A guerra guardada pelos soldados portugueses

Ao longo dos conflitos que em Angola, Guiné e Moçambique se estenderam de 1961 a 1974, a censura do Estado Novo foi capaz de controlar a informação que circulava pelas vias oficiais sobre a guerra nas colónias. Num circuito paralelo, ela chegava também contada nos aerogramas enviados para Portugal pelos combatentes. No Museu do Aljube, “A Guerra Guardada” expõe, com as suas histórias, parte dos arquivos fotográficos desses homens.



A guerra é a guerra. Mas guerras há muitas e contam-se cada uma à sua maneira. E não são um detalhe contornável os documentos oficiais que Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte decidiram reproduzir logo em início de percurso em “A Guerra Guardada”, exposição acabada de inaugurar e patente no Museu do Aljube, em Lisboa, até 20 de Março, a partir de fotografias de colecções privadas de dezenas de ex-combatentes da guerra colonial. São documentos confidenciais, entre despachos e correspondência com classificação de “muito secreto”. Assunto? “Cartas e fotografias relativas à acção das F. Armadas e à acção geral antiterrorista escritas e tiradas em Angola por militares.”

Nessa missiva enviada pelo chefe do Serviço de Informação Pública nas Forças Armadas para Luanda era apresentado o problema: o “apreciável número de fotografias focando vários aspectos das acções levadas a cabo” que vinha sendo enviado de Angola para a metrópole, juntamente com cartas “descrevendo com notável dose de exagero e fantasia as acções de repressão”. Por exemplo: “Um militar que veio ferido narrou, a pessoa digna de crédito, que a sua coluna tinha abatido, numa sanzala, muitas mulheres e crianças.” A preocupação com o envio desse “material” narrando “práticas bárbaras, fantasiosas e falsas, de certo modo macabras”, que constituiria, caindo “nas mãos do inimigo, uma óptima fonte de propaganda antiportuguesa”, levava à recomendação final do coronel António Augusto dos Santos: “Julga-se que seria muito útil restringir ao mínimo essa possibilidade, quer quanto às fotografias, quer quanto à correspondência.”

É um dos documentos do Arquivo de Defesa Nacional relativos à guerra em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique que só depois de 2010 um despacho de desclassificação ministerial tornou acessíveis. Estava-se ainda no início da guerra. A missiva, de Dezembro de 1961, é reproduzida juntamente com um despacho da Presidência do Conselho, do Secretariado Geral da Defesa Nacional e do Serviço de Informação Pública das Forças Armadas determinando, logo em Janeiro seguinte, as “normas de segurança a observar na publicação, radiodifusão ou televisão, de notícias, crónicas, reportagens, fotografias e filmes relativos à acção das Forças Armadas no Ultramar”. O esforço nunca produziu os efeitos pretendidos. Na fase mais intensa de troca de correspondência, esse “material” que o Estado Novo pretendia controlar chegou a ascender às dez toneladas diárias, sublinha Maria José Lobo Antunes, co-curadora de “A Guerra Guardada”, juntamente com Inês Ponte, ambas antropólogas e investigadoras do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

As imagens como prova

As provas estão à vista nesta exposição que propuseram ao Museu do Aljube e que parte do projecto de pós-doutoramento que a antropóloga Maria José Lobo Antunes (filha de António Lobo Antunes, cuja correspondência com a mulher entre 1971 e 1973 durante o serviço militar, em Angola, foi aliás editada em 2005 em “D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto”, adaptado ao cinema por Ivo M. Ferreira em “Cartas da Guerra”) vem desenvolvendo em torno da representação visual da guerra colonial portuguesa, tanto em colecções privadas como em arquivos institucionais.

Estão essas provas, por exemplo, na história que acompanha uma das fotografias expostas no final do percurso, narrada a Maria José pelo seu autor: “Andaram atrás de mim por causa desta fotografia”, diz Boaventura Martins, que logo depois a descreve: “São dois Dakotas da força aérea, por baixo das asas tinham um leque de torneirinhas e era com isto que espalhavam napalm e outros produtos químicos para queimar as lavras. Uma inspecção das Nações Unidas foi a Angola porque havia denúncias sobre a utilização de químicos pelos portugueses. Estes aviões andavam a fugir à frente da ONU, quando os inspectores chegaram a Luanda eles foram para Nova Lisboa [hoje Huambo] e depois aterraram em Gago Coutinho [Lumbala Nguimbo]. Eu aproveitei a estadia deles lá para tirar fotos. O comandante da frota andou à minha procura para me tirar o rolo. Não me encontrou.” E hoje vemos essa fotografia tirada em Angola em 1971 por Boaventura Martins a constituir prova de factos que, mesmo depois do fim da guerra, continuaram por anos a ser negados.

“Isto liga-se com a desclassificação [dos documentos relativos à guerra]. Durante anos não se pôde falar de muitas coisas. O napalm até muito recentemente foi negado. Sempre que houve [menções ao seu uso], em vários livros de ficção publicados por ex-combatentes, as altas patentes das Forças Armadas desmentiram-no”, diz Maria José Lobo Antunes ao NOVO num artigo que pode ser lido na íntegra na edição em papel desta semana.

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