A humilhação dos intelectuais

A escritora Ludmila Ulitskaya é a autora de “Sonechka”, publicado em Portugal pela Cavalo de Ferro. Ulitskaya é frequentemente apontada como candidata ao Nobel da Literatura.



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O leitor fica preso desde a primeira linha ao feitiço de uma prosa semelhante ao rumor de um rio suave. A história parece simples: uma mulher pouco bonita, apaixonada por literatura, casa com um pintor mais velho, Robert Viktorovich, com vida anterior contada em sussurros, regressado do Ocidente nos anos 30, passagem pelo Gulag, recém-libertado. Estamos na União Soviética de uma época de “silêncio profundo”.

O casal de judeus russos vive com dificuldades e momentos de perfeição. Sonechka e Robert têm uma filha, Tânia, que nasce em condições difíceis, na Basquíria. Compreendemos melhor o pintor. O único médico na maternidade, um polaco, “pan Zuwalski”, vê em Robert “alguém que pertencia à sua casta, à intelligentsia europeia humilhada”.

Está quase tudo dito nesta frase. As coisas vão melhorando, a família é pobre mas consegue emigrar para o bairro dos artistas em Moscovo. A felicidade irá ruir mais à frente, com o aparecimento de uma nova personagem, uma jovem ambiciosa, Jasia, pessoa iludida e destroço à deriva.

Este romance curto é sobre a resistência e a paciência do amor. Foi o primeiro livro publicado pela autora, na Novy Mir, em 1992, e agora vertido para um português belíssimo, numa tradução do original russo de Larissa Shotropa.

Não adianta dissecar a psicologia das personagens ou perceber a intenção política. São vidas, talvez um pouco de autobiografia: Ludmila Ulitskaya, de origem judaica, nasceu em 1943, na Basquíria. Em algumas personagens sentimos que existe qualquer coisa de real. Às vezes basta uma frase: “Aliosha Piterski, o dedicado admirador de Tânia. Havia de se tornar famoso e já carregava essa glória futura.” Tânia será a personagem mais próxima da autora.

A história é sobre a URSS, mas também sobre a arte e a “procura do mistério”. O velho pintor, escreve Ulitskaya, “não fizera nenhuma descoberta. Apenas revolveu a terra que fora cedida, o que não foi pouco”. A personagem principal, Sonechka, é um enigma, uma mulher que se recusa a ser aniquilada e que sofre sem o mostrar: “Pensava com tristeza na sua vida despedaçada, na solidão que de repente a abraçava.”

O final é digno da melhor tradição da literatura russa (Turgueniev, Tchekov, Nabokov). Prosa límpida, sem sentimentalismo.

Ulitskaya tem sido uma formidável crítica do regime do Kremlin. Está, também aí, na linha da grande tradição dos intelectuais russos. Diz-se que a escritora anda regularmente nas listas mais curtas do Prémio Nobel e este livro justifica os rumores, mas a sua eventual candidatura será, este ano, ainda mais forte. Ulitskaya foi das primeiras figuras de intelectuais russos a condenarem a invasão da Ucrânia. Atreveu-se a um depoimento publicado na Novaya Gazeta onde afirmou sentir “dor, medo e vergonha”. A revista tem tido imensos problemas com as autoridades e está bloqueada. Para Vladimir Putin, a entrega do Prémio Nobel da Literatura a esta escritora seria uma notícia bem mais grave do que muitas sanções.

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