisas que marcam a minha geração, embora seja muito atento. Há uma certa pulsão da minha geração que não tenho.

É um modo de exclusão?

Não, acho que é natural. Não é aversão. Coisas tão simples como só ter redes sociais aos 24 anos, porque saiu “O Meu Irmão”. Estava completamente à parte de algumas coisas que iam acontecendo nesse sentido, e estava bem.

Mas acompanha as tendências políticas e de pensamento destas novas gerações?

Não particularmente. Há uma certa tendência da minha geração para achar que está no centro do mundo - e não está. Nem no centro do mundo, nem no centro da História. Nunca vi a vida a partir desse ponto.

A política tem um peso em si?

Como tem na vida de qualquer pessoa, mas não penso na minha escrita como politicamente reivindicativa. Acho que quem escreve, de uma maneira ou de outra, fala sobre política, porque a política é o que resulta de tentarmos lidar uns com os outros, mas não defendo que a mensagem política se sobreponha à literatura, ou seja, que esta seja apenas um instrumento.

Há uns anos perguntaram-lhe se conseguia apontar razões para a falta de opinião política entre os romancistas portugueses contemporâneos. Como olha para isso?

Talvez [isso aconteça] um pouco porque a tradição contemporânea está inquinada pelas redes sociais. Esta sociedade excessivamente opinativa, sempre em fogo de vista, não é um espaço que promova a troca de ideias e o crescimento intelectual. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, estamos constantemente confrontados com propostas artísticas cujo objectivo é mais o activismo do que a arte. Eu acho que a substância artística, literária, deve vir antes. Um romance não é uma mensagem. Se é de facto produto da boa literatura, trata-se de um reflexo da vida. Se, depois, a literatura está aliada a uma orientação política, claro que isso é legítimo. Falando de Saramago, que era comunista e que tinha uma orientação muito marcada, a sua literatura transcende em absoluto a mera mensagem. Falamos da construção de personagens únicas, na voz narrativa, no conflito, nas cenas muitíssimo bem construídas, no imaginário. Quer dizer que a literatura não vinha em segundo lugar. Mas hoje reparo num tipo de leitor, cada vez mais comum, que pretende resumir a literatura ao simples suporte ideológico. Quase como se a literatura já estivesse a mais, fosse um mal menor. Incomoda-me, por exemplo, que se fale do “Pão de Açúcar” como útil enquanto alerta. O livro tem alertas, de facto, e não só o alerta evidente em relação à discriminação “trans”. Tem também alertas em relação à exclusão social, às instituições de acolhimento, etc. Mas simplesmente veicular alertas, por muito bem-intencionado que o gesto possa ser, é estar no campo da banalidade. Até do panfletismo.

Sente que esse eco diminui o livro?

Não acho positivo que se reduza a literatura, minha ou de seja quem for, ao pretexto para uma mensagem. A busca pelo fogo de vista, pelo ensinamento aos berros, é uma ânsia muito contemporânea. Muito de rede social. Se uma pessoa precisa de um livro como o “Pão de Açúcar” para aprender a respeitar alguém, se não se tinha já definido perante a gravidade de um acontecimento como o caso Gisberta, acho que já lê o livro com olhos de não-leitor.

Em que ponto está o projecto para o qual foi convidado pela Livraria Lello a revisitar os locais por onde passou Camões?

O projecto chama-se “Novo Canto para Os Lusíadas”, foi uma ideia e convite da Livraria Lello, já no fim de 2019, e deveria estar a decorrer agora. Veio o bicho, mudou-nos totalmente a vida e, naturalmente, teve de ser adiado. Vai ser retomado em Junho do próximo ano. Será um ano de viagens, percorrendo os vários locais onde Camões esteve e viveu, mas também muitos outros locais da Rota das Índias, na Índia, Macau, Indonésia. O objectivo da viagem não é só ou apenas conhecer todos os locais onde Camões esteve, é também ter um livro em branco, que se vai transformar num novo manuscrito de “Os Lusíadas”.

Foi o que lhe propuseram?

É o que me propuseram: ter um livro em branco que se vai transformando num novo manuscrito de “Os Lusíadas” a várias mãos. Ou seja: eu vou encontrando pessoas na rua e apresento-lhes a possibilidade de transcreverem à mão uma estrofe de “Os Lusíadas”. Uma pessoa, uma estrofe. Quanto a mim, é óbvio que me dará uma experiência de vida muito grande e será uma oportunidade de viajar, de conhecer melhor Camões e de escrever crónicas de viagem que vou publicar na revista Visão. Entretanto, até Junho do ano que vem, estamos a preparar a logística, o roteiro e tudo o que um projecto destes implica.

E qual será o resultado final?

No fim teremos “Os Lusíadas” transcritos à mão por 1102 pessoas.

Mas vai haver algum apoio na forma de chegar a estas pessoas?

O projecto tem o apoio do Instituto Camões, que vai ser crucial nos vários locais e nos vários países para se encontrar pessoas que tenham histórias interessantes e para as quais haja no facto de estarem a transcrever à mão “Os Lusíadas” um pretexto para falar da história delas - desde pescadores até escritores, artistas e inventores. Tem de ser transversal.

Para o ano assinala-se também o centenário de José Saramago. Foi o último escritor a receber a distinção criada com o seu nome. Teve um eco tão assinalável no seu percurso como o Prémio Leya?

É difícil para mim avaliar isso, porque são prémios de cariz muito diferente. O Leya é de inéditos, eu era um autor desconhecido, portanto tudo para mim era novidade. Já o Prémio Saramago é atribuído de dois em dois anos a obras já publicadas. O “Pão de Açúcar” já tinha saído, já tinha feito um certo percurso, mas a verdade é que o prémio o ressuscitou. É quase como se o livro tivesse ficado em pousio durante um ano e a partir daí é que realmente tivesse começado a ser lido.

Para dois romances, dois dos mais importantes prémios literários portugueses. Muita pressão?

Não são precisos o Prémio Saramago e o Prémio Leya [para isso]. Já tenho uma certa ansiedade crónica, combatida e acho que melhorada. Sentiria sempre a pressão do próximo livro e estou a senti-la neste momento.

A esse propósito, foi já visto como um dos “Herdeiros de Saramago”, na série da RTP para a qual Carlos Vaz Marques e Graça Castanheira convidaram todos os vencedores do Prémio José Saramago. O legado do Nobel explica uma certa crise no romance em Portugal?

Há certamente uma crise em relação ao romance, mas não por parte de quem escreve. Acho que há uma crise particularmente por parte de quem lê. Primeiro, porque há cada vez menos leitores de ficção, que de certa maneira estão a extinguir-se em relação aos leitores de não-ficção. É uma trajectória muito clara. Vemos livros dos anos 90 com tiragens de 80 a 90 mil exemplares; hoje em dia, se um romance vender 20 ou 30 mil, é uma coisa excepcional. É claríssimo que há cada vez menos leitores de ficção. Penso que é possível colocá-los a todos num estádio de futebol pequeno. E pensar na comunidade de leitores toda metida num estádio de futebol é algo bastante angustiante. Ao mesmo tempo, há uma certa desconfiança em relação à ficção, como se o facto de um livro ser ficcional fosse um defeito. Os leitores procuram muito a identificação. Isso é algo que me perturba, porque reparo cada vez mais que os leitores gostam de certos livros pela aproximação que estes transportam em relação às suas próprias vidas, quase como se lessem um livro em busca de um espelho. Quantas críticas não li, a livros meus e a outros, de leitores que dizem que não gostaram de A, B e C no livro, mas que acharam muito interessante porque conhecem aquelas ruas ou porque os diálogos são idênticos aos que tiveram na infância. É um processo de procura de identificação que acho problemático, porque restringe o livro e a ideia de literatura à banalidade. É um pouco parecido com o fenómeno das bolhas das redes sociais. Mesmo com opiniões controversas, as pessoas precisam cada vez mais de se encontrar, pelo ambiente e pelos outros. Estamos sempre em busca de um espelho. A literatura não é um espelho, é justamente o quebrar desse espelho.

Isto explica o sucesso de muitos livros.

É curioso ver que os livros têm tanto mais sucesso quanto mais se aproximarem do que é muito comunicável - por exemplo, o sentimento. Até prova em contrário, todos temos sentimentos, portanto, livros que falem de sentimentos atraem logo mais leitores. Quando há uma proposta contrária à banalidade, as pessoas tendem a ficar sem fôlego. O leitor tende a achar que perdeu o pé. Na reacção aos meus romances, vejo em muitos a dúvida, quase a desconfiança, face ao que é real ou não. “O Meu Irmão” parte de um conhecimento e de uma experiência que me foi dada pela vida. Não é autobiográfico. Pude usar o conhecimento daquela realidade para escrever e muitas vezes as pessoas sentem-se quase enganadas por isso. A mesma coisa no “Pão de Açúcar”.

A sua experiência como editor leva-o a acreditar que isto explica a tomada de terreno pela não-ficção?

Há cada vez mais livros de não-ficção, particularmente em áreas de autodescoberta. Há uns anos, tudo o que dizia “que se f***” qualquer coisa estava nos tops. E, sim, as pessoas vão em busca de uma função no livro. A literatura cumpre de facto um propósito, mas é um propósito tão mais transversal e tão mais intangível que muitas vezes passa ao lado desse leitor mais prático.

Sei que há um livro em preparação, do qual ainda não quer falar.

Há uma primeira versão e há-de haver um livro, mas não é uma coisa fácil. Acho sempre que nunca vai acontecer, mas, como disse, não sou particularmente prolífico e neste momento esse livro está em descanso.

Um artigo que escreveram sobre o Afonso ainda antes de ganhar o Prémio Leya revelava que tinha o sonho de viajar para Angola num petroleiro. Mantém essa ambição?

Gostava particularmente de ir a Angola. Era uma ambição minha que nunca se concretizou. Já não me lembrava dela, o que é mau porque agora ficou a apetecer-me fazer isso. Veio de quando tinha 13 anos e fui à Alemanha de camião TIR. Voltei a fazer a mesma viagem aos 25, mas aí com o intuito de vir a escrever um romance com o título “TIR” - o problema desse romance é que o que me atraía particularmente era o título, e não basta isso. Não me lembrava de maneira nenhuma dessa viagem do petroleiro a Angola, mas antes de fazer a EN2 a pé desafiei a Marinha para me deixar embarcar num submarino. Não me deixaram, mas gostava que ainda pudesse vir a acontecer.

E há outros desejos para os próximos anos?

Mais do mesmo. A resposta mesmo simples e correcta é: mais um livro.

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