O combate à corrupção começa nas urnas

António Capela
24 de Setembro de 2021

Em corruptos não se vota. Ponto.

Imagine, caro leitor, que contrata uma pessoa para fazer serviços de limpeza em sua casa. Suponhamos que essa pessoa, além de bastante eficiente, é até muito simpática. A casa fica sempre num brinco.

Agora, acrescentemos um dado: a dada altura, começa a dar conta que desaparecem, com alguma regularidade, módicas quantias de dinheiro que costumava deixar numa gaveta da cozinha: uma nota de dez esta semana, uma de vinte na próxima, outra de vinte na seguinte... Não há margem para dúvidas: a regularidade e a data dos desaparecimentos fazem-no perceber que a pessoa que contratou é, certamente, a culpada. Faz sentido que essa pessoa continue a vir a sua casa? Deve continuar a pagar-lhe os seus serviços?

O mais elementar bom-senso dita: evidentemente que não.

Então eu ousaria responder: “mas não roubou assim tanto.” Ou contrapunha: “mas trabalha bem, a casa fica sempre impecável, dificilmente alguém faria melhor.” Ou ainda: “é certo que rouba, mas é duma correcção extrema, tirando isso não há razões de queixa!”. Ou até mesmo: “pode roubar, mas faz o que as pessoas anteriormente contratadas não fizeram”.

Todos os demais argumentos imagináveis só acrescentarão ridículo à situação. Mas, honestamente, todos estes argumentos não são assim tão diferentes dos argumentos usados por aqueles que afirmam votar em políticos que julgam corruptos: “É verdade que rouba, mas tem obra feita!”; “Ele é corrupto, mas gosto dele, discursa bem.” Por aí fora...

Alguém deixaria o seu dinheiro num banco em que, ocasionalmente, são desviados os depósitos dos seus clientes? Alguém contrataria para porteiro do seu condomínio, quem tenha um histórico de assalto de casas? Alguém nomearia como guarda florestal, uma pessoa com antecedentes pirómanos?

Todos estes exemplos grotescos são equivalentes ao do cidadão que admira e vota no político corrupto.

Então, qual a razão para termos, de algum modo, legitimado este discurso indiferente para com a corrupção? A principal razão é o facto dos cidadãos se esquecerem que o dinheiro público é seu. É o seu dinheiro. O dinheiro que está nos cofres do Estado, esse que se encontra nos cofres do Banco de Portugal, ou no IGCP, em qualquer ministério, ou na mais pequena das Juntas de Freguesia – esse dinheiro não é de nenhum político. Esse dinheiro é seu. Esse dinheiro é de todos os portugueses. O político foi eleito para o administrar – para administrar, caro leitor, o seu dinheiro. O político não é um dono, nem sequer um dono temporário dos fundos que gere. O político é tão-somente um administrador.

A raiz etimológica de administrar é ad ministrare, que conhece duas traduções possíveis. A primeira é “servir”, a segunda “vigiar”. A razão para a dupla etimologia prende-se com o facto deste ser o verbo empregado para descrever a tarefa prestada pelos soldados romanos que, durante a noite, ficavam de serviço, de vigia, para dar o alerta caso os inimigos se aproximassem.

Qual o sentido de contratar alguém para administrar, para servir, para vigiar o património que me pertence, sendo esse alguém um ladrão? A corrupção destrói toda – leia-se, toda – a dinâmica necessária ao funcionamento regular das instituições democráticas. A maior ameaça à democracia não é o populismo, é a corrupção.

Para que consigamos ir varrendo da política a corrupção, é muito importante que a Justiça funcione atempada e eficazmente. Porém, mais crucial do que tribunais eficientes, são eleitores responsáveis. Em última instância, se ninguém votasse em políticos corruptos, não haveria corrupção na política.

O Estado de Direito pressupõe valores bem definidos, princípios muito claros. A corrupção não é exclusivamente um factor económico; é, antes disso e muito mais fundamentalmente, um factor moral. Essa decadência moral mina a democracia.

São os cidadãos, mais até do que os políticos, quem desempenha a essencial missão de manter a democracia saudável, para que esta possa resistir às várias doenças que tanto a ameaçam. Se, em primeiro lugar, é fundamental exercer o direito de voto; não menos importante é não usar o voto para promover agendas de corrupção, que, ostensivamente, têm desrespeitado o povo português.

A obra, a simpatia, o historial não são contra-argumentos válidos. O voto deve ter tolerância zero para com os políticos corruptos – é na urna que começa o combate contra a corrupção.