A beleza do avesso

Na sua nova criação, a coreógrafa e dramaturga Sónia Baptista pensa o corpo como lugar de vida, mas também de morte. Nesse estado de lenta decomposição, os gestos, as palavras e os sons dão forma a um “longo velório”, onde se debate o que pode ser belo e feio. Em estreia na Culturgest.



O som de uma mosca a pairar sobre as nossas cabeças leva-nos quase de imediato a “A Mosca”. o filme de culto de David Cronenberg, Na história, com contornos de horror e ficção científica, um cientista excêntrico protagonizado por Jeff Goldblum vai-se transformando lentamente num ser híbrido, semelhante a uma mosca gigante, depois de uma experiência falhada. O ser humano, idealizado e belo, torna-se assim um ser abjecto, marcado pelo nojo.

Esta é uma das referências que servem de base a “WOW”, a nova criação da coreógrafa e dramaturga Sónia Baptista, que sobe ao palco da Culturgest juntamente com Joana Levi, Gaya de Medeiros, Cire Ndiaye e, num momento final, a actriz Inês Gonçalves.

Nesse mesmo espaço, que tanto é de debate e de diálogo como de gesto e de movimento, escuta-se um prólogo inicial sobre a vida e a morte, corpos em metamorfose e o luto. “Chamámos a mosca”, diz Sónia, “para este cenário onde os corpos estão naquilo que seria um estado decomposição”. A partir daí, pensa-se na inevitabilidade do tempo, que traz o envelhecimento e a morte.

“Esta peça começa com uma reflexão sobre o que é o belo, o que é o sublime, mas também o que é o nojo. Exploramos os arquétipos que dão forma a estes conceitos, tantas vezes canonizados.” Marcadamente sensorial, recorrendo a momentos de leitura e ambientada pela música de Eduardo Roan, a partir da obra de Antonio Vivaldi, a performance é também por isso marcada pelo absurdo e o nonsense.

Os corpos contorcem-se em conjunto e em momentos distintos exploram outras forma de se fazerem olhar: a dada altura, uma das intérpretes pede aos espectadores que fechem os olhos e pensem apenas em Marilyn Monroe; tanto na actriz de vestido branco na icónica cena do filme “O Pecado Mora ao Lado” (1954), como no que seria a actriz num dia normal, acabada de despertar, desmaquilhada e longe da sua imagem eternizada no cinema. Mas “WOW” não é uma criação sobre a objectificação do corpo da mulher ou do homem, realça a coreógrafa. “Trata-se de olharmos para a beleza do avesso, para o que está por dentro e o que é visceral.”

Regressa-se à mosca, que “se alimenta da morte” e que poisa sobre o que está em decomposição. “Tudo o que acontece durante a performance são tentativas de assombração e toda esta peça é como se fosse um longo velório”, acrescenta. Tal como em “A Metamorfose” de Kafka ou na estética explorada pelos escritores góticos ou pelos filmes de terror, não é a ideia das aparências que importa realçar. “Essa ideia sempre existiu, não é de agora. Queria confrontar a minha morbidez gótica e terminar uma trilogia de espectáculos nos quais pensei sobre a tristeza, a raiva e agora a morte.”

Nesta natureza morta dançada pensa-se, afinal, neste estado último, também ele belo e sublime. “Faz parte da nossa existência, tal como a vida.”

$!A beleza do avesso
Ler mais
PUB