A violência dos amores de Hollywood

O actor Johnny Depp processou a ex-mulher, Amber Heard, por esta o acusar de violência doméstica. O caso é de difamação, mas o tribunal está a ouvir testemunhos sobre as agressões e isso pode mudar a litigância na América.



Se fosse um filme, as pessoas diriam que os autores do guião tinham exagerado, que a história era inverosímil, mesmo para os padrões de Hollywood. O processo por difamação que o actor Johnny Depp lançou contra a sua ex-mulher, Amber Heard, conseguiu surpreender pela violência do enredo, mas o julgamento que decorre na Virgínia pode ter consequências na vida real, influenciando a evolução do movimento #MeToo sobre denúncias de abusos sexuais de homens poderosos.

Processos por difamação envolvendo somas elevadas tinham a capacidade de dissuadir as vítimas, mas este caso ameaça estabelecer uma nova preocupação por factos que, em teoria, não estão a ser julgados, isto se o tribunal concluir que uma denúncia honesta não pode difamar.

Johnny Depp lançou a acção após ser acusado por Amber Heard de abuso e violência doméstica, num texto de opinião que a actriz assinou em 2018 no Washington Post, embora sem nomear Depp, que na altura dos factos mencionados era marido da actriz e, portanto, o único agressor possível.

Segundo o queixoso, os danos para a sua imagem incluíram o cancelamento de um contrato para filmar o novo filme de “Piratas das Caraíbas”, que lhe garantia um cachê fabuloso. As testemunhas da defesa garantiram perante o júri que os prejuízos causados pelo artigo ascendiam a 40 milhões de dólares. A indemnização pedida é de 50 milhões, muito mais do que o acordo de divórcio, de apenas sete milhões.

Num dos momentos do julgamento, Depp testemunhou que era a sua companheira a ter comportamentos violentos. “Podia começar com uma estalada, com um empurrão, com o lançamento para a minha cabeça do controlo remoto da TV, um copo de vinho para a minha cara”, explicou o actor.

Esta é a estratégia: pôr em causa a actriz e tentar impedir que o julgamento esteja centrado num anterior processo por difamação do actor contra o jornal britânico The Sun, em 2020. Este acusou Depp de “bater em mulheres”, mas foi ilibado por um tribunal londrino, pois Depp agredira a mulher e esta “temeu pela sua vida”.

A questão é se os factos demonstrados em Londres são relevantes neste caso. No clima tóxico de cancelamento que caracteriza o mundo dos espectáculos, Depp afirma ter perdido oportunidades de trabalho. As testemunhas da acusação garantiram que o casal entrava muitas vezes em conflitos mais ou menos públicos.

A defesa de Amber Heard começou com uma perita que garantiu que a actriz sofre de stresse pós-traumático, devido a violência física e agressões psicológicas e sexuais. Dawn Hughes, uma psicóloga, estudou o processo britânico e avaliou Heard como paciente. Na sua opinião, “os sintomas são claros” de “violência física e sexual, agressão psicológica, coerção e vigilância”. Depp tinha um ciúme doentio e ameaçou actores que trabalhavam com Heard. Os episódios tornavam-se mais violentos com o abuso de “álcool e drogas”. No casamento de 15 meses, ocorreu um incidente na Austrália em que a actriz terá sido espancada, ameaçada de morte e violada por Depp. O julgamento termina no fim do mês.

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